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20
Nov17

Só hipocrisia climatérica?

Ricardo Jorge Pereira

Volto a referir a problemática associada às alterações climáticas.

Mais de quinze mil cientistas de todo o mundo alertaram, há dias – depois de há um quarto de século o terem também feito… –, a Humanidade para um facto real: o Homem está a destruir a Natureza e, portanto, a destruir-se.

Cito, porém, um exemplo que me parece ser significativo da hipocrisia associada a este ‘aumento’ da importância da chamada questão ambiental e, assim, da movimentação política e diplomática em relação a acordos climáticos como o de Quioto ou o de Paris indutora de uma espécie de superioridade moral («Nós, ao contrário de outros, estamos empenhados nas metas climáticas para evitar a ruína do planeta»).

Refere-se, no artigo “Germany is a Coal Burning, Gas-Guzzling Climate Change Hypocrite” (escrito por Paul Hockenos) que a edição online da revista Foreign Policy publicou há poucos dias, que a Alemanha (subjectivamente, um enorme modelo civilizacional e, de forma objectiva, a maior potência económica da Europa) «ficou muito para trás no que se refere à prometida redução drástica da emissão de gases com efeito de estufa. Na verdade, a emissão deste tipo de gases não sofreu quaisquer reduções em quase uma década e a Agência Alemã do Ambiente calculou que as emissões feitas pelo país totalizaram, em 2016, 906 milhões de toneladas de dióxido de carbono – a maior ‘quantia’ a nível europeu – e 902 milhões de toneladas em 2015. E para 2017 os dados disponíveis sugerem um novo aumento das emissões».

E que «a Alemanha é o país da Europa que mais extrai e queima carvão que foi, em 2016, o maior ‘responsável’ pela produção energética do país com uma quota de 49%».

De resto, «a Alemanha é o país do mundo que mais extrai um subtipo de carvão (o carvão castanho) que é um dos combustíveis fósseis mais poluentes».

17
Nov17

A dependência da tecnologia

Ricardo Jorge Pereira

Segundo li num texto há alguns dias, um estudo (também ele recentemente divulgado…) descobriu que a maioria dos utilizadores de telemóveis “inteligentes” (os smartphones) nos países considerados ricos em termos económicos mexe nesses mesmos aparelhos cerca de 2600 vezes em cada dia.

Concluo, assim, que essa maioria toca nos seus telefones portáteis 108 vezes por hora e quase duas vezes a cada segundo que passa.

Não creio estar entre esta maioria de cidadãos mas, admitindo eu a validade científica de tal descoberta, o estudo prova, desde logo, o quão dependentes os habitantes dos países mais ricos estão da tecnologia e, seguramente, viciados por ela.

Mas também prova uma outra ‘coisa’.

Por sinal, bem mais paradoxal e sinistra.

A de que, num momento histórico em que me parece que nunca existiram tantas oportunidades de contacto com o Outro – a época da chamada globalização – vivemos tão sós.

Talvez a solidão seja mesmo o preço a pagar por tanto (ilusório) conforto.

16
Nov17

Investigação silenciada

Ricardo Jorge Pereira

Vários media europeus e norte-americanos submeteram, há poucos dias, à atenção do vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, uma carta aberta para pedir a realização de um inquérito independente sobre o assassinato, em 16 de Outubro passado, em Malta, da jornalista de investigação Daphne Caruana Galizia.

Li, na versão online do jornal francês Le Monde, a missiva enviada pelo que transcrevo (e traduzo) um excerto:

«O escandaloso assassinato da jornalista maltesa de investigação Daphne Caruana Galizia lembra, de forma brutal, os perigos que os jornalistas profissionais e, de um modo geral, os cidadãos correm de cada vez que tentam “trazer à luz do dia” os comportamentos corruptos e ilícitos dos ricos e poderosos deste mundo».

O que me levou a pensar na liberdade.

Somos livres?

Sim, claro.

Convém - sentenciarão alguns - é que não utilizemos essa liberdade para pensar (muito) naquilo que, de facto, muitas vezes, faz “mover o mundo” nem, pois, nos sirvamos da liberdade para tentar fazer frente, por assim dizer, à opressão – tenha ela a forma de corrupção, crime ‘altamente’ organizado (de “colarinho branco”, muitas vezes) ou tenha a forma de outra ilegalidade qualquer (política, por exemplo).

Se não...

15
Nov17

A igualdade de género

Ricardo Jorge Pereira

De acordo com o recente relatório elaborado pelo Fórum Económico MundialGlobal Gender Gap Report 2017 –, a Islândia é o mais “igualitário” de entre os 144 países analisados.

Ou seja, é o país em que a igualdade de género é mais conseguida no que se refere à economia, à educação, à saúde e à política.

Seguem-se a Noruega, a Finlândia, o Ruanda (o país africano é o país do mundo em que a percentagem de mulheres no parlamento nacional é mais elevada: 61%) e a Suécia.

Portugal fica-se pelo 33.º lugar.

A questão da igualdade entre os géneros deve continuar, em minha opinião, a ser debatida nas sociedades de todo o mundo mas deve, simultaneamente, continuar a “apostar-se” na tomada de medidas políticas concretas para a promover já que não creio, por tudo o que me tem sido dado a ver, que a acção voluntária dos homens seja suficientemente vigorosa para a incentivar…

Da efectiva igualdade entre os géneros humanos dependerá, como, de resto, de outros factores (como os ligados às alterações climáticas e aos rendimentos económicos, por exemplo), o futuro, melhor ou pior, das sociedades.

14
Nov17

Mude-se

Ricardo Jorge Pereira

A viagem asiática do presidente norte-americano suscita-me uma outra observação.

Ouvi Donald Trump dizer, em declarações a jornalistas, que tinham que ser negociados novos acordos comerciais com determinados países já que a balança comercial era desfavorável aos Estados Unidos da América e, por isso mesmo, «injusta» e lesiva dos interesses norte-americanos.

Ou seja, deveriam ser esboçados novos acordos de comércio com regras que permitissem, então sim, lucros para as empresas norte-americanas e, por extensão, para o Tesouro do país.

A lógica era esta: «só se eu ganhar é que é um tratado justo. Se eu perder já não é...».

Lembrei-me, por momentos, de um acto referendário que ocorreu, há alguns anos, em solo europeu (já não sei se na França ou na Holanda): como o ‘resultado’ foi ‘negativo’ para um dos lados, por assim dizer (suponho que para a Comissão Europeia), acabou por ser repetido tendo em conta essa mesma lógica ‘misturada’ com o factor cansaço.

Cansados e desmotivados, os cidadãos votantes acabaram por votar de acordo com as pretensões desse órgão europeu.

Assim, pôde já ser rotulado de “justo”...

13
Nov17

A ignorância do Ocidente - II

Ricardo Jorge Pereira

Escrevi há dias sobre a ignorância cultural, geográfica e política da Europa (ou melhor, de muitos dos seus líderes).

Ora, pretendo hoje retomar o ‘tema’ estendendo-o, porém, a outras latitudes: Xi Jinping pronunciou na abertura do 19.º Congresso do Partido Comunista Chinês (no passado dia 18 de Outubro) um discurso com cerca de três horas de duração. Nele, o líder chinês evidenciou a sua visão para o país não tendo apenas como ‘horizonte’ temporal os próximos cinco anos mas sim os próximos trinta. Ou seja, o ‘caminho’ para se alcançar o sonho chinês: transformar a China na superpotência líder do mundo.

É evidente que atingir tal objectivo implicará contornar e/ou eliminar uma série de barreiras.

Num momento em que o presidente norte-americano (e a sua entourage…) está praticamente a terminar a sua viagem política e diplomática a vários países asiáticos – e também à China –, penso fazer todo o sentido abordar e transcrever o conteúdo de um texto cujo título é “Learning from China: three lessons for the ignorant West” e que dá conta de algumas dessas barreiras e obstáculos.

O seu autor é, também, consultor internacional e orador – Diego Gilardoni – e foi publicado na edição online do jornal de Hong Kong South China Morning Post no início do passado mês de Setembro.

Não o faço, no entanto, sem deixar duas pequenas notas prévias.

A primeira: embora considerando, diferentemente do autor referido, que o ‘Ocidente’ não é todo igual nem, pois, uma entidade moral, ética, social, económica e cultural homogénea reconheço, todavia, a existência de um pensamento pouco salutar comum à generalidade das elites políticas e empresariais dos Estados Unidos da América e dos países europeus.

A segunda é esta: o facto de colocar aqui a tradução que fiz deste texto não significa, naturalmente, que considere a cultura em que nasci e cresci “lixo” e a cultura chinesa “perfeita”.

Não.

Acredito que temos que relativizar as coisas, por assim dizer.

A chamada “cultura ocidental” tem, garantidamente, muitos defeitos mas tem, também, muitas virtudes, se se quiser dizer assim.

Tal como a chinesa ou como qualquer outra do mundo, de resto.

Acho – e permito-me interpretar o espírito do autor – que o texto que escolhi transmite, no fundo, uma mensagem: que temos que aprender uns com os outros.

Todos com todos.

 

 

«Existe apenas uma coisa mais espantosa do que a metamorfose económica por que a China tem vindo a passar nas últimas décadas: é a ainda muito generalizada ignorância sobre a China que existe nas elites política e empresarial do Ocidente.

Vivemos num mundo multipolar e muito complexo em que a China se está a tornar num parceiro indispensável mas que muitos, através de um quadro mental ocidentalizado e simplista ainda amarrado ao século XX, não compreendem hoje nem os desafios que lhe correspondem.

O crescente poder da China no plano mundial é entendido como uma combinação de fascínio, de extrema admiração, de preocupação e, às vezes, de um medo injustificado e raros são os que fazem um esforço sério para entender a China e a sua maneira de olhar para o mundo.

Isto é um erro grave já que compreender a cultura chinesa se tornou indispensável para quem queira compreender o hipercomplexo mundo em que a China desempenha um papel cada vez mais importante.

Perceber o ‘sistema’ cultural chinês não é apenas extremamente importante para entender as razões que suportam o comportamento da China: o Ocidente poderia, na verdade, aprender muito com a China cujo mecanismo de pensamento está, pelo menos em parte, melhor preparado para ultrapassar os desafios do nosso exigente tempo.

Enquanto que, por exemplo, no Ocidente prevalece uma mentalidade de “curto prazo” que está na base de ‘males’ políticos e económicos (da crise financeira de 2008 à transformação de regimes democratas em ineficientes regimes “vetocratas”, por exemplo), a cultura chinesa está focada no “longo prazo”.

Ora, ter uma perspectiva de “longo prazo” permite-nos olhar para as situações através de um ponto de vista mais cristalino reduzindo, por isso, o facto de poderem ser tomadas decisões apressadas sem consideração, claro, pelo contexto geral.

A perspectiva de “longo prazo” da China baseia-se no princípio taoísta segundo o qual a única lei imutável do Universo é a que diz que este está em constante mudança.

Para os chineses as situações alterar-se-ão sempre e aquilo que é, hoje, um aspecto negativo poderá tornar-se, amanhã, num aspecto positivo tal como, de resto, aquilo que é, hoje, um ‘prejuízo’ se poderá transformar, amanhã, em ‘lucro’.

É por isso que aquilo que importa para a China é o contexto.

Tudo isto contribui para o bom desempenho ao nível global de muitas empresas chinesas que poderão integrar, de uma forma pragmática, os seus objectivos de “curto prazo” numa estratégia de “longo prazo”.

De facto, aquele que tem sido, nos últimos anos, e é, talvez, o maior exemplo de um projecto chinês de “longo prazo” dá pela designação de A Iniciativa Faixa e Caminho” [ou, em língua inglesa, “The Belt and Road Initiative”], a visão chinesa para uma nova Rota da Seda [da qual, aliás, falei aqui no blogue] que, se for bem sucedida, alterará o comércio global nas próximas décadas.

Efectivamente, um projecto económico e geoestratégico de uma tão grande envergadura não poderia ter sido delineado por um governo do Ocidente mais focado nas próximas eleições do que nas próximas gerações.

Um outro aspecto da cultura chinesa que mostra com esta se encontra em radical oposição à do Ocidente reside no facto de que enquanto a mentalidade ocidental se foca nas ‘coisas’ como entidades individuais a chinesa foca-se, por seu lado, nas relações entre essas ‘coisas’.

Estamos, na tradição ocidental, habituados a pensar de forma analítica: para que o ‘todo’ possa fazer sentido, precisamos de observar as várias partes isoladamente.

A tradição chinesa é, pelo contrário, completamente diferente já que os chineses pensam holisticamente.

O que significa que não separam as ‘partes’ do ‘todo’ uma vez que o ‘todo’ não é o resultado das várias ‘partes’ conjugadas mas sim como que o ponto de encontro da reunião de todas as ‘partes’.

Na verdade, esta diferença entre os padrões de pensamento ocidental e chinês reflecte-se, de forma muito clara, no campo da medicina.

Na China trata-se uma doença perspectivando todo o corpo do doente e não apenas o órgão afectado porque qualquer problema que afecte uma parte do corpo é visto como um sintoma local de um problema de todo o corpo.

Mais do que no campo da medicina esta abordagem pode ser muito útil para dar sentido à complexidade do nosso mundo em que todas as ‘matérias’ globais (sejam elas de origem económica, social, cultural, militar ou natural) estão interligadas e não podem, por isso, ser vistas de forma isolada sob pena de se correr o risco de perceber apenas parte da situação em causa.

Uma outra característica importante da cultura chinesa é a integração de opostos e de contradições.

Na China, como diz o ditado popular, se é certo que uma qualquer declaração é verdadeira, também o seu contrário pode ser exacto.

Nada disto faz sentido no quadro lógico binário do pensamento ocidental baseado no princípio da não contradição segundo o qual se A é verdadeiro e B é o contrário de A, então B tem necessariamente que ser falso.

Não é assim no pensamento chinês influenciado pelo princípio taoísta “Yin” e “Yang” segundo o qual todas as ‘coisas’ são inseparáveis dos seus opostos: tanto A como B, apesar de serem opostos, podem ser verdadeiros.

Enquanto os ocidentais vêem dois conceitos (aparentemente) opostos como irreconciliáveis, os chineses vêem-nos como partes de algo maior e podem, pois, conjugá-los num novo conceito.

O melhor exemplo deste padrão mental é o dado pela língua chinesa em que a palavra para designar “crise” resulta da combinação das palavras “perigo” e “oportunidade”.

Estando à vontade com esta ambiguidade, os chineses podem, por isso, fundir duas perspectivas opostas e criar uma nova.

Podemos perceber esta característica cultural nalguns conceitos políticos desenvolvidos nas últimas décadas como, por exemplo, “Um País, Dois Sistemas” e “Economia Socialista de Mercado”.

Estes conceitos são, apenas, para muitos ocidentais, oxímoros incompreensíveis mas para os chineses eles reflectem uma integração holística e dialéctica de opostos que abrem caminho para uma nova e original perspectiva que não é baseada numa análise abstracta e dogmática da realidade mas numa adaptação pragmática a um contexto específico.

Os chineses não pensam “ou” mas sim “e”: não “Estado ou Mercado” mas sim “Estado e Mercado”, não “Competição ou Cooperação” mas sim “Competição e Cooperação”.

No Ocidente, a maior parte dos agentes políticos ainda pensa de forma dogmática em termos da existência de opostos irreconciliáveis; são, pois, incapazes de construir uma nova perspectiva da realidade e é por esta razão que estão a perder terreno.

O mundo viveu, nos últimos 15 anos, mudanças dramáticas e as mudanças futuras (como resultado de alterações ao nível do equilíbrio geoeconómico e o advento de novas tecnologias) vão necessitar de um correcto quadro mental da finança mundial e dos líderes políticos.

Infelizmente, no Ocidente, muitos líderes políticos e empresariais irão enfrentar os desafios do futuro com “ferramentas” intelectuais do passado.

Para se ser, hoje, um líder global tem que se ter um horizonte mental global.

Desenvolver um quadro mental global implica conjugar diferentes perspectivas e, através da inovação, integrá-las numa só.

Uma nova perspectiva pode ajudar-nos a ‘desmontar’ a complexidade deste nosso mundo e a encontrar novas soluções para novos problemas.

Os líderes ocidentais têm que perceber que o facto de aprenderem com a cultura chinesa só poderá trazer benefícios e abrir novas ‘fronteiras’ e oportunidades.

Confúcio disse um dia que a verdadeira sabedoria é perceber-se o quão ignorante se é.

Chegou, pois, o tempo para que os líderes políticos e empresariais do Ocidente percebam a sua ignorância e façam algo para a solucionar».

10
Nov17

«Finalmente a chuva»...

Ricardo Jorge Pereira

Dada a situação de seca em todo o país, lançou o governo português no final de Outubro passado uma campanha de sensibilização no sentido de que os cidadãos interiorizassem certos comportamentos no que à utilização da água dizia respeito.

Ora, a capa de um jornal dizia, poucos dias depois, o seguinte: «Ordem para poupar no consumo de água».

Por seu lado, a capa de um outro jornal foi, talvez, mais religiosa na mensagem transmitida: «É hora de fechar a torneira e rezar que chova».

De facto, pouco depois choveu.

«Finalmente a chuva!», ouvi na rua.

Mas a Providência acabou por não ser muito generosa.

Parece-me, no entanto, mais relevante assinalar as medidas dos homens.

Que não têm sido, em minha opinião, conduzidas na melhor direcção já que há muitos anos que se deveria ter “dado início” a essa sensibilização dos cidadãos para a importância da racionalização da utilização da água (e de outros recursos, evidentemente) tendo em conta, por exemplo, os documentos científicos alertando para a ocorrência de alterações climáticas, e não de forma pontual como até agora.

Tal como a inexistência de uma estratégia verdadeiramente nacional envolvendo, naturalmente, todos os ‘agentes’ (ou sectores) económicos e sociais a actuar em Portugal como o da Agricultura (a criação de animais, por exemplo) ou o do Turismo (estou a lembrar-me, por exemplo, dos campos de golfe) e não apenas o cidadão comum ou, se se quiser, individual.

Penso ser, de resto, excelentemente esclarecedor o facto de o “Plano Nacional para o Uso Eficiente da Água aguardar, há anos, a sua aprovação política1.

 

 

1 Seria, também, muito interessante, creio, tomar-se em consideração os ensinamentos ensaiados no relatório do Banco MundialÁguas inexploradas: a nova economia da escassez e a variabilidade da água”.

09
Nov17

A ignorância do Ocidente - I

Ricardo Jorge Pereira

Quem quer que leia o título que atribuí ao pequeno texto que se segue poderá pensar que irá ser feita uma espécie de recensão crítica ao conteúdo do livro de Milan Kundera “A ignorância”.

É, claro, um ‘enorme’ livro mas não é esse o caso.

De facto, pude ler, na pequena ‘nota’ de introdução ao documento Migration: boosting development in Africa to create alternatives que o Parlamento Europeu preparou, o seguinte: «Crescimento económico e evitar que as pessoas tenham que abandonar a sua terra são alguns dos desafios que os países africanos enfrentam. Uma nova estratégia União Europeia-África proposta pelos Estados-membros estabelece de que forma é que o desenvolvimento pode fazer a diferença».

E, também, que «Desde que a crise migratória surgiu, os países europeus têm vindo a prestar mais atenção ao que tem vindo a acontecer em seu redor, particularmente em África».

Mas só agora se percebeu que apenas o facto de os países proporcionarem boas ‘condições de vida’ pode evitar a fuga das suas populações em busca de uma vida, noutro país, que lhes permita alcançar mais e melhores condições económicas, por exemplo?

E que só a chamada crise migratória levou a que a Europa se interessasse mais com o que se estava a passar ao lado, por assim dizer?

Li, entretanto, um artigo que David Pilling assinou na edição online do jornal britânico Financial Times cujo título é “Africa is not immune from secessionist sentiment”.

«Os Estados africanos modernos foram criados na Conferência de Berlim de 1884-1885 por potências coloniais com poucos conhecimentos acerca das realidades étnicas, políticas e geográficas» em presença, concluiu.

Parece-me que somente as palavras ignorância e incompetência poderão ‘acalmar’ o meu mal-estar.

Mas serão parte de uma atitude negligente ou dolosa?

08
Nov17

Portugal, compêndio do mundo

Ricardo Jorge Pereira

Viviam em Maio de 2003, de acordo com a Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas, cerca de 4.8 milhões de portugueses e indivíduos de origem portuguesa em todo o mundo.

Por outro lado, e segundo dados compilados pelo Observatório da Emigração (disponíveis em Setembro de 2009), esses milhões de pessoas dispersavam-se por cento e quarenta dos então cento e noventa países do mundo.

Ora, poucos anos mais tarde residiam em Portugal representantes, por assim dizer, de mais de cento e setenta nacionalidades (falando cerca de cem idiomas).

Lembro-me, a propósito, de um excerto de um poema do poeta português André Falcão de Resende (1527-1599): “É Lisboa um mar profundo; de vária navegação; É um compêndio do mundo; aonde tudo acharão; Ásia, África, Europa1.

 

 

 

1  É claro que não quero dizer que é apenas na região de Lisboa que se pode constatar uma tal multiculturalidade: embora seja, talvez, possível encontrar uma ‘concentração’ maior desta diversidade cultural na zona de Lisboa, ela verifica-se em todo o país.

E ainda bem.

07
Nov17

O turismo chinês em Li Si Ben

Ricardo Jorge Pereira

Li Si Ben é o nome que os chineses dão a Lisboa.

De facto, poucos dias depois de ter sido divulgado o relatório Asia Pacific City Travel & Tourism Impact (2017) que o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (o World Travel and Tourism Council, ou WTTC na sigla inglesa) produziu e do roubo, num parque de estacionamento de um hotel localizado num subúrbio parisiense, de um grupo de cerca de quatro dezenas de turistas oriundos do Império do Meio, afigura-se-me como oportuna uma nova referência ao turismo com origem na China.

Assim, quero recordar o que, há cerca de dois anos, me disse a sócia e gerente de uma agência de viagens especializada na ‘captação’ de turistas chineses para a cidade de Lisboa.

Explicando-me que existiam «muitos poucos guias chineses profissionais em portugal e entao certificados, não existem mesmo. Normamente os guias são os funcionarios das próprias agencias de viagem que já adquiriram certa experiencia nos tours e que vão fazendo os tours», defendeu que «Os directores/gestores de hoteis de 5 estrelas tem perfeita noçao do potencial do mercado turistico chines aliás hoje em dia já não se ve em lisboa pelo menos uma semana que um hotel de 5 estrelas não tenha reservas de chineses e entao em épocas de ferias ou feriados chineses são varios grupos. Podem no entanto achar que não existe essa necessidade, já que o número de hoteis de 5 estrelas são limitados e eles vao sempre lá parar. Também pode ser o caso de haver pouca gente formada para desempenhar tais funçoes aos salários que os hoteis estao dispostos a pagar por essas funcoes que são geralmente de recepcionista».

Considerou, no entanto, que «Genéricamente lisboa não é uma cidade dificil para os turistas, a cidade não é enorme e as atracoes turisticas ficam proximas, existe muita informacao na internet e muita gente fala ingles», e concluiu que, por isso, «que os turistas chineses que estejam minimamente habituados a viajar não tem grandes problemas em lisboa».

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