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31
Jul17

Ordem: reduzir a população!

Ricardo Jorge Pereira

No início deste mês de Julho, o chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, respondeu, na cidade alemã de Hamburgo, a uma questão que lhe foi colocada por um jornalista.

«Nada mais natural», dir-se-á.

Absolutamente.

No entanto, não foram poucas as vozes que o acusaram de ser «racista».

Macron falava a propósito da demografia africana.

«De nada havia servido a entrega de milhares de milhões de euros a países em que as mulheres tinham, ainda, sete ou oito crianças», observou.

Todavia, alguns dias depois, foram os próprios membros da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (a CEDEAO. Esta agrupa, de resto, os representantes de 15 países), os da Mauritânia e os do Chade que, através de uma declaração emitida na capital do Burkina Faso, Ouagadougou, “a dar-lhe razão”: «Os deputados da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (…), da Mauritânia e do Chade sublinharam no sábado [22 de Julho de 2017] querer limitar a três o número de filhos por mulher com o intuito de baixar para cerca de metade, até 2030, aquela que é a taxa de fecundidade mais alta do mundo».

Ou seja, os parlamentos dos países em causa deveriam ‘impelir’ os respectivos governos a adoptarem e a colocarem em prática políticas para limitar a taxa de fecundidade das mulheres desses países e, desse modo, reduzir o boom demográfico1 “harmonizando-o” com o crescimento económico dos mesmos.

Mas que políticas?

Aumentar o nível de educação das mulheres, facilitar e promover o acesso universal ao planeamento familiar e reforçar os esforços para melhorar a taxa de sobrevivência das crianças.

Louvo os objectivos ambicionados e as medidas propostas.

 

 

1 Cada mulher que vive na região tem, em média, 5.6 filhos, a mais elevada do mundo. Segundo a Organização das Nações Unidas, o espaço da CEDEAO acolherá em 2050, se nada for feito, cerca de 1000 milhões de habitantes.

28
Jul17

Como reagir a um sismo?

Ricardo Jorge Pereira

Sublinho, das imagens televisivas e postas a circular na Internet que vi e das informações que li acerca do sismo que, na passada semana, atingiu a ilha grega de Kos e a costa sudoeste da Turquia e que acabou por vitimar, mortalmente, 2 pessoas e várias dezenas de pessoas com ferimentos, um aspecto: de todas as pessoas – e eram, seguramente, várias dezenas – que foram filmadas em espaços “interiores” aquando do sismo, muitas limitaram-se a fugir do local em que estavam e somente algumas que se encontravam num hospital na Turquia se recolheram debaixo de secretárias (mesas) e aí aguardaram o fim do “evento” sísmico.

Por sinal, as 2 pessoas que morreram encontravam-se no interior de um bar cujo tecto se desmoronou…

Ou seja, os procedimentos de segurança correctos quase não foram seguidos.

O que me levou, mentalmente, a ‘transplantar’ para Portugal o acontecimento até porque, estando, de resto, ‘previsto’, cientificamente, um sismo de grande magnitude em solo português, tal não é difícil de fazer.

Saberiam as pessoas agir (e reagir) correctamente?

Lembro-me de uma imagem que vi no boletim bimestral da Autoridade Nacional de Proteção Civil (Prociv) de Setembro/Outubro de 2016 (ver, online, a página 16 deste exemplar) que, creio, pode ajudar a deixar pistas sobre a resposta a esta pergunta.

Apesar de ser um «exercício público nacional», com data marcada, não existiu qualquer publicitação (mediática, por exemplo) do mesmo. De que eu me tivesse apercebido, claro.

Ora, partindo do princípio de que nem todas as potenciais vítimas (isto é, todos os que, nesse momento, estiverem a viver em Portugal) reagiriam de forma correcta a um sismo, não me parece que esta atitude de secretismo seja avisada.

Para não dizer séria.

27
Jul17

"Progresso" ou cultura?

Ricardo Jorge Pereira

A Organização das Nações Unidas (a ONU) organizou, há pouco mais de três anos (no fim de Setembro de 2014) a Primeira Conferência Mundial sobre os Povos Indígenas.

Nesse âmbito, a Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas (a CEPAL) – uma das cinco comissões regionais da ONU – revelou que a região contava, em 2010, cerca de 45 milhões de pessoas com origens étnicas índias das quais 17 milhões viviam no México e 7 milhões no Peru.

O Brasil era, de resto, o país com a maior “quantidade” de tribos (ou povos) indígenas: 305.

45 milhões de pessoas que correspondiam a 8.3% da população total.

E revelou mais: estas tinham conhecido, numa década, melhorias no que respeitava ao acesso a cuidados de saúde (reflectindo-se, por exemplo, na mortalidade de crianças com menos de cinco anos que “caiu”, entre os anos de 2000 e 2010, nos nove países com dados disponíveis: Bolívia, Brasil, Costa Rica, Equador, Guatemala, México, Panamá, Peru e Venezuela), ao ensino e à participação política.

O relatório organizado pela CEPAL reconheceu, no entanto, que muitos povos indígenas se encontravam em perigo de extinção física e/ou cultural.

Efectivamente, quem quer que, hoje, consulte a página da ‘versão’ brasileira da ONU na Internet, poderá ler o seguinte: «Dez anos após declaração internacional [a Declaração da Organização das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas], indígenas sofrem exclusão, desrespeito e assassinatos».

Ou seja, prossegue, «Segundo a relatora especial da ONU para os direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, a expansão das indústrias extrativistas, do agronegócio e dos ‘megaprojetos’ de desenvolvimento e infraestrutura que invadem as reservas ainda permanecem como as principais ameaças para a maioria dos povos indígenas».

Volto, assim, a falar no Brasil.

Imagine-se que as barragens hidroeléctricas que têm estado a ser construídas (e que irão, ao que tudo indica, continuar a ser construídas) na bacia hidrográfica do rio Amazonas são uma balança. Num prato estão o desenvolvimento e o progresso (o que são o desenvolvimento e o progresso?) e no outro estão as terras onde vivem esses povos indígenas – e onde, também, já viveram os seus antepassados – e que têm sido ‘invadidas’ pela água.

Qual prevalecerá?

26
Jul17

Turismo: um caminho para o conhecimento

Ricardo Jorge Pereira

Volto a escrever sobre o turismo chinês em Portugal.

Escreveram A. Fyall e A. Leask no seu artigo Destination marketing: future issues – strategic challenges (publicado em 2006) que o destino turístico era um dos ‘produtos’ mais difíceis de gerir e de vender já que o ‘mercado’ onde se movimentava era ‘palco’ de um crescente nível de concorrência.

Ora, mais difícil de gerir e de vender se tornará se não existir uma estratégia ou uma visão a longo prazo, por assim dizer, que o sustente e que, desse modo, favoreça um posicionamento bem definido e bem delineado, quer internamente, quer na ‘frente’ externa.

Desde logo, porque – como observou o secretário de Estado do turismo, Licínio Cunha, no decurso do III Congresso Nacional de Turismo que se realizou em 1986 – o «turismo é uma das actividades mais expostas às mudanças e transformações da sociedade o que obriga a ter uma atenção particular às mudanças que se forem operando».

No entanto, o estudo O Turismo em 2004, organizado pela então Direcção Geral do Turismo, alertou para «uma forte dependência de cinco países europeus».

Já segundo a publicação Estatísticas do Turismo 2009, da responsabilidade do Instituto Nacional de Estatística (INE), «Mantendo a estrutura de anos anteriores, em 2009 o Reino Unido, a França, a Espanha e a Alemanha foram os principais mercados emissores de fluxos monetários turísticos para Portugal».

Em 2015 – como salientou o boletim Atividade Turística – Dezembro de 2015 (também compilado pelo INE) – os ‘mercados’ britânico, espanhol, alemão e francês continuaram, ainda, a ser os mais importantes para Portugal.

E, de facto, parece que, em 2016, tal ‘cenário’ se manteve pois o documento Estratégia para o Turismo 2027 (que pretenderia ser, precisamente, a referência estratégica para o turismo em Portugal para a década compreendida entre 2017 e 2027), divulgado em Maio de 2016, refere, como «principais mercados internacionais» o de Espanha, o do Reino Unido, o de França e o da Alemanha.

Ou seja, há muito tempo que os maiores contingentes de visitantes estrangeiros de Portugal têm origem em França, na Alemanha, no Reino Unido e em Espanha.

Recordei-me, assim, de ter lido uma entrevista concedida a uma jornalista do jornal Público (e que foi reproduzida no início de Outubro de 2016) por Dilip Rajakarier, presidente do grupo empresarial tailandês que comprou a cadeia de hotéis Tivoli. Sublinhou este que «hoje o país [Portugal] está focado em quatro ou cinco mercados-chave: Reino Unido, Alemanha, França, Espanha e Brasil. É preciso olhar um pouco mais além porque estes mercados podem desaparecer e se algo acontecer no Reino Unido ou em Espanha, estão demasiado expostos».

Ora, por exemplo, a obra Reinventando o turismo em Portugal. Estratégia de desenvolvimento turístico português no I quartel do século XXI, elaborada pela Confederação do Turismo Português, tinha já revelado (ou reiterado…), em 2005, que a «grande oportunidade global a médio prazo, relativamente aos mercados emergentes, deverá ser a China».

Também o título Portugal, destino turístico da população idosa europeia – publicado em 2006 e editado pelo próprio Turismo de Portugal – enunciou, num gráfico, a «projecção dos principais países emissores [de turistas] a nível mundial em 2020» destacando, de acordo com cálculos da Organização Mundial de Turismo, a posição da China com uma parcela, no ‘mercado’ turístico, de 6.4%.

Espero, por isso, que a ligação aérea directa entre Portugal e a China que hoje se inicia contribua para extinguir a subvalorização (desprezo?) com que o turismo com origem no Império do Meio foi, sempre, tratado por várias instâncias, públicas e privadas, em Portugal.

E que contribua para o conhecimento profundo entre dois povos que, em mais de 500 anos, apenas se contactaram de forma superficial...

25
Jul17

Liu Xiaobo

Ricardo Jorge Pereira

Precisamente no dia (18 de Julho de 2017) em que a Organização das Nações Unidas homenageou a figura de Nelson Mandela por toda a dedicação e luta que, ao longo da sua vida, consagrou à justiça e à igualdade entre todos os seres humanos, o já por mim citado várias vezes jornal South China Morning Post publicou, online, um artigo intitulado Why Liu Xiaobo is the role model that a modern China sorely needs.

Recorde-se que Liu Xiaobo foi um critico literário e um activista pela democracia na China – chegou a ser distinguido com o prémio Nobel da Paz em 2010 (estava já preso desde Dezembro de 2008) – que faleceu vitimado pelo cancro no passado dia 13 de Julho1.

Ora, cito um excerto do texto que li: «Em vida, Liu Xiaobo sacrificou a sua liberdade pessoal pela do seu povo no país mais populoso do mundo. E isso tornou-o num “espinho” para a liderança comunista. Tornou-se, com a morte, fisicamente livre mas o seu espírito não pode descansar em paz já que o seu desaparecimento conseguiu não apenas engrandecê-lo enquanto símbolo da luta do povo chinês pelos direitos humanos, pela liberdade e pela democracia mas, também, torná-lo numa ainda maior dor de cabeça para um governo autoritário».

Estou certo de que, tal como a figura de Nelson Mandela, também a de Liu Xiaobo inspirará milhões de pessoas a lutarem para tornar o mundo um lugar melhor.

 

1  Tornou-se, assim, depois da morte, no final da década de 1930, do pacifista alemão Carl von Ossietzky, preso às mãos dos nazis, na primeira pessoa agraciada com o prémio Nobel da Paz a morrer encarcerado.

24
Jul17

Património de todos

Ricardo Jorge Pereira

«Existe em Portugal um conjunto de monumentos e sítios que são património da humanidade. Sem dúvida, eles pertencem à nação que os ergueu, ou habitou, e cuja história, em muitas páginas, com eles se confunde. Mas a humanidade inteira também aí pode a justo título rever-se, ao mesmo tempo que se constitui responsável pela sua conservação. Memórias de um povo, lugares poupados à usura do tempo e ao passar de civilizações, esse património transcende, por assim dizer, as referências temporais e espaciais em que sobrevive, impondo-se à consciência dos homens como um bem comum, uma herança universal que é necessário legar às gerações futuras».

Foram estas algumas das palavras que Diogo Pires Aurélio escreveu, em 1999, enquanto comissário geral da United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (a UNESCO) em Portugal como “introdução” ao primeiro volume do livro Património da humanidade em Portugal (preparado por João Paulo Sacadura e Rui Cunha e publicado com a chancela da Editorial Verbo).

Foram, por exemplo, em 2015, mais de quatro milhões de pessoas aquelas que visitaram os monumentos, palácios e museus sob a tutela da Direção-Geral do Património Cultural.

E, de acordo com os dados revelados pelo Primeiro [e, até ao momento, o único] Estudo de Públicos de Museus Nacionais, 53% desses visitantes dos museus, palácios e monumentos nacionais foram estrangeiros e 47% foram portugueses.

De resto, os museus, os monumentos e os palácios tutelados pela Direção-Geral do Património Cultural contabilizaram, nos primeiros seis meses de 2016, mais de 2.2 milhões de entradas.

Ou seja, 19% mais do que no mesmo período do ano anterior.

Dos visitantes que responderam em relação à sua nacionalidade, cerca de 1.3 milhões eram estrangeiros e 730 mil portugueses.

Justamente, um património que se fez com o contributo cultural (e não só…) de tantos e ao longo de tanto tempo só poderá ‘viver’ se for considerado de todos.

21
Jul17

Uma economia pouco humana

Ricardo Jorge Pereira

Num e-mail que, há dias, recebi da Fundação Francisco Manuel dos Santos a propósito do debate por ela organizado (“Encontros da Fundação”) subordinado ao tema Em que pé está a igualdade? Impactos, desafios e conflitos (a realizar no fim do mês de Setembro de 2017), dizia-se, por exemplo, que «Depois dos conflitos sociais e das revoluções que precederam o sufrágio universal, a igualdade perante a lei, os direitos humanos e a ascensão da classe média, neste século XXI o Ocidente é mais desigual do que há 30 anos».

No entanto, o que o relatório An Economy for the 99 percent que a organização não-governamental sediada no Reino Unido Oxfam apresentou no início deste ano de 2017 revelou foi que 8 homens (quase todos nacionais de países localizados no tal Ocidente desenvolvido...1) possuíam tanta riqueza como a detida por cerca de metade da humanidade, cerca de 3.7 biliões de seres humanos (praticamente todos nacionais de países menos desenvolvidos e em desenvolvimento…).

Disse, então, a directora executiva do “ramo” internacional da Oxfam, Winnie Byanyima, que «É obsceno o facto de tanta riqueza estar nas mãos de tão poucos quando 1 em cada 10 pessoas sobrevive com menos de $2 diários. A desigualdade está a aprisionar milhões de seres humanos na pobreza e isso continua a dividir as nossas sociedades e a minar a democracia. Em todo o mundo as pessoas estão a ser deixadas para trás».

Concordo, em absoluto, com estas palavras.

Mas, sirvo-me, também, do significado da palavra obsceno para caracterizar os comportamentos “económicos” de certos desportistas (e seus agentes) e gestores de empresas (alguns citados em documentos como os Panama Papers ou os Football Leaks, amplamente divulgados pelos media mas rapidamente – e estrategicamente – “esquecidos”).

 

1 Assim, o primeiro desta pequeníssima listagem foi Bill Gates, o fundador da empresa norte-americana Microsoft; no segundo “lugar” ficou Amancio Ortega, o fundador da empresa espanhola Inditex; o terceiro lugar foi ocupado por Warren Buffett, o dirigente e maior accionista da empresa norte-americana Berkshire Hathaway; em quarto ficou Carlos Slim Helu, o dono do grupo mexicano Carso; no quinto posto ficou Jeff Bezos, o fundador e dirigente da empresa norte-americana Amazon; em sexto lugar ficou Mark Zuckerberg, o co-fundador e dirigente da empresa norte-americana Facebook; no sétimo lugar ficou Larry Ellison, o co-fundador e dirigente da empresa norte-americana Oracle; e no oitavo (e último) lugar deste infame pódio ficou Michael Bloomberg, o fundador e dirigente da empresa norte-americana Blomberg LP.

20
Jul17

Estereótipos e generalizações

Ricardo Jorge Pereira

A edição online do jornal de Hong Kong South China Morning Post publicou, recentemente, um texto com o título Who are the world’s worst tourists? Six nations that stand out – you may be surprised.

Começa o seu autor por fazer, desde logo, referência a um “estudo” efectuado, em 2015, pelo sítio Hotels.com: nos lugares cimeiros do ‘pódio’ dos turistas que mais furtos realizavam de artigos dos quartos de hotel em que se encontravam alojados estavam os provenientes da Argentina e os de Singapura (estes últimos foram mesmo descritos como sendo – poderia supor-se que geneticamente – «propensos para os roubos»).

Já aqueles com origem na chinesa Hong Kong foram, por sua vez, descritos como os turistas «mais confiáveis».

Coloca, em seguida, uma questão: «Mas qual é a nacionalidade dos turistas que mais indigna os cidadãos locais e faz os seus próprios compatriotas desculparem, embaraçados, os seus comportamentos?».

Segue-se, então, a prometida lista: China, Reino Unido, Alemanha, América do Norte, Israel e Rússia.

Coadjuvada’, de resto, por um conjunto de situações que a ‘enriqueciam’ e que, simultaneamente, a justificavam.

Termina, no entanto, com uma chamada de atenção: eram os turistas nacionais aqueles que pior se comportavam.

O que me apraz sublinhar neste artigo é a generalização de comportamentos a todos os que fazem turismo e que são cidadãos da Argentina, de Singapura, da China (também de Hong Kong), do Reino Unido, da Alemanha, da América do Norte, de Israel, da Rússia ou de qualquer outro país.

Tudo se resume, quanto a mim, à chamada Educação: se se a tem é indiferente estar-se na ‘pele’ de turista ou noutra qualquer e, por sua vez, se se a não tem também é indiferente estar-se na ‘pele’ de turista ou noutra qualquer.

Poderá, por exemplo, tomar-se como o estereótipo do turista português o indivíduo tranquilo, agradável no trato e cumpridor das normas estabelecidas…

No entanto, se se generalizasse esse modo de estar (e de ser) a todos os turistas lusos, como explicar o que se passou com aquele grupo de jovens portugueses num hotel espanhol há alguns meses atrás quando, na sequência de actos de vandalismo gratuito, foram, pura e simplesmente, expulsos?

Eu também cheguei a fazer uma “viagem de finalistas” e não me comportei de forma arruaceira nem de maneira turbulenta.

Nem, diga-se, aqueles e aquelas colegas com quem fui a Lloret de Mar, em Espanha.

Ora, seria, em minha opinião, muito mais exacto dizer-se o seguinte: “alguns turistas oriundos da Argentina e de Singapura (e seguramente que não estão sozinhos…) furtam objectos do quarto de hotel em que estão alojados” e “alguns turistas oriundos da China, do Reino Unido, da Alemanha, da América do Norte, de Israel, da Rússia ou, na realidade, de qualquer outro país poderão exibir, por razões várias (a ingestão de bebidas alcoólicas, por exemplo), comportamentos que a sociedade receptora poderá reprovar e condenar, moral e, até, judicialmente”.

19
Jul17

O envelhecimento populacional

Ricardo Jorge Pereira

Assinalou-se no passado dia 11 de Julho o Dia Mundial da População.

Esta foi uma data que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (o PNUD) instituiu em 1989.

Segundo os dados da Organização das Nações Unidas que já aqui referi, a população mundial deverá aumentar, até 2050, cerca de 2220 milhões de pessoas.

Ou seja, pouco mais de 67 milhões de indivíduos a cada ano que passar.

No entanto, o crescimento populacional tem sido acompanhado por um fenómeno capaz, só por si, de desencadear um conjunto de transformações a todos os níveis das sociedades no mundo.

«A população do planeta está a envelhecer: todos os países do mundo1 estão a verificar um crescimento no número de pessoas idosas na sua população e na proporção ocupada por estas nessa mesma população. Está previsto que o envelhecimento da população – o aumento do ‘peso’ do número de pessoas idosas na população – se torne num dos mais importantes factores capazes de contribuir para a mudança social no século XXI com implicações em quase todos os sectores das sociedades como o do mercado de trabalho e financeiro, o da procura por bens e serviços como o imobiliário, os transportes e a protecção social. Bem como nas próprias estruturas familiares e nos laços inter-geracionais», observou-se no relatório World Population Ageing 2015 que a já referida Organização das Nações Unidas publicou.

Ora, Portugal não é, evidentemente, excepção.

Na verdade, Portugal é um dos países do mundo com uma menor taxa de fertilidade e, por isso, um dos que tem um maior nível de envelhecimento da população: estima-se, aliás, que em 2051 terá menos população do que aquela que tinha em 1950.

Disto mesmo deu, também, conta o estudo (re)Birth: Desafios Demográficos Colocados à Sociedade Portuguesa que foi apresentado em Lisboa, na passada semana, pelas investigadoras Filipa Castro Henriques (do Observatório de Estudos Políticos) e Teresa Ferreira Rodrigues (do Departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa).

Refira-se que tais investigadoras foram convidadas pela Plataforma Para o Crescimento Sustentável, um think tank fundado em 2011.

Aquele estudo procurou, desde logo, ‘olhar’ para a actual situação demográfica de Portugal comparando com o que, neste ‘tópico’, se passou em décadas passadas e perspectivar como vai ser no futuro.

E teceu, depois, considerações sobre políticas que permitiriam rectificar ou, de alguma forma, atenuar os problemas identificados.

Assim, disse-se, por exemplo, o seguinte: «um número crescente de países procura minorar os efeitos da falta de adultos em idade ativa, adotando medidas de incentivo à imigração. o aumento dos contingentes imigratórios gera um aumento da população ativa, o rejuvenescimento etário e a subida da natalidade, porque os migrantes são maioritariamente jovens, em idade fértil e de constituir família».

Desse modo, acrescentou-se, «o aumento da natalidade é outra das consequências indiretas da imigração, porque muitos imigrantes provêm de sociedades e culturas com níveis de fecundidade superiores aos do país de acolhimento».

O que, em certa medida, contrariou aquilo que o relatório World Population Ageing 2015 afirmou: «Enquanto que o declínio da taxa de fertilidade e o aumento da longevidade são os pontos-chave do envelhecimento da população mundial, as migrações internacionais contribuíram, igualmente, para a mudança das estruturas etárias da população nalguns países e regiões. Contudo, na maior parte deles, as migrações internacionais deverão produzir pequenos efeitos no combate ao ritmo do envelhecimento da população. Entre 2015 e 2030, o saldo migratório deverá abrandar o envelhecimento da população de acolhimento em, pelo menos, um ponto percentual em 24 países ou regiões e, simultaneamente, deverá acelerar o envelhecimento populacional da população de origem em, pelo menos, um ponto percentual em 14 países ou regiões».

De facto, aquilo que me parece mais significativo não é, de todo, a diferença de opiniões nem a diferença de supostas soluções para um dado problema.

O que destaco como o mais importante - na demografia como noutras “áreas” da governação em Portugal - é a ausência, desde há muitos anos, de uma estratégia clara em relação ao que está em jogo.

Não se trata, “apenas” do envelhecimento da população do país mas, também, do futuro do sistema de protecção social e, no fundo, do da sociedade portuguesa como um todo.

Quanto a mim, este é um dos assuntos do debate sobre o caminho que queremos que a sociedade trilhe que falta fazer.

 

1     De facto, no que se refere à percentagem populacional de pessoas com 65 e mais anos, a Europa irá contar quase 13% do total mundial.

Já a Ásia somará, neste ‘capítulo’, pouco mais de 62%: o texto “The far-reaching consequences of China’s greying population”, publicado em 2015, sublinhou que a China poderia tornar-se “velha” antes mesmo de se tornar “rica”...

18
Jul17

Portugal: turismo e terrorismo

Ricardo Jorge Pereira

Falei, há dias, num post que escrevi aqui no blogue, do Estado Islâmico e do perigo que pairava sobre Portugal.

Lembrei-me, depois, de uma frase que, tendo sido proferida por um turista francês que se encontrava a passar férias no Algarve, li num artigo jornalístico: «Aqui, em Portugal, sinto-me mais seguro do que em Paris».

Bastará, aliás, fazer uma pequena pesquisa na Internet para se perceber que este sentimento de segurança tem feito parte de uma percepção de segurança da generalidade das pessoas que têm visitado Portugal.

O factor segurança tem, de resto, sido um dos pontos de que diversas instituições e indivíduos ligados ao sector do turismo em Portugal (e não só…) mais se têm “servido” para justificar a visita ao país de turistas estrangeiros.

Explico.

Como se fossem dizendo “Venham a Portugal. Nunca tivemos atentados terroristas como aqueles a que assistimos na Tunísia, na Turquia, no Reino Unido, em Marrocos, em França, no Egipto, na Alemanha, na ...”

É um facto.

Nunca Portugal teve que lidar com atentados de índole terrorista a não ser num período específico da história do país (as FP 25) e, por isso mesmo, com “actuações” muito restritas no espaço público.

Assim, a segurança tem sido um ponto privilegiado de promoção do país nos mercados internacionais para fins turísticos.

E parece que tem resultado: por exemplo, segundo dados revelados em meados de Fevereiro de 2017 pelo Instituto Nacional de Estatística, os estabelecimentos hoteleiros em Portugal registaram, no ano de 2016, mais de 19 milhões de hóspedes e 53.5 milhões de dormidas (sendo que o ‘mercado’ interno contribuiu com 15 milhões e os ‘mercados’ externos com 38 milhões).

Portugal é, actualmente, um dos 20 países mais visitados no mundo e cerca de 6% do seu Produto Interno Bruto deve-se à actividade turística.

No entanto, creio que aquela percepção de segurança no que ao terrorismo diz respeito não corresponde à realidade.

Por uma razão muito simples.

Uma nota de rodapé num canal televisivo anunciava, há meses, o seguinte: «Potenciais alvos terroristas em Portugal sem plano de segurança».

Baseada num título de um jornal publicado no país – no Diário de Notícias, se não estou em erro –, a notícia punha em causa a capacidade de algumas instituições nacionais, nos sectores público e privado, de lidarem com as consequências de um ataque terrorista ocorrido em contexto turístico já que nem sequer se haviam precavido com o “mínimo dos mínimos”, por assim dizer: a elaboração de um plano de segurança (e o seu “descendente” plano de emergência).

Assim, quando aproveitei para lhe perguntar se o facto de Portugal não ter registado, até ao momento, qualquer ataque terrorista no seu território não se teria ficado a dever, apenas, à sorte – e, acrescento, à importância geopolítica de Portugal… – e de que forma(s) reagiriam, no país, os sectores público e privado perante um ataque desse tipo, uma amiga conhecedora das influências profundas do terrorismo no turismo (e vice-versa) explicou-me que, por norma, «quando um destino é afectado por um ataque terrorista o efeito no turismo é negativo. Quando isto acontece, a estratégia mais comum por parte do sector público é deixar o assunto morrer para que possa ser esquecido pelos media e consequentemente pelos turistas. Assim nos meses subsequentes a um ataque deixa-se de mencionar o assunto. Quando o ataque está finalmente esquecido, o sector privado, neste caso a indústria turística, adopta campanhas de marketing bastante agressivas que passam por oferecer grandes descontos aos operadores turísticos e descida dos preços de acomodação. Penso que caso acontecesse um atentado em Portugal, esta seria a resposta por parte dos sectores público e privado».

Então: deixar esquecer o acontecimento e, em seguida, fazer campanhas maciças de marketing...

Tendo em conta o que, por exemplo, se passou no país nestas últimas semanas, acho que, se Portugal viesse a sofrer a investida de um atentado terrorista, acredito que nunca esta explicação poderia ser acusada de ser insensata.

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