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29
Set17

Ignorantes, acima de tudo

Ricardo Jorge Pereira

Retive uma palavra, apenas, do discurso que o presidente norte-americano Donald Trump proferiu na 72.ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas: «Nambia».

Situado em África, o suposto país foi elogiado pela qualidade do seu serviço de saúde.

Lembro-me que, há alguns anos, tinha sido a vez do seu colega George Walker Bush (o 43.º presidente dos Estados Unidos da América) cometer uma imprecisão linguística e cultural: chamou aos naturais da Grécia «grécios».

Ora, estas invenções e imprecisões mais não são, em minha opinião, do que “pérolas” nascidas de uma ignorância confrangedora por parte de pessoas que são, frequentemente, rotuladas como «as mais poderosas lideranças do mundo» já que estão à frente de colossos económicos, militares e diplomáticos, por exemplo.

Creio serem, também, exemplos claros daquilo que significa «a ascensão da nova ignorância» de que deu já conta José Pacheco Pereira e que citei no segundo post que ‘coloquei’ aqui no blogue.

28
Set17

Os muçulmanos na Europa

Ricardo Jorge Pereira

A Agência da União Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA, na sigla inglesa) deu, há poucos dias, no seu sítio, conta do seguinte:

«De acordo com um estudo de grande dimensão que a FRA liderou, a grande maioria dos muçulmanos que vive na Europa sente uma grande confiança nas instituições democráticas apesar de sentir uma generalização da discriminação».

«Os resultados obtidos contestam, de forma clara, a assumpção de que os muçulmanos não estão integrados nas nossas sociedades», concluiu o director da agência Michael O’Flaherty.

De facto, 76% dos muçulmanos inquiridos revelou ter “ligação” ao país em que vivia.

Quero, no entanto, tecer algumas considerações sobre este estudo.

1) Este «estudo de grande dimensão» inquiriu 10.527 pessoas que se identificaram como muçulmanas em quinze Estados-membros da União Europeia (Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Itália, Malta, Países Baixos, Reino Unido, Eslovénia e Suécia). Assim, tendo participado pouco mais de dez mil e quinhentas pessoas num ‘universo’ de vários milhões de cidadãos de fé muçulmana que estão, actualmente, a viver no espaço da União Europeia (na Alemanha vivem perto de 3 milhões de cidadãos turcos e em França viviam, até há pouco tempo, cerca de 5 milhões de muçulmanos), não me parece razoável descrevê-lo como um «estudo de grande dimensão» nem, claro, fazer generalizações e tirar conclusões mais abrangentes.

2) Partindo do princípio que a discriminação referida não é “positiva” pergunto: como é possível alguém sentir-se integrado numa dada sociedade se se considera alvo de “dedos apontados”?

Ora, creio que é justo pensar que o líder dos muçulmanos em Portugal, por assim dizer – sheik Munir, o imã da mesquita de Lisboa – saberia do que falava quando, aos microfones da rádio TSF, por ocasião das celebrações do dia nacional de França (14 de Julho), disse ainda notar um afastamento identitário dos muçulmanos que viviam na Europa para com essa mesma Europa.

«Ainda noto que há um défice de identidade nacional, percebe?, desde França, Bélgica, Bruxelas… Há muçulmanos que, para eles, a Europa não é a pátria deles. Dá-nos a entender que, nascendo na Europa, vivendo na Europa, trabalhando na Europa, mas há sempre um desligar (podemos dizer assim) com a Europa. Isto é que é um trabalho muito interno, tem que haver muito diálogo entre as comunidades, entre os muçulmanos que vivem na Europa para ultrapassarmos este défice».

Já em Portugal, considera, este ‘fosso’ não existe.

27
Set17

Pavilhões e salas de aulas

Ricardo Jorge Pereira

O jornal Diário de Notícias publicou ontem, online, o seguinte:

«O desenvolvimento do ensino da língua portuguesa, nos níveis básico e secundário, no interior da China é o objetivo de um protocolo assinado entre o Instituto Politécnico de Macau e a Fundação Escola Portuguesa de Macau, foi anunciado».

Que magnífica notícia”, pensei.

No entanto, perguntei, há dias – por mero acaso, diga-se – a uma funcionária de uma consultora que assessora a Feira Internacional do Livro de Pequim, a Singing Grass, sobre a participação de ‘representantes’ portugueses nessa mesma feira internacional.

«Não existiu, até ao momento, qualquer stand português», garantiu.

Note-se que a feira existe desde 1986 e que se realizou em Agosto passado mais uma edição…

Ora, creio que seria tão importante aprender-se a língua portuguesa em salas de aulas como tomar-se conhecimento com autores que escreveram e escrevem nessa língua.

José Maria Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, José Cardoso Pires ou José Saramago, por exemplo.

Lembrei-me, por isso, das ordens que o rei D. Manuel I deu a Diogo Lopes de Sequeira de qual deveria ser o seu procedimento depois da descoberta portuguesa de Malaca:

«Perguntareis pelos chins, e de que partes vêm, e de quão longe, e de quanto em quanto vêm a Malaca, ou aos lugares em que tratam, e as mercadorias que trazem, e quantas naus deles vêm cada ano, e pelas feições de suas naus, e se tornam no ano em que vêm, e se têm feitores ou casas em Malaca, ou em outra alguma terra, e se são mercadores ricos, e se são homens fracos, se guerreiros, e se têm armas ou artilharia, e que vestidos trazem, e se são grandes homens de corpos, e toda a outra informação deles, e se são cristãos, se gentios, ou se é grande terra a sua, e se têm mais de um rei entre eles, e se vivem entre eles mouros ou outra alguma gente que não viva na sua lei ou crença, e se não são cristãos, em que crêem, ou a que adoram, e que costumes guardam, e para que parte se estende a sua terra, e com quem confinam».

Numa palavra: tudo.

Acredito que também há muito tempo que a língua portuguesa deveria ter começado a ‘dar-se a conhecer’ aos descendentes desses «chins».

E a outros, claro.

Mas, segundo dizem por aí, nunca é tarde.

26
Set17

O fim das ciências sociais e das humanidades?

Ricardo Jorge Pereira

A capa do Jornal de Notícias do passado dia 19 de Setembro destacou, também, o caso de uma escolha académica.

«Melhor aluno do Minho seguiu o coração e escolheu História», registou.

Assim, quando muitos esperavam que esse jovem escolhesse Medicina, Engenharia ou, até, Direito, ele escolheu cursar História.

Creio, por isso, ser uma excelente ocasião para recordar um excerto de um texto – “O fim das ciências sociais e das humanidades? que escrevi há um par de anos sobre este género de opções académicas.

E de vida...

 

«O artigo Le Japon va fermer 26 facs de sciences humaines et sociales, pas assez «utiles», publicado na edição online do jornal francês Le Monde no passado dia 17 de Setembro de 2015, sublinhou que 26 universidades nipónicas tinham anunciado querer encerrar as suas faculdades de ciências sociais e humanas ou, pelo menos, limitar e reduzir a sua actividade.

Uma decisão, observou, tomada após a recepção de uma missiva enviada pelo ministro da educação do país dirigida, no início de Junho deste ano, aos presidentes de 86 universidades de todo o país pedindo-lhes que encerrassem ou modificassem «tais departamentos no sentido de beneficiar disciplinas que servem melhor as necessidades da sociedade» japonesa.

Por outro lado, o artigo Which country has most humanities graduates?, publicado em 2 de Setembro de 2015 no sítio do Fórum Económico Mundial, salientou que «um pilar decisivo para o crescimento económico é a disponibilidade de um diverso e altamente especializado “viveiro” de talentos» já que o mesmo «permite a um país poder maximizar o seu capital humano.».

Citando dados compilados pelo próprio Fórum para o seu relatório de 2015 acerca do capital humano, frisou que o top 10 dos países com o maior número de graduados em artes e em humanidades era encabeçado pelos Estados Unidos da América com quase 400 mil licenciados anualmente nestas duas áreas seguido, precisamente, pelo Japão com pouco mais de 144 mil diplomados todos os anos.

Em terras lusas, revelou o físico e político independente recentemente eleito por um partido político nas eleições legislativas portuguesas, Alexandre Quintanilha, num bloco noticioso emitido em 7 de Outubro de 2015 (Telejornal da cadeia televisiva RTP 1) que «há uma depreciação da área das humanidades e das ciências sociais que me desagrada».

Estaria a referir-se, apenas, ao panorama académico e cultural português?

Não sei.

Fruto da minha formação académica em antropologia e da minha actividade profissional de investigador, reflicto muitas vezes sobre a existência das ciências sociais, das artes e das humanidades nos sistemas educativo, social, económico e cultural da maior parte das actuais sociedades do mundo.

E se não existissem, de todo?

Então, todos os assuntos e acontecimentos que preocupam – e que modelam – os cidadãos contemporâneos (como o desemprego, as dependências físicas e virtuais, a guerra, as migrações, as mudanças climáticas, a criminalidade, por exemplo) teriam de ser observados, analisados e comentados, maioritariamente, por actores ligados à engenharia, à medicina, à matemática, à física, à química e às finanças…

Enfim, às ciências exactas e naturais.

Assim, a “lupa” analítica reduzir-se-ia bastante.

Quem perderia?

As sociedades no seu todo porque ver-se-iam privadas de opiniões e de pontos de vista diferentes e alternativos.

Ou seja, todas são precisas: ciências sociais e humanas, artes, ciências naturais e exactas uma vez que os ensinamentos que propõem nos permitem olhar o mundo com outros olhos e pensar.

Mas parece que alguns ainda não perceberam isto».

25
Set17

Demografia e hipocrisia

Ricardo Jorge Pereira

Estava, há dias, a ver o vídeo associado ao texto “Iranian refugees turn to Christianity in the Netherlands” que a British Broadcasting Corporation (BBC) publicou online.

Nele, um pastor local referiu que a Igreja estava a morrer na Europa.

Se ele o diz, assumo que seja verdade.

Mas, por que será?

A resposta tem, quanto a mim, duas ‘dimensões’.

A demográfica e uma outra que designo por “ideológica”.

Demográfica porque aquela que se diz, muitas vezes, ser a população autóctone do Velho Continente (a tal com a pele branca…) está, precisamente, a envelhecer e, por isso, a deixar de frequentar as igrejas.

E ideológica porque os comportamentos de alguns membros da Igreja cristã (católica, sobretudo) – na Europa e no mundo – são, precisamente, o oposto da mensagem que ‘apregoam’: falam em paz mas o chamado Banco do Vaticano é um dos principais accionistas da empresa fabricante de armamento Pietro Beretta (que é, segundo alguns, uma das maiores fabricantes de armas a nível mundial); falam em humanidade mas uma das maiores editoras da Alemanha, a Weltbild, detida pela cúpula do Vaticano, vendia (pelo menos até há poucos anos), material de cariz pornográfico.

E que não se esqueça a pedofilia.

Ou seja, afirma-se o Bem mas pratica-se o Mal…

É por isso que está a morrer.

22
Set17

Percepção e realidade

Ricardo Jorge Pereira

Estando, há meses (no fim de Janeiro deste mesmo ano), a ouvir o programa radiofónico Debate Africano (transmitido na RDP África), deparei-me com uma frase do ‘moderador’ que me fez pensar: «hoje estamos no tempo da percepção».

Na verdade, tinha lido, algum tempo antes, uma outra frase.

Esta da autoria de Miguel Lobo Antunes, administrador da Culturgest (Fundação Caixa Geral de Depósitos): «Não estamos habituados a pôr em causa o que achamos evidente. Muitas vezes, porém, o que é evidente não é tão verdadeiro como à primeira vista podemos pensar. Há muita coisa que se interpõe entre o nosso olhar e a realidade».

Concluí, por isso, que «percepção» era uma coisa e «realidade» era outra coisa.

Por vezes oposta…

Se é verdade que algumas tradições culturais e intelectuais europeias há séculos que vêm acentuando a supremacia do sentido “visão” na formação das percepções, não é possível esquecer a importância da mediação de outros meios (sobretudo de base tecnológica) no tratamento de alguma informação.

Ou seja, a percepção é a interpretação que damos a uma qualquer situação/«realidade» que nos chega por via directa ou indirecta: de forma directa quando a vivemos in loco e, indirectamente, quando a vemos ou ouvimos por intermédio de outrem (num bloco noticioso na televisão ou folheando as páginas de um jornal, por exemplo).

A «realidade», essa, foi, é e será, sempre, a «realidade».

21
Set17

O Algarve e o turismo

Ricardo Jorge Pereira

Pretendo, hoje, voltar a falar do turismo.

Mas decidi focar a minha atenção no Algarve.

De facto, participou, em 1991, numa conferência organizada pela Associação Portuguesa de Geógrafos, então o secretário de Estado do turismo, Licínio Cunha (também já mencionado num texto que publiquei no blogue).

Lembrou, no discurso proferido – que li na obra “Conferência sobre as Potencialidades e Problemas do Litoral Português” (publicada no ano já referido) –, a região meridional de Portugal continental: «Após a década de sessenta iniciou-se um novo período, de acelerado crescimento em que a oferta e procura se concentram no litoral, em particular, no Algarve, que surge como o centro polarizador do desenvolvimento turístico, a tal ponto que o Algarve passou a ser sinónimo do turismo português, quer do ponto de vista interno, quer do ponto de vista internacional».

Assim, prosseguiu, «Foi a época conhecida pelo turismo dos três s: sun, sand, sea, que esteve na origem dos grandes fluxos turísticos do Norte da Europa para o Sul e que ainda hoje representam a principal componente da procura turística internacional».

Referiu, também (estaria a pensar, de forma exclusiva, no exemplo da região algarvia?) que «Partiu-se de um princípio: bastaria ter uma praia acolhedora, com areia fina, um clima ameno e construir alojamentos, para os turistas aparecerem»...1

No entanto, não foram poucos, a partir de certa altura, a alertar para alguns aspectos menos positivos dessa vivência turística.

Recordo, pois, dois exemplos cujas análises se encontram separadas por alguns anos: o Prof. José Hermano Saraiva (num programa televisivo, exibido em 2007, da série “A alma e a gente” que teve por título Um Algarve interior) alertou para a «dependência completa do turismo» da região enquanto que o historiador de arte e docente Francisco Lameira (também num programa televisivo, emitido em 2016, da série “Visita guiada” dedicada ao mercado da cidade de Olhão) sublinhou que «o Algarve, a partir da década de sessenta, foi invadido por uma nova filosofia ligada ao turismo e as terras (…) acabaram por se descaracterizar bastante».

Dependência e descaracterização.

 

 

1  «Já foi o sol e praia, agora é o vinho o maior potencial turístico de Portugal. A revelação foi feita, há dois anos, por um estudo realizado pelo Instituto de Turismo: 37% dos operadores estrangeiros que foram questionados afirmaram ser o vinho o melhor argumento de promoção de Portugal no estrangeiro. Dados reconfirmados, no ano passado, por outro estudo da OMT [a Organização Mundial de Turismo]».

Foram estas as palavras proferidas pela jornalista da rádio pública Antena 1, no programa Portugal em Direto, emitido no início de Abril de 2016, como introdução da entrevista ao secretário-geral da Associação de Municípios Portugueses do Vinho, José Arruda.

20
Set17

Paz e fogo

Ricardo Jorge Pereira

«Quem começa por queimar livros, acaba por queimar homens».

Não sei se o poeta alemão do século XIX Heinrich Heine estava a pensar nalguma situação particular quando escreveu esta frase.

O que sei – ou melhor, penso saber – é que se assinalam hoje 477 anos daquele que foi o primeiro auto-de-fé em Portugal: foi, precisamente, no dia 20 de Setembro (outros dirão «26 de Setembro»… ) de 1540 que, na sequência de um processo religioso, foi queimada a primeira pessoa em Portugal.

Foi, por sinal, no largo do Rossio, em Lisboa, que essa sentença foi executada.

Com a ‘distancia’ proporcionada por quase cinco séculos, este acontecimento motiva-me a fazer o seguinte comentário em forma de pergunta: como foi possível que, ao mesmo tempo que milhares de portugueses “lidavam”, quotidianamente, com o exotismo proporcionado pelas suas viagens no Atlântico, no Índico e no Pacífico – ou seja, aquilo que o então presidente da República, Jorge Sampaio, lembrou no momento da inauguração da exposição mundial de Lisboa, a Expo’98, «Portugal fez do mar a via para se encontrar consigo, com os outros, com o Mundo» –, tivesse ‘nascido’ um mecanismo comandado pela Igreja Católica, a Inquisição, que explorou, da forma mais abjecta e primitiva que a imaginação poderia, certamente, permitir (através dos autos-de-fé, por exemplo) um dos piores sentimentos da espécie humana: a intolerância?

19
Set17

"Nós contra eles"

Ricardo Jorge Pereira

Quero deixar algumas palavras sobre um ‘episódio’ do programa televisivo Prós e Contras.

«Terrorismo: a nova guerra mundial» constituiu um dos ‘motes’ de uma emissão que foi para o ar no início de Abril de 2016.

Ora, o próprio sítio web da Rádio e Televisão de Portugal (a RTP), que o emitiu, sublinhou, paralelamente, que «A Europa está em guerra contra o terrorismo islâmico!».

Estou certo de que se não pretendia dizer que todos os actos terroristas que tinham vindo a assolar a Europa até esse momento1eram da responsabilidade exclusiva de gente que professava a fé islâmica…

Sugiro, no entanto, que se recupere o texto escrito por Eduardo Prado Coelho - “O delírio nacionalista” - a propósito da ‘temática’ do “nós contra eles”.

 

 

1 Este programa televisivo deveu-se ao facto de, no final do mês anterior, se terem registado ataques terroristas na Bélgica.

18
Set17

Mais uma limpeza étnica...

Ricardo Jorge Pereira

«Limpeza étnica», diz a Organização das Nações Unidas.

A violência física que atinge, desde finais de Agosto último, os membros da minoria étnica e religiosa Rohingya na Birmânia (ou Myanmar) levou já à fuga de milhares de pessoas para o vizinho Bangladesh.

Assim, aproveito este espaço para transcrever o conteúdo de uma carta – aberta, pois – que o arcebispo emérito Desmond Tutu (antigo laureado com o prémio Nobel da Paz) escreveu à líder de facto do executivo birmanês, Aung San Suu Kyi (também ela antiga galardoada com o prémio Nobel da Paz) porque o entendo como um dos mais lúcidos e coerentes que li já em relação ao genocídio, com ou sem aspas, em questão.

 

«7 de Setembro de 2017

 

Carta aberta do arcebispo emérito Desmond Tutu para a Senhora Aung San Suu Kyi

 

Minha querida Aung San Suu Kyi

 

Estou velho, decrépito e, formalmente, aposentado mas a romper o meu voto de me manter em silêncio perante assuntos públicos no sentido de expressar profunda tristeza a propósito do destino dos membros da minoria muçulmana no teu país, os Rohingya.

 

És, para mim, uma querida irmã mais nova. Tive, durante anos, um retrato teu na minha secretária para me lembrar das injustiças e sacrifícios por que passaste em virtude do amor nutrido e comprometido para com o povo da Birmânia. Simbolizaste, então, a Justiça. Em 2010 rejubilámos com a tua liberdade face à prisão domiciliária e, em 2012, celebrámos a tua eleição como líder da oposição política do país.

 

A tua ascensão aos ‘holofotes’ da vida pública apaziguou os nossos receios acerca da violência que tinha vindo a ser perpetrada contra membros Rohingya mas aquilo que alguns chamaram ‘limpeza étnica’ e outros ‘um genocídio lento’ não só continuou como, recentemente, até acelerou.

 

As imagens que vamos vendo do sofrimento dos Rohingya enche-nos de dor e de medo.

 

Sabemos que tu sabes que os seres humanos podem ter uma aparência física e defender crenças religiosas diferentes – e que alguns podem ter maior poder bélico do que outros – mas nenhum é superior e nenhum é inferior; sabemos que sabes que quando se raspa a superfície todos somos iguais, membros de uma só família, a família humana; sabemos que sabes que não existem diferenças naturais entre fiéis do Budismo e do Islamismo; e sabemos que sabes que, quer sejamos judeus ou hindus, cristãos ou ateus, nascemos para nos amarmos sem preconceitos.

 

A discriminação não é natural: ela é ensinada.

 

Minha querida irmã: se o preço político da tua ascensão ao mais elevado posto na Birmânia é o teu silêncio, ele é, seguramente, muito alto. Um país que não está em paz consigo próprio, que falha no reconhecimento e na protecção da dignidade e valor de todo o seu povo, não é um país livre.

 

Tal não é, pois, compatível com um símbolo da Justiça.

Rezamos, à medida que testemunhamos um terror sem precedentes, para que sejas, de novo, corajosa e resiliente. Rezamos para que sejas uma porta-voz da justiça, dos direitos humanos e da unidade do teu povo. Rezamos para que intervenhas na crise e para que conduzas o teu povo, novamente, no caminho da justiça.

 

Que Deus de abençoe.

 

Com amor»

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