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01
Fev18

A comunidade, a sociedade e nós (2.ª parte)

Ricardo Jorge Pereira

(continuação)

 

Entre aqueles para quem a aldeia significava a comunidade e a cidade significava, ao invés, a sociedade esteve o também sociólogo, mas de nacionalidade francesa, Émile Durkheim.

Este cientista social trouxe, ainda no final do século XIX, alguma luz a estas questões quando reflectiu sobre as características sociais subjacentes à acção, necessariamente dinâmica, deste fenómeno particular de industrialização e identificou dois tipos de solidariedade social: a solidariedade mecânica, de cariz pré – moderno, que, defendeu, se caracterizava por um predomínio e pela sobreposição da consciência colectiva face à consciência do indivíduo e por relações afectivas mais profundas entre os elementos, representava a vida em e na comunidade (desta concepção particular poderá deduzir-se facilmente que, para o autor, a comunidade e as suas características eram melhor patenteadas pela realidade social rural...) e a solidariedade orgânica, com uma génese moderna que, inversamente, se encontrava mais abrangentemente representada nos meios urbanos e industriais (percepcionados como constituindo, pois, a sociedade) e se caracterizava mentalmente pela sobreposição da consciência indivídual à consciência colectiva e por relações pessoais mais distantes e menos profundas sentimentalmente.

Assim, nos agrupamentos humanos ‘arcaicos’ em que a solidariedade era de base mecânica e a diferenciação das fronteiras entre deveres e direitos era quase inexistente, o sistema social vigente “aguentava-se” devido à própria homogeneidade das regras e dos valores que constituíam a chamada consciência colectiva.

De forma interessada, também o sociólogo e professor alemão Georg Simmel (que já ‘convoquei’ para o blogue) deu conta na sua obra “The Metropolies and Mental Life” da transformação dos valores subjacentes à vida social dos indivíduos numa época (fim do século XIX e início do XX) profundamente marcada pela crescente industrialização e urbanização de diversas regiões não apenas em contexto europeu mas igualmente nos Estados Unidos da América.

Através da personagem por si criada, Hans, Simmel revelou o encontro com a modernidade através da experiência quotidiana daquele camponês.

Efectivamente, encontrando-se inicialmente inserido numa rede de relações pessoais primárias, de parentesco e de interconhecimento (a família extensa e os vizinhos), Hans deparou-se, através da migração para uma grande cidade, com um mundo novo e começou, desde logo, a aperceber-se das diferenças de valores e de sentimentos (e não só) entre os dois ambientes físicos: afastado da intimidade relacional que o havia envolvido toda a vida na aldeia, passou a enfrentar um mundo que descreveria, certamente, como calculista e impessoal onde o sentimento de anonimato, criado e reforçado pelo excesso de estímulos no contexto das interacções sociais, surgia como que na forma de uma resposta social mais defensiva, por assim dizer, por parte dos indivíduos.

Para o académico germânico, todavia, aquelas transformações não encerravam somente aspectos ou situações menos positivos e, até, nefastos: o indivíduo (encarnado, pois, por Hans), uma vez fora dos contornos sociais e psicológicos característicos das suas origens rurais, poderia, na grande cidade, escolher os amigos que quisesse, o trabalho ou a profissão que preferisse (com maiores ou com menores restrições...), sem estar permanentemente condicionado por impeditivos ou condicionantes de ordem moral e cultural do agrupamento tradicional de que provinha.

Para o seu contemporâneo e igualmente sociólogo alemão Max Weber, o sentimento do nós era a característica essencial da comunidade.

Poderíamos assim, observou-o, chamar comunidade a uma relação social quando e na medida em que o comportamento na acção social se inspirasse num sentimento subjectivo – afectivo ou tradicional – dos participantes num todo.

É, pois, o sentimento que poderei designar de integração e de inclusão sociais.

Já o sociólogo e docente polaco Florian Znaniecki, que escreveu “The Polish Peasant in Europe and America”, referiu, na década de 1940, que, tendo subjacentes os aspectos do controlo social mas não o identificando com qualquer entidade ou estrutura física específica (aldeia, por exemplo) ou sequer profissional (um banqueiro e os seus clientes como exemplo), um indivíduo poderia tender a conformar-se com as exigências do seu círculo ou tentar, então, inovar e tornar-se, assim, independente dessas exigências.

Poder-se-ia, no entanto, afirmar que a contínua chegada à cidade de elementos muito diferentes, ‘formatados’ em usos e em costumes diversos, impediria a generalização de um clima social estável capaz de assegurar uma certa uniformidade no comportamento dos seus habitantes.

Ora, sendo a cidade uma espécie de mosaico interligado de grupos primários e associações de interesses, Znaniecki introduziu, uma vez mais, a «consciência de que existe uma variedade de agrupamentos dentro da sociedade, em lugar de apenas um grande grupo».

Usando a expressão «círculo social» para se referir ao grupo numericamente (sobretudo) limitado com o qual o papel social de um indivíduo é mais imediatamente associado, apontou Znaniecki para o facto de que tais grupos se submeteriam a certos valores que concorriam e possibilitavam para e as suas interacções num determinado contexto social.

Assim, concluiu, as causas particulares e os fins, sem os quais não existe, naturalmente, associação, são como que o corpo (a matéria) do processo social.

 

(continua)

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