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23
Out17

A despersonalização da morte

Ricardo Jorge Pereira

«Hoje morre-se no hospital».

Foram estas as palavras que ouvi, há dias, num programa radiofónico sobre os cuidados paliativos.

Opto, assim, por reproduzir um texto de Philippe Ariès – “Sobre a História da Morte no Ocidente” (1989 foi o ano da edição portuguesa): «Algures, na zona da morte nova e moderna, procura-se reduzir a um mínimo decente as operações inevitáveis destinadas a fazer desaparecer o corpo. Importa antes de mais que a sociedade, os amigos, a vizinhança, os colegas, as crianças se apercebam o menos possível da passagem da morte. Se algumas formalidades se mantêm e se uma cerimónia continua a assinalar a partida, devem ter um carácter discreto e evitar todo o pretexto para qualquer emoção: por isso as condolências à família são agora suprimidas no final dos serviços de enterramento. As manifestações aparentes de luto estão condenadas e em vias de extinção. Já não se enverga vestuário escuro, já não se adopta uma aparência diferente da de todos os dias. Um desgosto demasiado visível não inspira piedade mas repugnância; é um sintoma de desarranjo mental ou de má educação; é mórbido. No seio do círculo familiar hesita-se ainda em deixar exteriorizar a dor, por receio de impressionar as crianças. (…) O conjunto de fenómenos que acabámos de analisar mais não é que a entrada em cena de um interdito: o que outrora era obrigatório passou a ser proibido.

O mérito de ter sido o primeiro a formular esta lei não escrita da nossa civilização industrial pertence ao sociólogo inglês Geoffrey Gorer. Ele mostrou bem como a morte se converteu num tabu e como, no século XX, ela substituiu o sexo como principal interdito. Noutros tempos dizia-se às crianças que “vinham de Paris”, mas elas assistiam à grande cena do adeus à cabeceira do moribundo. Hoje em dia, são iniciadas desde a mais tenra idade na fisiologia do amor mas, quando deixam de ver o avô e manifestam o seu espanto, dizem-lhes que ele repousa entre as flores de um belo jardim: “The Pornography of Death” título de um artigo precursor de Gorer, publicado em 1955. Quanto mais a sociedade afrouxava as suas vitorianas interdições sexuais, mais rejeitava as coisas da morte. E, ao mesmo tempo que o interdito, aparece a transgressão: na literatura maldita reaparece a mistura do erotismo e da morte (…) e, na vida quotidiana, a morte violenta».

A morte já não é o que era...

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