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22
Ago17

Contributos para um retrato de Portugal em 2017

Ricardo Jorge Pereira

O embaixador Marcello Duarte Mathias referiu-se, numa entrevista recente a um jornalista do jornal Diário de Notícias, a um dos grandes romances de José Maria Eça de Queiroz: “Os Maias”.

Afirmou, então, que bastava ler “Os Maias” para se perceber ‘o’ Portugal do século XIX podendo dispensar-se, assim, a consulta de quadros estatísticos ou a leitura de obras escritas por economistas ou por historiadores.

Concordo.

Projecto, no entanto, “Os Maias” - e outros escritos - para o presente (ou para o futuro já que foram todos escritos no século XIX…).

Por exemplo, Eça de Queiroz tinha já escrito em 1871, creio que n’ “As Farpas”, as seguintes reflexões:

«Estamos perdidos há muito tempo... O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes morais estão dissolvidos, as consciências em debandada. Os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-que por toda parte que o País está perdido!».

Tal como o fez, mais tarde (em 1896), Abílio de Guerra Junqueiro no poema “A Pátria”:

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira á falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, como da roda duma lotaria.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar».

Apesar de terem sido escritos há mais de um século, estes textos são, em minha opinião, ‘fornecedores’ de um retrato muito semelhante do que considero ser, hoje – em 2017, claro está – Portugal.

Um jardim violentado, maltratado e queimado à beira-mar plantado.

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