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18
Set17

Mais uma limpeza étnica...

Ricardo Jorge Pereira

«Limpeza étnica», diz a Organização das Nações Unidas.

A violência física que atinge, desde finais de Agosto último, os membros da minoria étnica e religiosa Rohingya na Birmânia (ou Myanmar) levou já à fuga de milhares de pessoas para o vizinho Bangladesh.

Assim, aproveito este espaço para transcrever o conteúdo de uma carta – aberta, pois – que o arcebispo emérito Desmond Tutu (antigo laureado com o prémio Nobel da Paz) escreveu à líder de facto do executivo birmanês, Aung San Suu Kyi (também ela antiga galardoada com o prémio Nobel da Paz) porque o entendo como um dos mais lúcidos e coerentes que li já em relação ao genocídio, com ou sem aspas, em questão.

 

«7 de Setembro de 2017

 

Carta aberta do arcebispo emérito Desmond Tutu para a Senhora Aung San Suu Kyi

 

Minha querida Aung San Suu Kyi

 

Estou velho, decrépito e, formalmente, aposentado mas a romper o meu voto de me manter em silêncio perante assuntos públicos no sentido de expressar profunda tristeza a propósito do destino dos membros da minoria muçulmana no teu país, os Rohingya.

 

És, para mim, uma querida irmã mais nova. Tive, durante anos, um retrato teu na minha secretária para me lembrar das injustiças e sacrifícios por que passaste em virtude do amor nutrido e comprometido para com o povo da Birmânia. Simbolizaste, então, a Justiça. Em 2010 rejubilámos com a tua liberdade face à prisão domiciliária e, em 2012, celebrámos a tua eleição como líder da oposição política do país.

 

A tua ascensão aos ‘holofotes’ da vida pública apaziguou os nossos receios acerca da violência que tinha vindo a ser perpetrada contra membros Rohingya mas aquilo que alguns chamaram ‘limpeza étnica’ e outros ‘um genocídio lento’ não só continuou como, recentemente, até acelerou.

 

As imagens que vamos vendo do sofrimento dos Rohingya enche-nos de dor e de medo.

 

Sabemos que tu sabes que os seres humanos podem ter uma aparência física e defender crenças religiosas diferentes – e que alguns podem ter maior poder bélico do que outros – mas nenhum é superior e nenhum é inferior; sabemos que sabes que quando se raspa a superfície todos somos iguais, membros de uma só família, a família humana; sabemos que sabes que não existem diferenças naturais entre fiéis do Budismo e do Islamismo; e sabemos que sabes que, quer sejamos judeus ou hindus, cristãos ou ateus, nascemos para nos amarmos sem preconceitos.

 

A discriminação não é natural: ela é ensinada.

 

Minha querida irmã: se o preço político da tua ascensão ao mais elevado posto na Birmânia é o teu silêncio, ele é, seguramente, muito alto. Um país que não está em paz consigo próprio, que falha no reconhecimento e na protecção da dignidade e valor de todo o seu povo, não é um país livre.

 

Tal não é, pois, compatível com um símbolo da Justiça.

Rezamos, à medida que testemunhamos um terror sem precedentes, para que sejas, de novo, corajosa e resiliente. Rezamos para que sejas uma porta-voz da justiça, dos direitos humanos e da unidade do teu povo. Rezamos para que intervenhas na crise e para que conduzas o teu povo, novamente, no caminho da justiça.

 

Que Deus de abençoe.

 

Com amor»

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