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25
Ago17

O fim dos BRICS?

Ricardo Jorge Pereira

2006.

Foi no ano de 2006 que foi criada a associação que agrupava as quatro maiores economias “emergentes” do mundo – os BRIC: Brasil, Rússia, Índia e China.

Tal associação adquiriu em 2010 a sua actual designação, BRICS, depois da África do Sul se lhe ter juntado1.

Constituído, pois, para aumentar a presença dos seus membros nos palcos da economia e da política mundial, é, para mim, fácil reconhecer que, embora cada um dos membros do grupo tenha vindo a enfrentar naturais dificuldades naquelas ‘áreas’, não existe, hoje, qualquer motivo que justifique a sua dissolução.

Nem mesmo o conflito fronteiriço entre Índia e China que, diplomaticamente, se tem vindo a fazer sentir desde há alguns meses.

Não consigo desvalorizar, porém, dois factos: um é a ‘penetração’ chinesa em África e o outro é a ‘penetração’ brasileira em África.

A China é um dos maiores parceiros comerciais do continente africano e, ao mesmo tempo, um dos que aí mais investe2.

Em infra-estruturas, sobretudo (portos, barragens e estradas, por exemplo).

E é importante não esquecer a dimensão militar dessa ‘ligação’ da China ao continente africano.

A China começou a utilizar, há algumas semanas, uma base militar no Djibouti – pequeno país localizado no chamado Corno de África 3 – para além de ser o membro do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas com o maior número de capacetes azuis no continente (cerca de 2000 ‘espalhados’ pela República Democrática do Congo, pela Libéria, pelo Mali, pelo Sudão e pelo Sudão do Sul).

Ou seja, como li já, África é, para a China, «um verdadeiro laboratório para as suas ambições internacionais».

Por seu lado, também o Brasil tem, por estes dias, uma grande presença em África.

Consultei, por isso, um artigo preparado por um académico brasileiro na área dos Estudos Estratégicos Internacionais.

Assim, uma parte «da estratégia de inserção internacional brasileira, desde 2000, é a ideia de estabelecer relações mais próximas com outros países em desenvolvimento, para, com isso, diversificar parcerias globais».

De facto, «dessa forma, as relações do Brasil com países africanos são essenciais para sua estratégia, porque vinculam princípios éticos e interesses nacionais».

Têm, pois, sido estabelecidos protocolos no âmbito académico e cultural (com Angola, em 2010), assinados acordos de parceria estratégica (com a África do Sul, em 2010) e celebrados acordos no âmbito militar (com a Nigéria, por exemplo).

Mas, então, como se ‘conjugariam’ as presenças, em África, de China e Brasil?

«Apesar de eu não ser um especialista em geopolítica, gostaria de lhe colocar uma questão: a China, por exemplo, tem vindo a construir, em todo o continente africano, um conjunto de infra-estruturas (por exemplo, portos, pontes, estradas e, até, uma base militar no Djibouti…). Assim, pergunto-lhe se a “invasão chinesa” (no bom sentido) não coloca (no presente) e não poderá colocar (no futuro) em causa a estratégia geopolítica brasileira no continente africano?», perguntei ao referido académico.

Eis a resposta que, simpaticamente, me concedeu:

«A pergunta é bastante instigante e daria pra escrever um artigo todo sobre ela. Em poucas palavras, acredito que atualmente a presença chinesa na África ainda não coloca a estratégia brasileira em risco. Pelo contrário, é possível que ela a reforce na medida em que a China também procura o fortalecimento dos Estados africanos. Entretanto, essa é minha leitura do cenário atual. No futuro, acredito que, sim, a China pode colocar em risco a estratégia brasileira, especialmente se Pequim vier a ocupar o papel que hoje é ocupado pelas antigas metrópoles coloniais».

Depois da 8.ª reunião dos BRICS – que teve lugar em Goa em Outubro de 2016 – e do 9.º encontro – a realizar, em Setembro de 2017, na cidade chinesa de Xiamen –, não sei quantas mais reuniões dos BRICS irão existir...

 

 

1 Os países que integram os BRICS representam, actualmente, cerca de 40% do total da população mundial.

2 A República Popular da China investiu em África, nos primeiros quatorze anos do século XXI, cerca de 220 mil milhões de dólares.

Entretanto, o jornal britânico dedicado à economia Financial Times, através do relatório “The Africa Investment Report 2017”, veio já dizer que o gigante asiático foi, em 2016, o ‘campeão’ do Investimento Directo Estrangeiro em África.

3 Se esta é a primeira base militar chinesa em solo estrangeiro, os Estados Unidos da América contam mais de seiscentos agrupamentos militares no estrangeiro e         a França cerca de uma dezena...


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