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14
Jul17

Tão longe e tão perto

Ricardo Jorge Pereira

As forças iraquianas reconquistaram, no início deste mês de Julho de 2017, a 2.ª maior cidade do Iraque.

Após 3 anos de domínio dos militantes e combatentes do chamado Estado Islâmico (ou Daesh, na sigla árabe), a maior metrópole do norte do país, Mossul, foi libertada pelo exército iraquiano, militarmente apoiado por uma coligação liderada pelos Estados Unidos da América, depois de ter empreendido uma batalha que durou perto de nove meses.

Mossul havia, efectivamente, sido declarada pelo líder da organização – Abu Bakr al-Baghdadi – como bastião de um califado que dominava vastos territórios no Iraque e na Síria.

No entanto, enquanto se celebrava, na capital Bagdad, o primeiro-ministro iraquiano Haidar al-Abadi como o herói nacional que havia derrotado os impiedosos terroristas do Estado Islâmico, esqueciam-se dois ‘pequenos’ pormenores: o primeiro era o de que existiam, ainda, em Mossul, “bolsas de resistência” ocupadas por combatentes jihadistas e o segundo era o de que essa derrota total (que, pelos vistos, não era assim tão total…) não significaria o fim do Estado Islâmico nem o fim do sectarismo e extremismo religiosos1.

Ora, a face mais visível dessa violência tem sido o atentado (ou ataque) terrorista.

Na verdade, o gabinete de estudos National Consortium for the Study of Terrorism and Responses to Terrorism da universidade norte-americana de Maryland realçou que, apesar de os ataques terroristas ocorridos em 2015 se terem verificado em quase 100 países, mais de metade deles ocorreu em, apenas, cinco: Iraque, Afeganistão, Paquistão, Índia e Filipinas. Por seu lado, 69% de todas as mortes associadas a esses ataques tiveram lugar, igualmente, em cinco países: Iraque, Afeganistão, Nigéria, Síria e Iémen2.

Por seu lado, o Global Peace Index 2016, elaborado pelo Institute for Economics & Peace, destacou que, à excepção dos países das regiões do Próximo Oriente e do Norte de África, os que se situam na Europa foram os mais fustigados, em 2015, pelo terrorismo.

Olhe-se, por isso, mais detalhadamente, para os ataques terroristas que têm aterrorizado, nos últimos anos, vários países europeus.

Quase todos tiveram a “marca” do Estado Islâmico.

Uma marca de intolerância, de brutalidade, de imprevisibilidade e, sobretudo, de medo: para o filósofo e escritor Umberto Eco os terroristas não saqueavam para possuir nem matavam para saquear. Matavam, sim, para punir e para purificar através do sangue.

Também o filósofo Claude Polin, no seu O totalitarismo, reflectiu sobre esta questão da punição: «Em todas as guerras existe um inimigo, mas que só o é condicionalmente, e a prova disso é que apenas se pretende que ele desista da luta. Se pretendermos tornar a luta em algo de absoluto, é preciso que o inimigo também o seja».

Assim, o Outro é «um inimigo que não sabe que o é, mas que continua a ser um inimigo sem o saber e sem querer, faça o que fizer».

Séculos depois de um manuscrito ter previsto a conquista da Europa pela «espada do Islão», parece que uma nova era da jihad internacional despontou pois Portugal fazia parte dos planos do Estado Islâmico com a pretendida recuperação do Al-Andaluz de antanho.

E se o Estado Islâmico original desaparecer, não tenho quaisquer dúvidas de que um qualquer outro Estado Islâmico irá ocupar o seu lugar...

1Na crónica que assinou na edição online do jornal francês Le Figaro no passado dia 10 de Julho, Éric Zemmour escreveu o seguinte: «O Próximo Oriente vive, actualmente, uma situação parecida com aquela que a Europa viveu no século XVII já que a querela religiosa entre católicos e protestantes se transformou numa guerra total».

2Este mesmo gabinete universitário, através da sua base de dados dedicada ao terrorismo global, por assim dizer, registou, em 2015, 14.806 ataques terroristas, ou seja, cerca de 41 ataques diários.

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