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29
Dez17

Tomal e mais além

Ricardo Jorge Pereira

Apesar de ter sido dado à estampa em meados de 2015, só agora li o livro “Política Externa Portuguesa” que Tiago Moreira de Sá escreveu e que a Fundação Francisco Manuel dos Santos publicou.

Escreveu o autor que, por exemplo, «É certo que a arquitectura essencial da política externa da democracia portuguesa está construída e é constante, tendo na base a balança entre os vectores continental e atlântico e, como eixos fundamentais, a integração europeia, a dupla aliança com os EUA [Estados Unidos da América] e as relações próximas com os países de língua oficial portuguesa [a Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa, CPLP]. Porém, a orientação estratégica externa de Portugal, que é definida sempre deste quadro, pode e tem de variar em função das alterações na distribuição de poder ao nível internacional ou regional.».

Efectivamente, continua, «A política externa portuguesa actual é simultaneamente o resultado do seu percurso histórico, com as tradições nele desenvolvidas, e dos esquemas de distribuição de poder que se sucedem nos contextos das suas áreas de inserção estratégica e no sistema internacional.».

Mas, avisa, «quaisquer alinhamentos extra-europeus, podendo ser vistos como mecanismos compensatórios, jamais se poderão constituir como verdadeiras alternativas à UE [União Europeia].».

Devo, desde já, sublinhar que não sou detentor de quaisquer competências académicas e/ou políticas que me poderiam, talvez, permitir encetar uma espécie de renovação conceptual e, pois, concreta dos ‘caminhos’ da política externa de Portugal.

O que não impede, evidentemente, que tenha uma opinião sobre esta matéria.

De facto, é por demais evidente que Portugal é um país europeu.

Basta olhar para um mapa.

Parece-me, pois, natural – e normal – que Portugal procure acompanhar, dentro das suas possibilidades (económicas, por exemplo), esforços que possam permitir, um dia, a sua plena ‘afirmação’ política, social, económica e cultural na Europa.

O que não me parece natural, nem normal, é que, por exemplo, se afirme, categoricamente, que Portugal pode (e deve) como que adaptar a sua política externa ao contexto internacional e se diga depois que «Portugal deve evitar concessões que o tornem mais dependente daquele que é o grande rival estratégico dos Estados Unidos, o líder da aliança crucial do país [a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN ou, no acrónimo em língua inglesa, NATO]» já que «As relações luso-americanas, altamente prioritárias pela importância que têm desde logo na garantia da sua segurança, devem definir os limites do relacionamento de Portugal com a China.».

Ou seja: pode, mas...

Ora, tenho vindo a ler, de há alguns anos a esta parte, que o centro de poder do mundo estava, cada vez mais, a ‘deslocar-se’ para Oriente.

Assim, do Atlântico para o Pacífico.

O centro de poder económico, diga-se, e, talvez, também, político.

Creio, de facto, que sempre que falamos da política externa portuguesa é fundamental não se esquecer que Portugal não é só o único país que, simultaneamente, integra o núcleo de três grandes blocos políticos, económicos e culturais (a Comunidade de Estados Ibero-Americanos, a CPLP e a UE).

Ele é, na verdade, o país que, há vários séculos atrás iniciou o que hoje chamamos globalização.

E que detém, ainda, o capital relacional, por assim dizer, adquirido em virtude da sua presença global mas que, no entanto, se tem quase sempre empenhado em desperdiçar.

O que penso ser uma atitude estratégica muito pouco estratégica uma vez que tem mantido o país enclausurado na Europa, demasiadamente obediente aos EUA e muito ‘fixado’ na CPLP1.

Quero concluir este pequeno texto citando, apenas, dois exemplos que me parecem ser perfeitos para ilustrar esta falta de investimento cultural.

O primeiro: Joaquim Magalhães de Castro escreveu no seu “Oriente Distante” (2012) o seguinte: «A lamentável realidade não deixava de ser duplamente perversa. Nós, portugueses, que estivemos na origem da fundação de uma das mais importantes cidades nipónicas, que contribuímos de múltiplas formas para a abertura do Japão ao mundo e, durante quase um século, fomos os interlocutores privilegiados com esse peculiar povo oriental, movimentando-nos por onde queríamos e quase sempre nas boas graças dos xóguns locais e do próprio imperador, corríamos (e corremos ainda) o risco de ficarmos perdidos no buraco negro do esquecimento.».

O segundo: disse (entre muitas outras coisas, claro) o embaixador da Coreia do Sul em Portugal, Chul Min Park, numa palestra de que já falei aqui no blogue, que a Coreia contava 5000 anos de história e que o primeiro europeu a pisar solo coreano o tinha feito em 15 de Junho de 1504 e era português (João Mendes, de seu nome). Explicou, igualmente, que a palavra “Tomal” significava fim da terra e que assentava como uma luva, pois, quer a Portugal, quer à Coreia. Terminou, porém, a sua alocução lamentando que a ‘atenção’ portuguesa actual se dirigisse, sobretudo, para o Brasil e para Angola…

 

 

 

 

1  Esta atitude pouco estratégica tem influenciado, claro, outras áreas para além da política externa. Recordo-me de há alguns anos (em meados de Dezembro de 2014, por sinal) o presidente do Turismo de Portugal João Cotrim de Figueiredo ter dito numa entrevista ao ainda existente jornal Diário Económico o seguinte: «se há mercados emissores que se podem posicionar, dentro e fora da Europa, como sendo importantes na emissão de turistas não será no momento em que estejam a tornar-se realidade que vamos começar a fazer os esforços. Temos de começar já com outro tipo de investimento, de objectivos de curto prazo, mas com a perspectiva de os tornar fortes contribuintes para fluxos turísticos para Portugal»

Esclareceu, no entanto, que «estamos atentos à situação económica europeia porque são os mercados que continuam a emitir mais de 80% dos turistas estrangeiros que nos visitam».

 

 

 

 

Post scriptum: bom ano de 2018!

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