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uso externo

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19
Jun18

Outra vez Macau

Ricardo Jorge Pereira

No dia em que aterra (ou aterrou já…), em Lisboa, o secretário para a Economia e Finanças do executivo de Macau, Lionel Leong, recordo uma expressão que foi utilizada pelo jornal Correio da Manhã alguns dias antes de a Administração portuguesa deixar Macau – em 20 de Dezembro de 1999: que a contagem decrescente continuava e que Macau era «já quase chinês».

Devo dizer que tenho muitas dúvidas sobre se alguma vez deixou de o ser.

 

 

 

 

Post scriptum: Li, entretanto, sobre a real possibilidade de o Japão conceder autorização para facilitar a instalação de casinos na ilha. Ora, sabendo da experiência, antiga de décadas, acumulada por Macau no ‘campo’ do jogo e da origem maioritária das pessoas que aí se têm deslocado para jogar (do resto do ‘continente’ chinês, de Hong Kong e de Taiwan), pergunto se a dependência – excessiva? – económica e social de Macau do jogo não poderá sofrer um ‘abalo’. É que me recordo de ter visto e ouvido (na reportagem “Chão de Macau” transmitida pela SIC em 2012) o arquitecto macaense Carlos Marreiros dizer que a grande dependência da economia de Macau do jogo era grave. Imaginasse-se que, por exemplo, num futuro mais ou menos distante, Cantão [ou Guangzhou, cidade capital da província de Guangdong, em que a Região Administrativa Especial de Macau se situa e uma das maiores metrópoles da China] resolvia liberalizar o jogo: então, Macau morreria...

18
Jun18

Acautelar o futuro

Ricardo Jorge Pereira

«Como sociedade, todos temos que nos interrogar como é possível que pessoas que vivem na Alemanha e, até, nasceram e cresceram aqui, podem ser apoiantes de um grupo brutal, inumano e fundamentalista como o Estado Islâmico [EI]. Na Alemanha, o EI ameaça tornar-se um refúgio para jovens frustrados com a ausência de perspectivas de futuro.».

Estas foram algumas das palavras proferidas pela vice-presidente do parlamento alemão (o Bundestag), Claudia Roth, numa entrevista concedida ao jornal Die Welt e que foi publicada no início de Outubro de 2014 na sequência de confrontos, em Hamburgo, entre membros de grupos muçulmanos rivais.

Subscrevi e subscrevo por completo estas palavras sugerindo que a nossa indignação enquanto membros da sociedade – na alemã, na francesa, na espanhola ou na portuguesa, entre outras – não se fique, apenas, nas interrogações mas que nos leve a agir.

E, acrescento, de forma urgente.

Até porque nem creio que seja assim tão difícil perceber que qualquer ideário xenófobo e extremista (como o defendido – e executado – pelo EI, por exemplo) tem procurado e procurará sempre tornar-se «um refúgio para jovens frustrados com a ausência de perspectivas de futuro» preenchendo, assim, uma espécie de vazio originado pelo fracasso dos modelos de socialização propostos (impostos…) pelos sistemas de organização social, económica e cultural tradicionais.

15
Jun18

Norte de África, 2030?

Ricardo Jorge Pereira

Ocupei aqui ontem algumas linhas com palavras alusivas à selecção portuguesa de futebol em competição no Campeonato do Mundo na Rússia.

Não volto, evidentemente, a escrever sobre a equipa lusa mas insisto no ‘tema’ Campeonato do Mundo de Futebol.

Por isto: pouquíssimo tempo depois da candidatura apresentada por Marrocos para acolher o Campeonato do Mundo de Futebol em 2026 ter sido preterida, pela FIFA, a favor da candidatura conjunta apresentada pelo Canadá, pelos Estados Unidos da América e pelo México, o reino de Mohammed VI voltou a anunciar a candidatura para a organização de outra edição de tal competição futebolística mundial.

Desta feita, a de 2030.

Embora tenha necessariamente sido uma decisão que tomou em linha de conta os compromissos já assumidos para 2026, tenho vindo a ler sobre a ‘premência’ do anúncio contar com a participação activa de outros países da região norte-africana.

Ou seja, uma candidatura conjunta de Marrocos, Tunísia, Argélia e, se possível até, Líbia e Mauritânia.

Ora, se acabar por ser esta a decisão tomada não tenho quaisquer dúvidas em qualificá-la de inteligente e de sábia.

14
Jun18

De todos e com todos

Ricardo Jorge Pereira

Escrevo agora sobre o conjunto de jogadores que o seleccionador da equipa nacional de futebol, Fernando Santos, escolheu para integrar a equipa principal que participará no Campeonato Mundial da modalidade que hoje se inicia na Rússia.

Mas não escrevo sobre os argumentos e/ou as justificações técnicas dadas por Santos.

Escrevo, sim, sobre as ‘amplitudes’ geográfica, social, económica e cultural que me parecem existir em tal escolha de jogadores.

É claro que admito a possibilidade de existir uma ‘leitura’ idílica sobre estas amplitudes: entre os jogadores escolhidos encontram-se ‘representantes’ de quase todas as regiões portuguesas (à excepção, segundo me pareceu, do arquipélago dos Açores) e mesmo de outras latitudes, na Europa (em França e na Alemanha), em África (em Cabo Verde e em Angola) e na América (no Brasil) com as quais Portugal partilha uma relação forjada na emigração e na colonização. E até um cigano…

Esta escolha permitiria, de acordo com esta perspectiva, acrescentar um ‘capital’ de simpatia ao percurso da selecção portuguesa de futebol neste campeonato já que muitas das mais de duzentas e cinquenta milhões de pessoas que vivem na “Lusofonia” – e não só – sentiriam que aquela selecção, apesar de estrangeira, as representaria, de certo modo.

A actual selecção portuguesa de futebol seria, assim, uma espécie de extensão ao campo desportivo da componente étnica e identitária que, actualmente, se vive na sociedade portuguesa e, simultaneamente, uma certa imagem do lugar que Portugal pretende projectar no mundo: um lugar inclusivo e multicultural. De todos. Com todos.

Poderia até apetecer relembrar o lema dos primeiros Jogos da Lusofonia que, em 2006, tiveram lugar em Macau – «quatro continentes, uma língua, unidos pelo desporto» – e, embora modificando o número de continentes representados e o contexto em que, originalmente, serviu, ‘aplicá-lo’, hoje, à principal selecção portuguesa de futebol.

Ora, a minha visão não é assim tão ‘romântica’…

Efectivamente, se para uns quantos sortudos representantes de Portugal não existem quaisquer dificuldades burocráticas relacionadas, por exemplo, com o acesso à nacionalidade (e à cidadania) portuguesa – e a ‘tudo’ o resto, claro –, para muitos imigrantes (e respectivos descendentes) africanos ou brasileiros, por exemplo, essas dificuldades burocráticas têm sempre sido a norma.

13
Jun18

A 'civilização' europeia

Ricardo Jorge Pereira

Li, há dias, que todos os edifícios públicos no estado da Baviera, na Alemanha, teriam que passar a ostentar junto à respectiva porta de entrada (e de saída, claro) um crucifixo.

Ou seja, um símbolo cristão.

Ora, não demorei muito a lembrar-me da legenda atribuída ao beato San Andrés de Arroyo (do século XIII) – não confundir com o músico nascido na cidade espanhola de Oiartzun no século XIX José Francisco Arroyo – que tinha lido, há já alguns anos, na exposição O Gabinete das Maravilhas – Atlas e Códices dos Melhores Arquivos e Bibliotecas do Mundo patente nas instalações do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa: «é o mais europeu de todos os beatos».

O que é que se pretenderia dizer exactamente com estas palavras escritas já no século XXI?

Nunca consegui, no entanto, dar uma resposta à minha própria pergunta: o que significaria, desde logo, ser-se «mais europeu» (ou “menos europeu”, evidentemente)?

Mas uma ‘coisa’ consegui.

Perceber a existência de uma associação, por assim dizer, entre ser-se europeu e ser-se cristão.

O que significaria, claro, excluir-se de ser europeu aquele que fosse ‘seguidor’ das religiões muçulmana ou judaica, por exemplo.

Diga-se que tal nunca foi a opção ‘escolhida’ para a proposta de texto constitucional para a Europa delineada por Valéry Giscard d’Estaing já que não pressupunha uma espécie de supremacia do Cristianismo nos chamados pilares fundamentais da ‘civilização’ (ou história) europeia ‘esquecendo’, assim, os contributos da ‘civilização’ grega, das tribos nómadas que acabaram por integrar o Império Romano, dos mongóis (que dominaram, politicamente, a Rússia do século XIII ao XV) e de tantos outros.

Creio que, na verdade, a ‘base’ mental para a construção da aparentemente inocente frase «é o mais europeu de todos os beatos» está, se se quiser dizer assim, naquilo que o Professor Eduardo Lourenço já referiu ser a missão de uma parte da Europa (de que Portugal também faz parte): a sua missão era (e é…) ‘civilizar’ a Humanidade.

Mas, como escreveu Samuel P. Huntington no seu livro “O choque das civilizações” (“The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order”, no original), «O Ocidente ‘ganhou’ o mundo não pela superioridade dos seus ideais, valores ou religião mas sim pela sua utilização sistemática da violência . Os ocidentais esquecem, muito frequentemente, este facto mas os não-ocidentais nunca

o fazem»...

12
Jun18

Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa

Ricardo Jorge Pereira

«CLAUSTRO

 

Local aprazível, de meditação e recreio para os monges.

Projectado e iniciado por Diogo de Boitaca, continuado por João de Castilho a partir de 1517 e concluído por Diogo de Torralva entre 1540 e 1541.

Duplo piso abobadado e planta quadrangular de cantos cortados. Pelo seu valor e simbologia, é um dos momentos mais significativos do estilo Manuelino. Original conjugação de símbolos religiosos (instrumentos da Paixão de Cristo, entre outros), régios (cruz da Ordem Militar de Cristo, esfera armilar, escudos e emblemas régios) e naturalistas (cordas e motivos vegetalistas que coabitam com um imaginário, ainda medieval, de animais fantásticos).».

 

É ao Mosteiro dos Jerónimos que se referem tais frases.

De facto, o inicialmente designado Mosteiro da Ordem de São Jerónimo começou a ser edificado, em Belém, no início do século XVI depois da autorização papal concedida ao rei D. Manuel I.

Ocupando o espaço de uma antiga ermida, a construção do mosteiro prolongou-se pelos reinados seguintes (os de D. João III e de D. Sebastião, sobretudo).

Foi, por esta razão, que somente em 1522 se tenha procedido ao fecho da abóboda do cruzeiro: esta intervenção marcou, contudo, o fim das obras já que se assinalará em 2022 o meio milénio da existência do Mosteiro dos Jerónimos.

Recordo que o Mosteiro dos Jerónimos foi, juntamente com a Torre de Belém, incluído, em 1983, na lista de património da Humanidade pela UNESCO.

11
Jun18

Entropias gestoras

Ricardo Jorge Pereira

Já aqui escrevi muitas vezes sobre o turismo até porque cada vez estou mais convencido de que este é (e poderá continuar a ser) decisivo para o ‘desempenho’ da economia portuguesa…

Existem, no entanto, dois planos de análise sobre este «poderá continuar a ser»: um externo e outro interno.

Começo pelo externo.

É evidente que não depende das autoridades portuguesas a decisão de não se verificar uma crise económica e financeira no mundo ou a de um atentado terrorista em solo português.

E prossigo pelo nível interno: é certo que a enorme dependência da economia do país em relação ao fenómeno turístico já é, naturalmente, da responsabilidade das autoridades portuguesas e admito que tenho imensas dúvidas da ‘justeza’ dos elogios dados, há meses, pelo secretário-geral da Organização Mundial de Turismo, Zurab Pololikashvili, durante uma visita a Portugal.

Na verdade, parece-me muito mais grave o facto de que quem tem a responsabilidade de estabelecer as políticas referentes ao turismo e as próprias entidades patronais mais directamente a ele ligadas não consigam perceber os verdadeiros desafios que o sector vai ‘pedindo’ (e, com toda a certeza, pedirá’) do que o facto – como li há alguns dias – de os empregados de alguns subsectores do sector turístico (como os dos restaurantes, por exemplo) não possuírem as qualificações académicas e profissionais que se lhes poderiam – e deveriam?? – ser exigidas.

Por exemplo, o já por mim citado artigo “How cultural diferences cause dimensions of tourism satisfaction(assinado por Lindsay W. Turner, Yvette Reisinger e Lisa McQuilken em 2001 e publicado no Journal of travel & tourism marketing) assinalou que «um turista asiático poderá considerar a aparência física dos membros da equipa de um restaurante extremamente importante no momento de degustar uma refeição. Uma camisa suja ou ‘desalinhada’ poderá, até, ser entendida como uma falta de respeito.».

E, de forma que me parece ser muito importante, enfatizou: «os gestores ligados ao fenómeno turístico deveriam preocupar-se em medir o grau de satisfação do turista porque aquele irá determinar se este regressará.».

Mário Baptista, no seu Turismo – gestão estratégica (de 2003), observou que «as situações analisadas são elucidativas dos cuidados a ter nos destinos, sobretudo por parte dos profissionais do turismo, no relacionamento com turistas de diferentes nacionalidades e estatutos económicos, sociais e culturais, pois um mau juízo e/ou um atendimento inadequado poderão constituir o principio de um desagrado, ainda que não consciente e imediatamente assumido pelo turista. Conclui-se, portanto, que a percepção da matriz cultural do grupo social em que se enquadram os consumidores potenciais é indispensável, não só para identificar e conceber o conjunto de equipamentos, serviços e atracções que os satisfarão, como também para definir as mensagens promocionais que os sensibilizem e mobilizem.».

Da mesma maneira, Ángel Rico (em meados de 2013, o presidente do Instituto Hispano-Luso), numa declaração que consta do texto Como conquistar os turistas mais próximos e que foi publicado pela revista da Associação de Turismo de Lisboa em Abril de 2013, considerou que «para a indústria turística portuguesa é importante conhecer as exigências dos potenciais turistas. De forma subtil, há que saber oferecer aquilo que os turistas querem que se lhes ofereça, mas de maneira diferenciada – mais do que esperar que os turistas aceitem as propostas de cada empresa turística de forma individual, semelhantes a muitas outras. Para tal, devem adaptar-se as mensagens, os serviços, os equipamentos e os pacotes turísticos às exigências de um mercado seguro.».

 

 

***

 

 

Assinalei no passado sábado, dia 9 de Junho, um ano desde que comecei a escrever no blogue “uso externo”.

Creio ser uma excelente ocasião para fazer minhas as palavras proferidas pelo filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein: «Os limites da minha linguagem marcam os limites do meu mundo»...

08
Jun18

Azulejos?! Que interessa isso?

Ricardo Jorge Pereira

Referi-me, há dias, num comentário aqui deixado no blogue, aos azulejos.

De facto, a azulejaria é uma “tradição” que, em Portugal, remonta ao século XVI: Lisboa ainda é, na verdade, a cidade que, no mundo, mais conjuntos de azulejos alberga.

Parece que, no entanto, algumas “nuvens negras” se têm vindo a perfilar no horizonte desta antiquíssima – e, ao mesmo tempo, magnífica – forma de expressão estética e, enfim, cultural.

Nuvens negras” em forma de indiferença, por assim dizer: como pude ler na Agenda Cultural de Lisboa referente ao mês de Março deste ano, «segundo a Divisão de Salvaguarda do Património Cultural da CML (DSPC), o principal motivo de perda de património azulejar nas fachadas de Lisboa é mesmo o desinteresse por parte dos promotores ou donos de obras».

Mas não só: «os furtos são uma preocupação real com bastante eco na opinião pública mas estão longe de ser a maior ameaça, de entre todas as patologias que afetam o azulejo».

Mais um exemplo de desprezo pelo património.

Que pena.

07
Jun18

Tradição e revolução

Ricardo Jorge Pereira

Ainda ontem me apropriei de uma explicação do Professor José Hermano Saraiva.

Volto, ainda assim, a citar um homem que nasceu em 1919 (e que faleceu em 2013) e que, profissionalmente, foi jurista, ministro da Educação, historiador e apresentador de programas televisivos de divulgação cultural e patrimonial.

Foi, certamente, uma das pessoas que mais – e melhor – divulgou a cultura e o património, material e imaterial, em Portugal.

Obrigado por isso.

 

 

«De certo modo – claro, há muitas pessoas que são pela tradição, há muitas pessoas que são pela revolução – e, de um modo geral, a regra é esta: quem está bem é pela tradição, não quer que as coisas mudem, está bem, deixa-se estar; quem está mal, se sente, enfim, com dificuldades, mal instalado, com fome ou com sede de melhor justiça, pretende a revolução e, portanto, quer que as coisas mudem. Quer a mudança.».

06
Jun18

A preguiça de pensar

Ricardo Jorge Pereira

Mesmo conhecendo, pela Comunicação Social, a verborreia utilizada por alguns ‘líderes’ desportivos – e políticos – em Portugal (com o claro objectivo, antiquíssimo, de criar inimigos para fortalecer a sua posição e, assim, perpetuar-se no poder), não consegui identificar o autor de uma frase grafitada que li, há não muito tempo, num jardim em Barcelos: «Morte aos Mouros».

Obviamente que isso pouco ou nada interessa.

O que interessará, sim, é perceber a lógica – se alguma, claro – que poderá estar na base de tais palavras num país como Portugal.

Peço, por isso, auxílio às instrutivas e sábias explicações do Professor José Hermano Saraiva num programa televisivo por si apresentado (salvo erro, da série “A Alma e a Gente”):

 

«Como todos sabem, os árabes [eram sobretudo muçulmanos do Norte de África. Árabes vindos da zona do Próximo Oriente eram poucos] iniciam a sua invasão no ano 711 [da chamada era cristã]. Bom, vão rapidamente até ao Norte da Península [Ibérica] porque em 722 (portanto onze anos depois) já é a batalha de Covadonga – Covadonga é a primeira batalha entre cristãos e mouros para a Reconquista. Isso quer dizer que eles em dez anos chegaram de cá de baixo até lá cima. E depois os cristãos tentam reconquistar a Península. Mas não demoraram dez anos. Demoraram setecentos e setenta porque só acabaram a Reconquista com a conquista do Reino de Granada que foi em 1492. (…) Como é que os mouros demoram dez anos a ‘apanhar’ a terra toda e os cristãos demoram setecentos e setenta a recuperá-la? (…) Há uma fábula – a fábula do avarento e dos ladrões – o avarento levava um burro com as albardas pesadíssimas com todo o seu ouro, e nessa altura vinham lá os ladrões e o avarento disse ao burro: «foge, foge, que vêm lá os ladrões». E o burro perguntou: «mas vou fugir… o que é que eles me fazem?». «Opá, põem-te umas albardas…». «Assim como estas?». «Sim, como essas!». «Então tanto me faz. Albarda por albarda tanto me faz ser burro de um ladrão como burro de um avarento...».

Ora, é isso que acontece com a invasão árabe: quando os árabes chegam as populações não são livres. Não se pense isso. Estão sob o domínio pesadíssimo dos senhores visigóticos que são sustentados pelas populações (têm pesados tributos) – são os visigodos a origem da nobreza … –. Ora bem, os árabes são muito menos exigentes: cobram um tributo mais leve.

(…) Então e a religião? Eles passam assim do Cristianismo para o Islamismo? Não, não passam coisa nenhuma porque os invasores tinham inteligência de ser tolerantes: quem quisesse continuar cristão continuava cristão, a igreja continuava aberta, os sacerdotes continuavam a dizer missa. Era preciso, é claro, era pagar um impostozito...o que fazia com que as autoridades árabes até preferissem que a população continuasse cristã que era maneira de guardarem o imposto (de outra maneira não ganhavam nada). Bom, isso é que explica que as populações aceitaram como uma libertação a vinda dos árabes. E, depois, quando os senhores visigodos voltaram aceitaram isso – a Reconquista – como um regresso à opressão. E há inúmeras revoltas dos povos que os visigodos diziam que libertavam mas que, realmente, se revoltavam contra os seus senhores. (…) Contra os seus próprios senhores.

Bom, é isso que explica que, realmente, há regiões da Península onde a dominação árabe durou muito tempo – no Sul durou mais de sete séculos; no Norte durou poucas dezenas de anos ...».

 

Resta-me, depois de ter escutado esta brilhante explicação, dizer que desisti de ‘aplicar’ à frase que li no jardim (e, por extensão, a quem a escreveu, claro) uma outra frase (esta dita pelo poeta e escritor germânico Johann W. Goethe) – «Não há nada pior do que a estupidez agressiva» – em favor de uma outra proferida pelo próprio Professor José Hermano Saraiva: «preguiça do pensar».

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