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31
Ago17

"Desmoscovotização" e "deslisboatização"

Ricardo Jorge Pereira

O presidente do conselho de supervisão do Institute for Demography, Migration and Regional Development da Rússia, Yury Krupnov, defendeu, recentemente, a adopção de um conjunto de medidas para “aproximar” o seu país natal do que muitos dizem ser, desde há largos anos, o verdadeiro centro geopolítico do mundo: o Extremo Oriente.

Tais medidas (um total de onze) contemplavam, desde logo, a mudança territorial da capital russa – Moscovo – para uma ‘localização’ mais consentânea com o referido centro geopolítico.

Ou seja, (muito) mais para Leste do que aquela de hoje.

Na verdade, a Rússia ‘estende-se’ por mais de 17 milhões de quilómetros quadrados (o que faz do país o maior do mundo no que se refere à extensão territorial)1 e “congrega”, apenas, cerca de 142 milhões de habitantes.

Destes, mais ou menos 28 milhões (ou 20% do total) residem em Moscovo e nas zonas próximas.

De facto, creio que qualquer pessoa que olhe para um mapa da Rússia, localize Moscovo e reflicta nestes números não conseguirá deixar de notar a honestidade intelectual de tal proposta.

E ainda notará mais se juntar a essa concentração de pessoas a convergência de equipamentos servindo a política, a economia, a cultura, a saúde, a indústria, a…

Volto, por isso, a recorrer a Portugal.

Penso que a proposta de descentralização russa “assentaria como uma luva” a Portugal já que as “oportunidades” estão muito concentradas numa região do país: a da capital, Lisboa, e áreas próximas.

O país teria, estou certo, muito a ganhar e muito pouco a perder se, em vez de se desperdiçar mais tempo em discussões sobre as potenciais virtudes da chamada descentralização administrativa, se partissem – as elites políticas e todos os outros (a dita sociedade civil) que vivem em Portugal – para esse autêntico desígnio nacional.

 

1 Não incluindo a dimensão da plataforma continental portuguesa, relembro que o espaço ‘ocupado’ por Portugal é pouco superior a 92 mil quilómetros quadrados.

30
Ago17

Não culpem os turistas!

Ricardo Jorge Pereira

Tenho, nas últimas semanas, visto algumas reportagens e lido algumas peças jornalísticas sobre aquilo que se convencionou chamar “massificação do turismo” e sobre as suas influências – nefastas, disseram – sobre o modo de vida local (ou seja, dos sítios visitados).

Recordei-me, então, de alguns textos que, a este propósito, tinha lido no passado e que achei que valia a pena serem relembrados porque abordavam, directa ou indirectamente, a realidade portuguesa.

Começo, assim, por invocar um texto – “Learning from Barcelona” (escrito por Ricardo Carvalho) – que o suplemento Ípsilon do jornal Público publicou no fim de Junho de 2014.

Um texto que serviria, dizia o autor, «para pensar e aprender com Barcelona».

Realço, também, o pequeno artigo “Oferta turística aumenta sem precedentes na cidade [Lisboa]” publicado, no fim de Dezembro desse mesmo ano de 2014, pelo jornal Destak.

Este registou, de facto, que havia quem elogiasse e quem falasse «numa certa descaraterização».

Ora, o “Primeiro Grande Inquérito Sobre Sustentabilidade Em Portugal”, coordenado cientificamente pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e que teve Luísa Schmidt e Mónica Truninger como investigadoras responsáveis, foi apresentado no início de Setembro de 2016 e concluiu, por exemplo, que quase metade dos cidadãos portugueses considerava que o turismo deveria ser um dos sectores que mais investimento da parte das instâncias governamentais deveria recolher...

Concluo este post com a transcrição de uma parte de um artigo de opinião – “Tourism: growth is not the enemy; it’s how we manage it that counts.” – que escreveu Taleb Rifai, secretário-geral da Organização Mundial de Turismo, há poucas semanas:

«Têm, nos últimos tempos, sido divulgados diversos episódios com origem em todo o mundo dando conta de ‘turismofobia’ mostrando-nos imagens de cidadãos em protesto contra “as invasões turísticas” e o transtorno por elas ocasionado.

Enquanto actividade económica, o turismo é relativamente novo; tornou-se, no entanto, actualmente, num sector central para as sociedades e para o nosso modo de vida: o turismo é sinónimo, mundialmente, de 10% do Produto Interno Bruto [PIB], de 1 em cada 10 empregos e de 30% do volume negociado no capítulo dos serviços.

É, por isso, um factor essencial para o equilíbrio orçamental de muitos países e, claro, de muitas famílias.

Não esquecendo que o turismo nos pode ajudar a atingir ‘metas’ comuns, a Organização da Nações Unidas declarou o ano de 2017 como o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento, lembrando-nos que o crescimento origina responsabilidade.

Um sector turístico sustentável é um sector que promove a preservação do ambiente e a protecção do património cultural material e imaterial mas é, sobretudo, um sector que promove o envolvimento e o respeito das e pelas comunidades locais.

Gerir o crescente número de visitantes que acede a inúmeras regiões do nosso planeta é tarefa crucial não apenas para estes mas, também, para os autóctones.

Em países como Espanha ou França, a percentagem de turistas ‘domésticos’ é mais elevada do que a de turistas ‘internacionais’…

Mas, o crescimento não é o inimigo.

Crescer é o eterno desígnio da humanidade.

Assim, o crescimento turístico pode – e deve – levar à prosperidade económica, a empregos e a recursos suficientes para promover a protecção ambiental e a preservação cultural.

Ou seja, induzir o desenvolvimento das comunidades e o ‘progresso’ que, diga-se, nunca existiriam se o crescimento turístico também não existisse.

O crescimento do turismo tem, também, outros significados: ampliar os nossos horizontes, abrir as nossas mentes, melhorar o nosso bem-estar e, desse modo, tornar-nos melhores pessoas.

Enfim, tornar o mundo melhor.

No entanto, assegurar que o turismo é uma experiência enriquecedora para visitantes e ‘visitados’ exige criteriosas políticas de gestão do mesmo bem como o envolvimento dos vários parceiros do ‘diagrama turístico’: governos centrais, autarquias locais, empresas privadas, comunidades locais e os próprios turistas.

O sector turístico precisa, de facto, de se guiar por regras claras que, longe de impedirem o seu crescimento, lho permitam e lhe assegurem uma gestão sustentável.

Regras que impliquem a diversificação das actividades proporcionadas aos visitantes, que promovam a correcta introdução de ‘mecanismos’ políticos de gestão do número de visitantes dos locais, que concorram para a elaboração de políticas que reduzam a sazonalidade, que fomentem a criação de incentivos para que o sector privado possa investir em novos produtos e que impulsionem a elaboração de políticas que contribuam para a redução do consumo de energia e o consumo de água e ‘respondam’ a outras necessidades das comunidades.

Têm, efectivamente, nos últimos tempos, sido noticiadas várias situações de destinos turísticos em luta para encontrarem um ponto de equilíbrio entre o modo de vida local e a gestão do crescimento do número de turistas.

Em Veneza e em Barcelona, por exemplo.

Assim, se é verdade que as comunidades locais têm que ser consultadas e envolvidas no turismo, não o é menos que a ‘turismofobia’ resulta de uma falha na gestão do crescimento do número de turistas de uma forma saudável e sustentável.

As más práticas resultantes do trabalho ilegal de empresas turísticas, os ‘estragos’ ambientais ou o mau comportamento de um pequeno número de visitantes não representa uma ‘escassez’ de ética de todo o sector turístico.

Representa, sim, a falência da gestão do mesmo.

Todos os esforços desenvolvidos por empresas, governos, sociedades civis e viajantes de todo o mundo nas últimas décadas para tornar o sector do turismo mais responsável não podem, assim, ser deitados fora».

Ou seja, o crescimento do número de turistas não é o ‘inimigo’.

O importante é mesmo a forma como se gere (ou não…) esse crescimento.

29
Ago17

O terrorismo e o Estado policial

Ricardo Jorge Pereira

A edição online do jornal francês Le Figaro publicou, há dias, uma reportagem a que deu o título “Turquie: dans l’État policier d’ Erdogan, la surveillance est au coin de la rue”.

Disse-se, nela, o seguinte:

«A coberto da luta antiterrorista, a nova polícia de proximidade criada pela presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, aperta o controlo sobre a sociedade».

Será, no entanto, o controlo sobre a sociedade sob o pretexto do combate ao terrorismo um exclusivo turco?

28
Ago17

Um palco de recordes

Ricardo Jorge Pereira

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) foi criada em meados da década de 1990.

Congrega, actualmente, nove Estados-membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Tal significa, desde logo, que a CPLP é uma organização com uma ‘projecção’ global já que os seus membros de encontram geograficamente localizados em quatro continentes – América, África, Europa e Ásia.

Mas tem, também, um outro significado.

É que a CPLP acolhe, hoje, um país – a Guiné Equatorial – que tem, de forma ininterrupta, o mesmo líder político aos ‘comandos’ do país – Teodoro Obiang Nguema – desde 1979: o acto eleitoral que, no passado dia 23 de Agosto de 2017, marcou o afastamento de José Eduardo dos Santos da presidência de Angola (também após 38 anos de governo non stop) acabou por, apenas, consolidar o líder da Guiné Equatorial como o político africano há mais tempo no poder pois estava no “seu” posto há algumas semanas mais do que o seu homólogo angolano.

Não creio que esta ‘longevidade’ política, nada democrática, seja o ‘cartão de visita’ ideal para a CPLP...

25
Ago17

O fim dos BRICS?

Ricardo Jorge Pereira

2006.

Foi no ano de 2006 que foi criada a associação que agrupava as quatro maiores economias “emergentes” do mundo – os BRIC: Brasil, Rússia, Índia e China.

Tal associação adquiriu em 2010 a sua actual designação, BRICS, depois da África do Sul se lhe ter juntado1.

Constituído, pois, para aumentar a presença dos seus membros nos palcos da economia e da política mundial, é, para mim, fácil reconhecer que, embora cada um dos membros do grupo tenha vindo a enfrentar naturais dificuldades naquelas ‘áreas’, não existe, hoje, qualquer motivo que justifique a sua dissolução.

Nem mesmo o conflito fronteiriço entre Índia e China que, diplomaticamente, se tem vindo a fazer sentir desde há alguns meses.

Não consigo desvalorizar, porém, dois factos: um é a ‘penetração’ chinesa em África e o outro é a ‘penetração’ brasileira em África.

A China é um dos maiores parceiros comerciais do continente africano e, ao mesmo tempo, um dos que aí mais investe2.

Em infra-estruturas, sobretudo (portos, barragens e estradas, por exemplo).

E é importante não esquecer a dimensão militar dessa ‘ligação’ da China ao continente africano.

A China começou a utilizar, há algumas semanas, uma base militar no Djibouti – pequeno país localizado no chamado Corno de África 3 – para além de ser o membro do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas com o maior número de capacetes azuis no continente (cerca de 2000 ‘espalhados’ pela República Democrática do Congo, pela Libéria, pelo Mali, pelo Sudão e pelo Sudão do Sul).

Ou seja, como li já, África é, para a China, «um verdadeiro laboratório para as suas ambições internacionais».

Por seu lado, também o Brasil tem, por estes dias, uma grande presença em África.

Consultei, por isso, um artigo preparado por um académico brasileiro na área dos Estudos Estratégicos Internacionais.

Assim, uma parte «da estratégia de inserção internacional brasileira, desde 2000, é a ideia de estabelecer relações mais próximas com outros países em desenvolvimento, para, com isso, diversificar parcerias globais».

De facto, «dessa forma, as relações do Brasil com países africanos são essenciais para sua estratégia, porque vinculam princípios éticos e interesses nacionais».

Têm, pois, sido estabelecidos protocolos no âmbito académico e cultural (com Angola, em 2010), assinados acordos de parceria estratégica (com a África do Sul, em 2010) e celebrados acordos no âmbito militar (com a Nigéria, por exemplo).

Mas, então, como se ‘conjugariam’ as presenças, em África, de China e Brasil?

«Apesar de eu não ser um especialista em geopolítica, gostaria de lhe colocar uma questão: a China, por exemplo, tem vindo a construir, em todo o continente africano, um conjunto de infra-estruturas (por exemplo, portos, pontes, estradas e, até, uma base militar no Djibouti…). Assim, pergunto-lhe se a “invasão chinesa” (no bom sentido) não coloca (no presente) e não poderá colocar (no futuro) em causa a estratégia geopolítica brasileira no continente africano?», perguntei ao referido académico.

Eis a resposta que, simpaticamente, me concedeu:

«A pergunta é bastante instigante e daria pra escrever um artigo todo sobre ela. Em poucas palavras, acredito que atualmente a presença chinesa na África ainda não coloca a estratégia brasileira em risco. Pelo contrário, é possível que ela a reforce na medida em que a China também procura o fortalecimento dos Estados africanos. Entretanto, essa é minha leitura do cenário atual. No futuro, acredito que, sim, a China pode colocar em risco a estratégia brasileira, especialmente se Pequim vier a ocupar o papel que hoje é ocupado pelas antigas metrópoles coloniais».

Depois da 8.ª reunião dos BRICS – que teve lugar em Goa em Outubro de 2016 – e do 9.º encontro – a realizar, em Setembro de 2017, na cidade chinesa de Xiamen –, não sei quantas mais reuniões dos BRICS irão existir...

 

 

1 Os países que integram os BRICS representam, actualmente, cerca de 40% do total da população mundial.

2 A República Popular da China investiu em África, nos primeiros quatorze anos do século XXI, cerca de 220 mil milhões de dólares.

Entretanto, o jornal britânico dedicado à economia Financial Times, através do relatório “The Africa Investment Report 2017”, veio já dizer que o gigante asiático foi, em 2016, o ‘campeão’ do Investimento Directo Estrangeiro em África.

3 Se esta é a primeira base militar chinesa em solo estrangeiro, os Estados Unidos da América contam mais de seiscentos agrupamentos militares no estrangeiro e         a França cerca de uma dezena...


24
Ago17

Terrorismo: o eterno pesadelo

Ricardo Jorge Pereira

Já abordei aqui no blogue o ‘tema’ do terrorismo.

Volto, no entanto, a escrever sobre ele (e estou, de resto, convencido de que não será a última vez que o faço) porque é algo que não posso – não podemos… – ‘afastar’: é um fenómeno que veio para ficar, por assim dizer.

Nova Iorque, Bali, Moscovo, Madrid, Londres, Nova Deli, Jaipur, Casablanca, Bombaim, Marraquexe, Boston, Utøya, Nairobi, Paris, Bamako, Ouagadougou, Copenhaga, Tunes, Sousse, Cidade do Kuwait, Banguecoque, Sharm el-Sheikh, San Bernardino, Islamabad, Grand Bassam, Bruxelas, Lahore, Jacarta, Istambul, Orlando, Daca, Bagdad, Medina, Cabul, Nice, Würzburg, Munique, Ansbach, Quetta, Berlim, Quebeque, Charlottesville, Barcelona, Turku, Surgut, …

A lista de locais que foram ‘palco’ de ataques terroristas após o início do terceiro milénio depois do nascimento de Cristo parece não ter fim e lembra-nos, constantemente, que nada nem ninguém está completamente a salvo da violência de tais actos.

Ora, como escreveu o historiador Charles Townshend no seu livro O terrorismo, este «desorienta as pessoas. Fá-lo deliberadamente pois é esse um dos seus objectivos principais e é por essa razão que tem monopolizado a atenção do mundo neste início de século. A insegurança pode surgir de muitas maneiras mas nada como o terrorismo perturba tanto o sentimento humano de vulnerabilidade».

Foi, no entanto, a Revolução Francesa (que tinha como lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”) a espoleta do terrorismo: o Estado colocou-o ao seu serviço enquanto instrumento de carácter político.

A própria I Guerra Mundial teve início após um atentado que vitimou o herdeiro do trono do império Austro- Húngaro, Francisco Fernando, e a sua mulher.

Ainda no século XX, começaram a pontuar, em solo europeu, movimentos que, impelidos por convicções ideológicas e reivindicações políticas, perpetravam acções violentas com uma ambição local e/ou regional: as Brigate Rosse, em Itália; o Baader Meinhof, na Alemanha; a Euskadi ta Askatasuna (E. T. A.) em Espanha, o Irish Republican Army (I. R. A.) no Reino Unido, a Action Directe em França ou as FP-25 em Portugal, por exemplo.

O Prof. Miguel Monjardino salientou mesmo, num texto publicado pela revista do jornal Expresso em Abril de 2016, que «Um dos grandes feitos do Daesh [ou Estado Islâmico] foi ter criado uma desorientação tão grande nas sociedades europeias que ninguém parece ser capaz de explicar os acontecimentos».

Aproveitando, mais tarde, a ‘modernidade’ política ocasionada com a queda do muro de Berlim, a implosão da União Soviética e o fim da Guerra Fria e as possíveis alterações doutrinárias que tais eventos implicaram, o terrorismo transformou-se.

Como, de resto, explicou o já citado historiador Charles Townshend: o terrorismo «passou a ter um pendor internacional a partir da década de 70 [do século XX]. O desvio de aviões como o acto terrorista mais emblemático internacionalizou de imediato a questão».

Passaram, então, a ser visados, principalmente, civis como os seus alvos de eleição na sua ilegítima e sanguinária luta contra os Estados.

A al-Qaeda tomou, então, a dianteira dessa violência.

No entanto – e ainda ‘viva’ – a al-Qaeda viu, anos mais tarde, a instabilidade política, social e militar que se verificava na Síria (a partir de 2011) e no Iraque ajudar, uma vez mais, a criar os pilares de uma outra organização que se tornaria, também ela, tentacular e que parecia querer, novamente, desafiar e, ao mesmo tempo, erradicar os conceitos de liberdade e de humanidade da face da Terra: o autoproclamado Estado Islâmico (também designado por “Da’esh”, “EI”, “ISIS” ou “ISIL”).

A brutalidade dos ataques terroristas que tem vindo a inspirar ou a preparar e a reivindicar tem feito, por isso, virar cabeças em todo o mundo.

Insegurança e medo.

É, de facto, esta a definição de terrorismo proposta pelo Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa: gerar a insegurança e o medo.

E é, também, este esclarecimento conceptual o que melhor descreve os sentimentos desencadeados pelos ataques perpetrados pelo terrorismo no século XXI, quer pela abrangência global em termos geográficos, quer pela profunda intolerância (e ódio) pela existência e pelo modo de vida do Outro, quer, ainda, pelo uso indiscriminado das novas tecnologias e dos meios de comunicação social.

De facto, primeiro local e regional.

Depois, internacional.

Aviões sequestrados, ataques através de explosões, atropelamentos, facadas.

Qual o método seguinte?

Quem?

Quando?

Uma pista: em Setembro de 2014, o então porta-voz da organização Estado Islâmico expressou um desejo quanto à realização de ataques contra civis no ‘Ocidente’ (Europa e Estados Unidos da América, sobretudo): «Se não forem capazes de encontrar uma bomba ou uma bala, então esmaguem a sua cabeça com uma pedra, apunhalem-no com uma faca, atropelem-no com o vosso carro, atirem-no de uma falésia, estrangulem-no, envenenem-no (…) Se não forem capazes de o fazer, então queimem a sua casa, carro, loja. Ou destruam as suas colheitas. Se não puderem, então cuspam-lhe na cara».

23
Ago17

Um estudo credível?

Ricardo Jorge Pereira

Um dos mais conceituados centros de pesquisa norte-americanos, o Pew Research Center, divulgou, no início de Agosto de 2017, um estudo – Globally, People Point to ISIS and Climate Change as Leading Security Threats – que teve por base as respostas de 41 953 pessoas espalhadas por 38 países em todo o mundo (na América: Argentina, Brasil, Chile, Estados Unidos da América, Colômbia, Canadá, Venezuela, México e Peru; em África: Tunísia, Gana, Quénia, Tanzânia, África do Sul, Senegal e Nigéria; na Europa: França, Alemanha, Grécia, Hungria, Itália, Países Baixos, Polónia, Espanha, Suécia, Reino Unido, Rússia e Turquia; na Ásia: Japão, Filipinas, Israel, Líbano, Índia, Indonésia, Vietname, Coreia do Sul e Jordânia; na Oceânia: Austrália).

Concluiu-se, então, que «de entre oito possíveis ameaças à segurança dos países em que vivia, a maior parte dos habitantes do planeta ‘elegeu’ o Estado Islâmico e as alterações climáticas».

Concordo, de facto, com a justeza desta ‘eleição’.

No entanto, e embora não seja um especialista em estudos de opinião ou, se se quiser, em sondagens, tenho a minha própria opinião acerca da metodologia utilizada por este estudo.

Segundo as contas que fiz, os 38 países escolhidos contam cerca de 3 biliões, 828 milhões e 293 mil habitantes.

Ora, as 41 953 pessoas seleccionadas, pelos autores da pesquisa, para darem as suas respostas correspondem, em termos percentuais, a 0.001% do ‘valor’ populacional que apurei.

Considero, por isso, que não é possível fazer-se qualquer juízo sério a partir desta percentagem e, muito menos, extrapolar para uma parte da humanidade a opinião de alguns milhares de pessoas (não que não seja, evidentemente, passível de ser ‘escutada’) já que a margem de erro não é pequena...

22
Ago17

Contributos para um retrato de Portugal em 2017

Ricardo Jorge Pereira

O embaixador Marcello Duarte Mathias referiu-se, numa entrevista recente a um jornalista do jornal Diário de Notícias, a um dos grandes romances de José Maria Eça de Queiroz: “Os Maias”.

Afirmou, então, que bastava ler “Os Maias” para se perceber ‘o’ Portugal do século XIX podendo dispensar-se, assim, a consulta de quadros estatísticos ou a leitura de obras escritas por economistas ou por historiadores.

Concordo.

Projecto, no entanto, “Os Maias” - e outros escritos - para o presente (ou para o futuro já que foram todos escritos no século XIX…).

Por exemplo, Eça de Queiroz tinha já escrito em 1871, creio que n’ “As Farpas”, as seguintes reflexões:

«Estamos perdidos há muito tempo... O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes morais estão dissolvidos, as consciências em debandada. Os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-que por toda parte que o País está perdido!».

Tal como o fez, mais tarde (em 1896), Abílio de Guerra Junqueiro no poema “A Pátria”:

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira á falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, como da roda duma lotaria.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar».

Apesar de terem sido escritos há mais de um século, estes textos são, em minha opinião, ‘fornecedores’ de um retrato muito semelhante do que considero ser, hoje – em 2017, claro está – Portugal.

Um jardim violentado, maltratado e queimado à beira-mar plantado.

21
Ago17

Guerra civil americana II

Ricardo Jorge Pereira

O artigo “Will we have a 2nd Civil War? You tell me.” que a revista norte-americana Foreign Policy publicou, online, em Março de 2017 foi escrito tendo por base a questão «Quais serão as probabilidades de uma guerra civil eclodir neste país [Estados Unidos da América] nos próximos 10 a 15 anos?» e algumas das suas hipóteses de resposta.

O seu autor perguntou, assim, a um grupo constituído por pensadores da segurança nacional quais seriam as suas.

O consenso,escreveu, ‘andaria’ por volta dos 35%.

E solicitou, ainda, a colaboração dos leitores.

Ora, perguntando-me, desde logo, se uma das pessoas que ajudou a fundar a Foreign Policy – Samuel P. Huntington (autor, por exemplo, de O choque das civilizações) –, subscreveria as acusações, entretanto surgidas, do carácter pouco científico de tal inquérito, quero dizer que faz, para mim, todo o sentido que se coloque a hipótese de, em pleno século XXI, os Estados Unidos da América serem ‘palco’ de uma guerra civil.

Quando disse «faz todo o sentido» estava, também, a lembrar-me do que se passou no dia 12 de Agosto de 2017 em Charlottesville (estado da Virgínia): a violência que surgiu quando grupos apoiantes do racismo, da intolerância e do ódio (neonazis, skinheads e membros do grupo Ku Klux Klan) se manifestaram...

18
Ago17

Conformistas e não revolucionários

Ricardo Jorge Pereira

O novo jornal online Nature Human Behaviour publicou, há dias, um estudo levado a cabo por quatro investigadores em economia comportamental.

Ora, nas linhas introdutórias desse estudo – “Behavioural economics: Preserving rank as a social norm” – escreveu-se o seguinte: «os testes realizados permitem afirmar que as pessoas não gostam da desigualdade de rendimentos. Será que, no entanto, estão dispostas a alterar a hierarquia social estabelecida para eliminar essa mesma desigualdade? Uma ampla experiência de cariz multicultural permite mostrar que, desde jovens, a maior parte das pessoas recusa a alteração da ‘configuração’ social como forma de remover as diferenças entre ricos e pobres. Tal é, pois, uma norma social».

Ou seja, as pessoas – quaisquer que sejam a sua idade e o seu país de origem – recusam desencadear processos que possam levar a mudanças na hierarquia social.

Estou a lembrar-me, à medida que vou registando estas linhas, de uma frase proferida pelo almirante José Pinheiro de Azevedo em Novembro de 1975 no Terreiro do Paço, em Lisboa: «o povo é sereno».

Sem dúvida.

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