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29
Dez17

Tomal e mais além

Ricardo Jorge Pereira

Apesar de ter sido dado à estampa em meados de 2015, só agora li o livro “Política Externa Portuguesa” que Tiago Moreira de Sá escreveu e que a Fundação Francisco Manuel dos Santos publicou.

Escreveu o autor que, por exemplo, «É certo que a arquitectura essencial da política externa da democracia portuguesa está construída e é constante, tendo na base a balança entre os vectores continental e atlântico e, como eixos fundamentais, a integração europeia, a dupla aliança com os EUA [Estados Unidos da América] e as relações próximas com os países de língua oficial portuguesa [a Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa, CPLP]. Porém, a orientação estratégica externa de Portugal, que é definida sempre deste quadro, pode e tem de variar em função das alterações na distribuição de poder ao nível internacional ou regional.».

Efectivamente, continua, «A política externa portuguesa actual é simultaneamente o resultado do seu percurso histórico, com as tradições nele desenvolvidas, e dos esquemas de distribuição de poder que se sucedem nos contextos das suas áreas de inserção estratégica e no sistema internacional.».

Mas, avisa, «quaisquer alinhamentos extra-europeus, podendo ser vistos como mecanismos compensatórios, jamais se poderão constituir como verdadeiras alternativas à UE [União Europeia].».

Devo, desde já, sublinhar que não sou detentor de quaisquer competências académicas e/ou políticas que me poderiam, talvez, permitir encetar uma espécie de renovação conceptual e, pois, concreta dos ‘caminhos’ da política externa de Portugal.

O que não impede, evidentemente, que tenha uma opinião sobre esta matéria.

De facto, é por demais evidente que Portugal é um país europeu.

Basta olhar para um mapa.

Parece-me, pois, natural – e normal – que Portugal procure acompanhar, dentro das suas possibilidades (económicas, por exemplo), esforços que possam permitir, um dia, a sua plena ‘afirmação’ política, social, económica e cultural na Europa.

O que não me parece natural, nem normal, é que, por exemplo, se afirme, categoricamente, que Portugal pode (e deve) como que adaptar a sua política externa ao contexto internacional e se diga depois que «Portugal deve evitar concessões que o tornem mais dependente daquele que é o grande rival estratégico dos Estados Unidos, o líder da aliança crucial do país [a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN ou, no acrónimo em língua inglesa, NATO]» já que «As relações luso-americanas, altamente prioritárias pela importância que têm desde logo na garantia da sua segurança, devem definir os limites do relacionamento de Portugal com a China.».

Ou seja: pode, mas...

Ora, tenho vindo a ler, de há alguns anos a esta parte, que o centro de poder do mundo estava, cada vez mais, a ‘deslocar-se’ para Oriente.

Assim, do Atlântico para o Pacífico.

O centro de poder económico, diga-se, e, talvez, também, político.

Creio, de facto, que sempre que falamos da política externa portuguesa é fundamental não se esquecer que Portugal não é só o único país que, simultaneamente, integra o núcleo de três grandes blocos políticos, económicos e culturais (a Comunidade de Estados Ibero-Americanos, a CPLP e a UE).

Ele é, na verdade, o país que, há vários séculos atrás iniciou o que hoje chamamos globalização.

E que detém, ainda, o capital relacional, por assim dizer, adquirido em virtude da sua presença global mas que, no entanto, se tem quase sempre empenhado em desperdiçar.

O que penso ser uma atitude estratégica muito pouco estratégica uma vez que tem mantido o país enclausurado na Europa, demasiadamente obediente aos EUA e muito ‘fixado’ na CPLP1.

Quero concluir este pequeno texto citando, apenas, dois exemplos que me parecem ser perfeitos para ilustrar esta falta de investimento cultural.

O primeiro: Joaquim Magalhães de Castro escreveu no seu “Oriente Distante” (2012) o seguinte: «A lamentável realidade não deixava de ser duplamente perversa. Nós, portugueses, que estivemos na origem da fundação de uma das mais importantes cidades nipónicas, que contribuímos de múltiplas formas para a abertura do Japão ao mundo e, durante quase um século, fomos os interlocutores privilegiados com esse peculiar povo oriental, movimentando-nos por onde queríamos e quase sempre nas boas graças dos xóguns locais e do próprio imperador, corríamos (e corremos ainda) o risco de ficarmos perdidos no buraco negro do esquecimento.».

O segundo: disse (entre muitas outras coisas, claro) o embaixador da Coreia do Sul em Portugal, Chul Min Park, numa palestra de que já falei aqui no blogue, que a Coreia contava 5000 anos de história e que o primeiro europeu a pisar solo coreano o tinha feito em 15 de Junho de 1504 e era português (João Mendes, de seu nome). Explicou, igualmente, que a palavra “Tomal” significava fim da terra e que assentava como uma luva, pois, quer a Portugal, quer à Coreia. Terminou, porém, a sua alocução lamentando que a ‘atenção’ portuguesa actual se dirigisse, sobretudo, para o Brasil e para Angola…

 

 

 

 

1  Esta atitude pouco estratégica tem influenciado, claro, outras áreas para além da política externa. Recordo-me de há alguns anos (em meados de Dezembro de 2014, por sinal) o presidente do Turismo de Portugal João Cotrim de Figueiredo ter dito numa entrevista ao ainda existente jornal Diário Económico o seguinte: «se há mercados emissores que se podem posicionar, dentro e fora da Europa, como sendo importantes na emissão de turistas não será no momento em que estejam a tornar-se realidade que vamos começar a fazer os esforços. Temos de começar já com outro tipo de investimento, de objectivos de curto prazo, mas com a perspectiva de os tornar fortes contribuintes para fluxos turísticos para Portugal»

Esclareceu, no entanto, que «estamos atentos à situação económica europeia porque são os mercados que continuam a emitir mais de 80% dos turistas estrangeiros que nos visitam».

 

 

 

 

Post scriptum: bom ano de 2018!

28
Dez17

Arte na Quinta

Ricardo Jorge Pereira

Foi em meados do passado mês que li uma entrevista de Vhils (ou melhor, Alexandre Farto), «o artista português de arte urbana mais reconhecido lá fora».

Concordando que existe, actualmente, em Portugal, um mercado para a arte urbana, salientou que, no entanto, tal «não é sustentado apenas pelo mercado nacional. É um mercado que tem uma ligação muito forte com o mundo.».

Disse que, efectivamente, havia «muito interesse pela arte no espaço público.».

Lembrei-me, então, de ter assistido nas instalações do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), em Outubro deste mesmo ano, ao “2º Encontro do Grupo de Investigação Práticas e Políticas da Cultura do CRIA. Desafios do ‘turístico’ na atualidade”.

Uma das oradoras referiu que existia na Quinta do Mocho (em Sacavém, Loures) o maior museu de arte urbana do mundo.

Ou seja, um bairro que era uma espécie de galeria ao ar livre com obras de arte.

Alertou, porém, que era muito pouco visitado.

Mas, numa altura em que Portugal está na moda – expressão que já ouvi várias vezes e que se refere ao contexto turístico – e recebe a visita de milhões de pessoas, penso que seria interessante perceber por que razão (ou razões) os responsáveis pelo sector turístico no país têm divulgado tão pouco – ou nada… – do bairro.

Por, no fundo, não interessar mostrar um sítio que os turistas vissem como um exemplo concreto de uma política hipócrita e de guetos?

27
Dez17

Um país pobre, velho e abandonado

Ricardo Jorge Pereira

O ministro da Saúde do actual governo português – Adalberto Campos Fernandes – disse, há algumas semanas, que o «país [Portugal] está pobre, velho e, em muitas circunstâncias, abandonado e entregue a si próprio».

Estou certo que tais declarações chocaram algumas pessoas.

Mas menos, muito menos, do que os pobres, velhos, abandonados e, enfim, os que estão entregues a si próprios...

26
Dez17

A desflorestação

Ricardo Jorge Pereira

Segundo a agência da Organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura – a FAO –, desaparecem no mundo, todos os anos, cerca de 13 milhões de hectares de florestas (o equivalente à área ocupada por 40 campos de futebol a cada minuto que passa…).

As principais causas deste ‘desmatamento’ desenfreado são a agricultura intensiva1, a urbanização e o comércio de madeira.

São três as zonas consideradas preocupantes no que se refere à desflorestação: a ‘parte’ brasileira da floresta amazónica (recorde-se que a totalidade da área da Amazónia ascende a 500 milhões de hectares), a zona de Sudeste asiático e a da África Central.

Pelo que acaba por ser relativamente fácil identificar os “campeões” da desflorestação: o primeiro posto (destacadíssimo do segundo) é ocupado pelo Brasil, o segundo pela Indonésia (e sem esquecer a Malásia…), o terceiro pela Nigéria, o quarto pela Birmânia (ou Myanmar), o quinto pela Tanzânia e o sexto pertence ao Zimbabwe.

Ora, o ponto em comum para todas estas áreas onde ocorrem estes autênticos atentados (desde logo contra a fauna e a flora aí presentes) é o subdesenvolvimento.

São áreas em que a pobreza das ‘pessoas locais’ (os autóctones) é, muitas vezes, abjecta.

Pelo que são vulneráveis a um conjunto de movimentações políticas e económicas (a instalação de fábricas junto ao local onde vivem que trazem práticas nocivas para a saúde, por exemplo) e delas ficam, claro, dependentes e ‘reféns’.

Para além do mais, se a desflorestação continuar a este ritmo, as florestas tropicais desaparecerão da face da Terra dentro de 50/70 anos.

E, então, ricos e pobres sofrerão as consequências (mas é evidente que o leque de opções dos ricos será sempre maior…).

 

 

1 Recordo-me de ter lido não há muito tempo que os próprios habitantes de uma aldeia localizada na Indonésia (creio que na ilha de Bornéu) cortaram (ou, melhor, dizimaram) parte da floresta que rodeava a aldeia para terem espaço para plantar palmeiras de que se extrairia, depois, óleo de palma – essencial para a produção de, por exemplo, óleo para consumo doméstico e biocombustível. Destruiu-se, assim, o habitat de uma espécie animal em perigo de extinção: a dos orangotangos.

22
Dez17

«Portugal não é um país pequeno»

Ricardo Jorge Pereira

Não. O texto que agora escrevo não é uma espécie de apologia de uma frase criada pela máquina de propaganda do Estado Novo para justificar, dentro e fora do país, a sua política imperialista, colonialista e, enfim, fascista.

Ele é, isso sim, um meio para afirmar a minha plena convicção de que Portugal é muito mais do que os 92 mil quilómetros quadrados que compõem a sua dimensão territorial e, assim, prestar um louvor, naturalmente pequeno, ao Mar.

Efectivamente, vi e ouvi no início do passado mês de Agosto uma reportagem televisiva dando conta de que a Polícia Marítima ficaria, a partir desse momento, alojada em permanência na ilha Selvagem Grande.

Pertencente às «Ilhas Selvagens» (localizadas a cerca de 250 quilómetros da ilha da Madeira) e reserva natural desde 1971, a ilha Selvagem Grande passou a ser habitada por três elementos da Polícia Marítima e por dois vigilantes da Natureza.

Mas, o facto de o Estado português passar a estar “representado” em permanência numa ilha que integrava o território português poderia querer dizer que Portugal teria direito a ‘reclamar’ uma maior Zona Económica Exclusiva (ZEE) junto de instâncias internacionais para além de, naturalmente, afirmar (ou reafirmar) a soberania portuguesa sobre esse local?

Solicitei, por isso, a alguém da Autoridade Marítima Nacional que me explicasse: «Os espaços marítimos sob soberania e jurisdição nacional (mar territorial (MT), zona contígua (ZC), e zona económica exclusiva (ZEE)) estendem-se, nos termos definidos na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM) até ao limite máximo de 200 milhas marítimas [cerca de 370 quilómetros], contadas, na forma estabelecida na Convenção, desde as linhas de base ou linhas de base retas utilizadas para medir a largura do MT, não sendo possível aos Estados Costeiros requererem o prolongamento da extensão destes espaços. Em concreto, a extensão da plataforma continental (PC), que corresponde, morfologicamente, ao subsolo e leito marinhos, e que no caso português se estende até ao limite exterior da ZEE, pode, em determinadas circunstâncias (desde que cientifica e tecnicamente comprovadas, conforme impõe a CNUDM) ser objeto de extensão até às 350 milhas marítimas [cerca de 648 quilómetros]. Ora, é sabido que Portugal apresentou, há já uns anos, uma proposta formal às Nações Unidas no sentido de ser reconhecida a possibilidade do Estado Português ver aumentada a actual extensão da PC portuguesa, proposta esta que será apreciada pela comissão técnica internacional com competência na matéria.».

Ora, «O facto de Portugal pretender ver reconhecida internacionalmente a extensão da PC não tem que ver, directamente, com o facto do Estado Português ter decidido instituir uma presença permanente da Autoridade Marítima nas Ilhas Selvagens, através da criação de uma extensão da Capitania do Porto do Funchal e da presença de elementos do Comando Local da Polícia Marítima do Funchal, com vista a cumprir [e] a fazer cumprir as leis e regulamentos marítimos, mas, sobretudo, para fazer valer a soberania do Estado Português naqueles espaços nacionais através de uma acção visível em termos de vigilância, controlo e fiscalização, de modo a, designadamente, evitar a ocorrência de ilícitos. De facto, inserindo-se as Ilhas Selvagens, em termos de direito do mar, no conjunto do espaço marítimo nacional, foi considerado imprescindível e absolutamente necessário encontrar uma forma eficaz e adequada de assegurar o exercício da Autoridade Marítima naqueles espaços, evitando-se, desta forma, que continuasse a existir uma parcela integrante da jurisdição marítima nacional em que não houvesse uma forma permanente de fiscalização.».

Achei, no entanto, que seria, igualmente, apropriado requerer uma explicação por parte do gabinete da ministra do Mar: «O regime jurídico em que se baseia a proposta de expansão da plataforma continental é a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM). Essa convenção estabelece os limites dos espaços marítimos e define o regime aplicável às diferentes formações marítimas. Relativamente à sua pergunta, importa referir que o Art. 121º da CNUDM estabelece os regimes aplicáveis às ilhas. Este artigo, além de definir o que é uma ilha, refere que as ilhas geram em seu redor mar territorial, ZEE [Zona Económica Exclusiva] e plataforma continental. O mesmo não se aplica às rochas que apenas geram mar territorial. No caso concreto da pergunta que colocou, é precisamente por causa de este artigo que se torna necessário as Ilhas Desertas [Selvagens…] estarem permanentemente habitadas já que, a habitação permanente é uma das características que diferenciam as ilhas das rochas.»1.

De facto, Portugal apresentou em 2009 na Organização das Nações Unidas (ONU) uma proposta para alargamento da sua plataforma continental o que lhe permitiu, entretanto, posicionar-se como um dos maiores países do mundo com cerca de 1.7 milhões de quilómetros quadrados de superfície.

No entanto, a comissão sobre os limites da plataforma continental da referida ONU está já a analisar a extensão do território marítimo português para lá das 200 milhas náuticas: Portugal poderá, assim, “crescer” mais de 3 milhões de quilómetros quadrados.

Não me parece, todavia, que este crescimento do mar português, por assim dizer, seja, só por si, motivo para se celebrar: entristece-me, na verdade, pensar que o comum cidadão português encare o Mar como, apenas, algo que foi muito importante no passado.

No presente e, sobretudo, no futuro, nem tanto.

Estou a recordar-me de uma entrevista que a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, deu ao jornal Expresso: num certo momento a/o jornalista perguntou-lhe «E como olham agora os portugueses para o mar?».

A sua resposta: «Não valorizam nem querem nada do mar. Ai, que agora vamos alargar o porto: não pode ser porque fica com contentores. Agora, vamos apostar na aquacultura, mas não pode ser porque queremos sair de barco por ali e só atrapalha. Agora vamos fazer um corredor de separação de tráfego portuário [para transportar matérias mais sensíveis], como existe no mundo civilizado e como também já temos, mas vêm daí não sei quantas organizações não-governamentais criticar. Se vamos apostar em energias oceânicas e precisamos de ter uma plataforma no mar, lá se vem falar no impacto da mesma. Já para não falar das minerações. Existe uma relação de amor-ódio com o mar. As pessoas querem ter acesso à praia, mas não a querem limpar. É vergonhoso, a meio do verão, já serem mais as beatas, as latas e as garrafas do que conchas no areal. As pessoas gostam de ter o curso da Escola Náutica, mas passam metade da vida a querer arranjar um emprego em terra. Tem de se perceber porquê e combater essas razões.».

Ora, creio que a “solução” é mesmo essa: combater, por um lado, as razões do afastamento das pessoas do Mar e, por outro, as suas atitudes menos responsáveis para com ele (a poluição, por exemplo).

E esse combate tem, desde logo, que partir das instituições do Estado e das elites políticas, económicas, sociais, culturais e cientificas em Portugal.

Escreveu Tiago Pitta e Cunha, há alguns anos, no seu “Portugal e o Mar”: «O que é censurável nesta viragem física para a Europa é o voltar costas ao mar e deixar de ver nele uma clara vantagem. Em rigor, mais do que apenas censurável, é até bastante arrogante pensar-se que se pode ignorar a geografia e dispensá-la em troca de uma ideia [supostamente] superior de progresso como era à época (e assim permanece) a ideia da pertença política à Europa.».

De facto, como ouvi alguém dizer, há algum tempo, num colóquio organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian, «capacitar para proteger»: as referidas elites (com o Estado ‘à cabeça’) deverão, cada vez mais, capacitar as Organizações Não Governamentais e estas ‘ajudarão’, evidentemente, a Sociedade Civil.

Para que nós – os cidadãos portugueses – entendamos o Mar como gerador de empregos, de conhecimento e de cultura e não apenas como ‘algo’ que acompanha o território do país em cerca de 850 quilómetros de extensão e nos presenteia (e a outros, claro) com 590 quilómetros de praias...

Retomo, pois, a entrevista à ministra do Mar que referi anteriormente: «O que existe no fundo do mar não é só petróleo, nem minerais, ouro, cobre, cobalto, manganês. Parece que temos tudo isso e muito de tudo, principalmente minerais, mas em matéria de aproveitamento económico, o que nos interessa é a exploração de organismos vivos, genéticos, biológicos para a farmacêutica, para a biotecnologia azul. O nosso alvo são os medicamentos, a área da saúde e da cosmética. E para isso não é preciso abrir crateras. Também podemos potenciar as energias oceânicas.».

Fico à espera.

 

 

1 Por exemplo, a Zona Económica Exclusiva de França excede os 2.6 milhões de quilómetros quadrados fruto das muitas ilhas sob o seu controlo político e administrativo.

 

 

 

Post scriptum: Votos de um óptimo Natal!

 

 

21
Dez17

Poluição, poluição

Ricardo Jorge Pereira

Numa época em que nada parece existir se não houver imagens a comprová-lo, confesso que me impressionaram cenas documentando a poluição do ar em Teerão, em Madrid, em Nova Deli e em Skopje1.

Tal como impressionaram as imagens que vi na página da BBC na rede social Facebook no início de Novembro deste ano a propósito de um vídeo sobre um enorme “Mar de plástico” que se estendia por vários quilómetros nas Caraíbas e que tinha sido descoberto há pouquíssimo tempo2.

Estas não me deveriam ter causado assim tanto espanto porque sabia já que, desde 1950, o Homem tinha produzido cerca de 8.3 mil milhões de toneladas de plástico o que o tornava, de resto, o terceiro material mais fabricado de sempre atrás do cimento e do aço. E porque dessas 8.3 mil milhões de toneladas, mais ou menos 6.3 mil milhões (ou cerca de 75%) haviam sido, pura e simplesmente, deitadas ao Mar: segundo a organização ambientalista Greenpeace, são, todos os anos, no mundo, deitados ao Mar entre 8 e 12 milhões de toneladas de objectos de plástico.

No entanto, aquilo que me impressiona ainda mais do que esses números é, desde logo, a falta de respeito do Homem para com a Natureza e, claro, para consigo próprio: embora demore cerca de 10 a 20 anos – no caso dos sacos – a 450 anos – no caso das garrafas – a desaparecer por completo, o plástico vai, entretanto, decompor-se em pedaços cada vez mais pequenos até acabar por entrar na “cadeia alimentar” por via do pescado selvagem que come (que confunde, pois, esses pedaços de plástico com alimento), do sal com que condimenta os alimentos, da água que bebe, por exemplo.

Creio, no entanto, que ainda vamos a tempo, todos, de parar este tipo de comportamentos e de, assim, voltarmos a tornar a Terra um ‘sítio’ agradável.

Que a Política nos ajude...

 

 

1 Recordo-me de ter lido, há já alguns anos, que tinham sido identificadas 400 “cidades do cancro” na China: havia mesmo sido diagnosticada com cancro do pulmão uma criança de 8 anos de idade...

2 Por exemplo, o fotógrafo Justin Hofman foi o autor, recente, de uma fotografia tirada algures nas águas indonésias em que um cavalo-marinho segurava na cauda um cotonete.

20
Dez17

A nossa Coreia

Ricardo Jorge Pereira

Foi no passado mês de Outubro no Museu do Oriente, em Lisboa, que ouvi, pela primeira vez, falar da primazia do “nós” sobre o “eu” (e seus derivados como “nosso” ou “meu”, por exemplo) num país: a Coreia do Sul.

Numa palestra intitulada “A minha Coreia” que o embaixador do país em Portugal – Chul Min Park – apresentou.

«O nosso mundo», «o nosso país», «a nossa casa», «o/a nosso/a filho/a», «o nosso marido», «a nossa mulher»…

Lembrei-me, então, de me ter sido ‘sugerido’, na faculdade onde estudei, quando me preparava para escrever a tese de final de curso, a utilização da 1.ª pessoa do plural em vez da 1.ª pessoa do singular na construção frásica (verbal e não só).

Ou seja, uma ‘utilização’ académica e pontual.

Ora, tendo sido criado numa cultura ocidental, se se quiser chamar-lhe assim, em que o individualismo foi – e é – a referência primordial, é-me algo difícil compreender os fundamentos que levaram à “instalação” desse modo de ser e de estar que privilegia o igualitarismo e o sentido de comunidade (que passa, também, pela linguagem adoptada) .

Uma espécie de colectivismo cultural, pois.

Uma solução para contrariar essa incompreensão?

Tentar, primeiramente, “libertar-se” das barreiras impostas travando um diálogo com autores de outros tempos, de outros lugares e de outros domínios disciplinares.

 

 

 

 

Post scriptum: No entanto, o texto (ou melhor, o artigo) que o jornal South China Morning Post publicou, online, no dia 10 do corrente mês – “Is South Korea ready to take on racism? First, it must admit it exists” – revelou dois aspectos que me parecem essenciais para melhor se perceber esse colectivismo cultural: o primeiro foi o facto de a Coreia do Sul ser um dos países etnicamente mais homogéneos do mundo e o segundo o ‘resultado’ de um estudo levado a efeito em 2015 por um instituto sul-coreano que descobriu que 94.5% dos cidadãos estrangeiros residentes (suponho que residentes) em Seul tinha já sido “alvo” de algum tipo de descriminação (racial, por exemplo).

Creio que a cultura de um povo, como tudo na vida, pode ter o “reverso da medalha”, certo?

19
Dez17

A raça superior e o altruísmo

Ricardo Jorge Pereira

Escreveram Francesco Alberoni e Salvatore Veca em O Altruísmo e a Moral (primeiramente editado pela Bertrand Editora em 1988) que «Em nenhuma sociedade, até agora, foi elogiada a mentira, o abuso, a violência, a crueldade, a opressão dos débeis, a arrogância, a inveja, a avareza, a mesquinhez de alma e condenada a amizade, a generosidade, o altruísmo.».

Ora, um dos postulados que mais ‘sucesso’ obteve junto da sociedade alemã que Adolf Hitler e os seus lacaios governaram foi, precisamente, o da raça superior.

Talvez o maior sinal do Mal que o regime nacional socialista construiu foi o ter dito aos Alemães o que eles queriam ouvir: que eram “grandes”, importantes e, portanto, Senhores pertencentes à Raça Superior.

É claro que aqueles eram, pois então, mentirosos, violentos, arrogantes, mesquinhos, cruéis e não generosos e altruístas...

Creio que os milhões de vítimas dos nazis são disto o ‘melhor’ testemunho.

18
Dez17

A mediocracia

Ricardo Jorge Pereira

«O desporto de hoje já não se encontra verdadeiramente nos estádios, nem o dinheiro nos bancos, nem a religião nas igrejas. A política já não se faz no parlamento. E a justiça já não se encontra nos tribunais.

Toda esta confusão tem uma origem comum: a erupção de um novo poder que se insinua em todos os aspectos da nossa vida social. Este poder novo tem um nome: é o sistema mediático, um conjunto de fios de cobre, de computadores, de câmaras, de circuitos e de sondagens de opinião através dos quais a informação passa e volta a passar à velocidade da luz…

Os poderes já não estão onde a lei e o tempo os tinha[m] instalado. E assim forma-se uma nova arte de governar, de executar, de julgar, de gerir. E também de existir.».

 

François-Henri de Virieu, La Médiocratie (1990)

15
Dez17

O lugar do Outro

Ricardo Jorge Pereira

Uma professora universitária de Hong Kong, uma das duas regiões administrativas especiais da República Popular da China, escreveu recentemente um texto de opinião no seu blogue (guavanthropology.tw).

Uma amiga enviou-me – e muito lhe agradeço – a respectiva tradução do texto já que versava sobre a ‘temática’ da cultura do Outro e a sua implicação em algumas das suas metodologias e atitudes perante o trabalho.

Tendo por título «Preferências gastronómicas das empregadas domésticas de nacionalidade filipina em Hong Kong», a referida professora expressou no texto o quão era importante colocarmo-nos no lugar do Outro.

Subscrevo inteiramente.

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