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31
Jan18

A comunidade, a sociedade e nós (1.ª parte)

Ricardo Jorge Pereira

O que é, socialmente falando, uma comunidade?

E uma sociedade?

Remontam, efectivamente, ao sociólogo alemão Ferdinand Tönnies as primeiras discussões, em finais do século XIX, a propósito dos conceitos de comunidade e de sociedade.

Na realidade, e até então, a discussão sobre os problemas da industrialização e da urbanização reduzia-se, frequentemente, ao mero antagonismo polarizador de “campo” – “cidade” e de “agricultura” – “indústria” sendo, apenas, na obra de Tönnies que foi ‘ligado’ a estas categorias o par sociológico antagónico “comunidade” – “sociedade”.

De facto, na sua obra “Gemeinschaft und Gesellschaft” (“comunidade e associação”, na tradução literal do original alemão), datada de 1887 (que inspirou, de resto, diferentes modelos de análise sociológica e antropológica), Tönnies avançou com a identificação e análise de dois conceitos sobre a vivência de grupos sociais: a comunidade, em que os ‘laços’ e as relações entre os indivíduos se baseavam em sentimentos e atitudes frequentemente designados de primários (no sentido de uma maior proximidade afectiva e sentimental), de face a face ou de interdependência, e a sociedade que, por oposição, se caracterizava, segundo ele, por congregar um conjunto de indivíduos que, associados e interagindo, regra geral, de forma porventura não tão regular como no verificado nos postulados do conceito precedente, não tinham entre si outras relações cujos únicos laços de comunhão não se cingissem, por exemplo, a uma perspectiva laboral ou institucional (e, portanto, mais formal) fruto, pois, de uma divisão do trabalho mais complexa.

No entanto, Tönnies distinguiu ainda a comunidade de parentesco (fixada pelos laços de sangue e por uma vivência num meio social comum onde a cooperação se desenvolvia regularmente) da comunidade de vizinhança (frequentemente representada pelas relações de dependência e de cooperação que se estabeleciam no meio rural ou no âmbito do trabalho mas em que os indivíduos poderiam possuir um certo sentimento de integração social e de solidariedade) e da comunidade de cariz urbano.

Ora, verificou-se, desde esse momento, a dificuldade analítica e teórica de estabelecer uma relação necessária e obrigatória entre a cidade/sociedade e o campo/comunidade.

Sociedade e comunidade não eram, portanto, aplicáveis ou específicas, respectivamente, dos meios urbanos nem dos meios rurais.

Em ambos os contextos (aldeia e cidade) se poderiam verificar relações sociais tidas como características da sociedade e da comunidade embora, naturalmente, se pudessem verificar mais ou menos num dos meios fruto da diferenciação das estruturas que cada um deles pudesse, porventura, evidenciar.

Ainda assim, autores vários continuavam a referir que, por oposição à comunidade existente em meio rural, a sociedade poderia designar uma forma de vida social impessoal, correspondente à vida no aglomerado situado em ambiente urbano e industrial.

Poderia, de facto, na comunidade, o grupo ser entendido como a unidade máxima de referência para os indivíduos já que lhes poderia dar uma forte sensação de pertença e de coesão (ao nível dos valores partilhados, sobretudo) face a ‘investidas’ e agressões do exterior.

Todavia, essa mesma unanimidade ao nível da partilha e da afirmação dos valores comuns poderia, por exemplo, não permitir ao grupo uma fácil resolução de conflitos no seu interior. Neste sentido, poderia falar-se da existência de uma comunidade no caso do conjunto dos habitantes de uma aldeia ou até no caso de fiéis de uma qualquer confissão religiosa.

(continua)

30
Jan18

Marco da Redonda. Sécs. XIII-XIV

Ricardo Jorge Pereira

«Vila Real recebe um primeiro foral, atribuído por D. Afonso III, em 1272. Uma vez que não produziu os efeitos desejados – constituir uma povoação nova, capaz de assegurar o domínio sobre a Terra de Panóias – D. Dinis atribuiu-lhe um novo foral em 1289, logo seguido por outro, em 1293.

É nestes forais que se determina que os privilégios da vila dionisina se estendam aos arrabaldes (nomeadamente a Montezelos, Timpeira, Vila Nova, Vila Seca, Parada de Cunhos e Vilalva), vulgarmente conhecidos como A Redonda.

O couto de Vila Real era, então, assinalado por um conjunto de marcos graníticos, que ficaram conhecidos como os Marcos da Redonda, alguns dos quais se mantiveram in situ até ao séc. XVIII. Actualmente conhecem-se apenas dois exemplares que se encontram no Museu da Vila Velha.».

29
Jan18

Holocaustos e telhados de vidro

Ricardo Jorge Pereira

Assinalaram-se no passado sábado 73 anos da libertação do campo de concentração e extermínio de Auschwitz (o tal que tinha inscrita no portão de acesso a ‘divisa’ cínica Arbeit Macht Freio trabalho liberta»].

Optou-se, por isso, há alguns anos, de o passar a recordar como o Dia Internacional da Memória do Holocausto.

Recorde-se que ao assassinato metódico de milhões de judeus (sobretudo judeus mas não só) europeus pelos adeptos do nacional-socialismo alemão optou por atribuir-se o nome de Holocausto – ou de Shoah.

De facto, este mecanismo de extermínio ‘serviu-se’, em grande medida, do caos provocado pela Segunda Guerra mundial o que, aliás, provaria, mais tarde, que tudo foi executado com extremo pormenor e calculismo: não foi, certamente, por acaso que o historiador britânico Nicholas Stargardt disse já que «desde 1942 que a Shoah era conhecida dos Alemães».

Isto é, da esmagadora maioria do povo germânico.

Efectivamente, uma das coisas que sempre me impressionou nesta barbárie tem a ver com a dicotomia executantes-executados: como é que pessoas que participavam, activa ou passivamente, nessas atrocidades conseguiam, depois, no seu íntimo, ir à igreja e dialogar com Deus, cuidar do seu jardim ou tomar parte em actos familiares e sociais.

Outra das coisas que me tem vindo a causar ‘impressão’ é a atitude de alguns judeus para com os seus vizinhos árabes na Palestina: se reconheço que o Holocausto foi sempre – e sempre será – uma espécie de salvo-conduto para reivindicações internacionais com repercussão interna, evidentemente – “Nós somos os herdeiros dos Judeus que sofreram o Holocausto e, por isso, temos todo o direito a ...” – também reconheço que nem sempre (quase nunca?) a máxima “não faças aos outros o mesmo que não gostarias que te fizessem” tem sido adoptada.

Gostaria, igualmente, de dedicar algumas linhas – poucas, infelizmente – a Holodomor, o quase desconhecido holocausto dos ucranianos que teve lugar há 85 anos.

Foi, assim, em 1932.

A Ucrânia integrava a União Soviética onde era Josef Stalin quem mais ordenava.

Ora, perante uma ordem de colectivização, muitos camponeses ucranianos recusaram integrar as respectivas cooperativas agrícolas (os chamados “kolkhozes”) e entregar as suas colheitas.

O resultado?

O confisco da produção de muitos agricultores e, logo, a fome e a doença e milhões de mortos.

Nem só os nazis foram carrascos, portanto…

Numa época em que em muitos governos europeus pululam ideologias baseadas no ódio, na intolerância e na xenofobia parece-me que é premente não se esquecer isso.

26
Jan18

Personalidades adiadas

Ricardo Jorge Pereira

Segundo um estudo recentemente publicado na revista The Lancet Child & Adolescent Health, a adolescência vai passar a estender-se até aos 24 anos de idade e já não até aos 18 ou 19.

Independentemente das justificações de índole biológica ou, até, sociológica que suportem esta mudança, aceito mas não concordo.

Acho que é incontestável que o ciclo da vida humana é, por estes dias, muito diferente do que era há 200, 100, 50 ou mesmo 30 anos.

Convencionou-se, por isso, o estabelecimento de algumas regras institucionais: é-se ‘jovem’ até aos 35 anos de idade e ‘idoso’ (ou ‘sénior’) com 65 e mais anos.

Ora, se se é jovem até aos 35 anos não me surpreende nada que se possa ser adolescente até aos 25 anos…

Mas não estou de acordo com esta alteração porque me parece que ela tem subjacente uma infantilização da personalidade de cada ‘jovem’.

Trata-se, no fundo, da promoção de uma menorização de um segmento importante de todas as sociedades do mundo e, em certa medida, da retirada de responsabilidade perante essas mesmas sociedades.

Ao contrário, deveriam poder ser responsabilizados pelas suas escolhas e pelos seus erros enquanto seus membros de pleno direito.

Gostaria, todavia, de perceber melhor as ‘reais dimensões’ (ou melhor, as implicações) de tal mudança na interacção entre os referidos jovens adolescentes e os Estados no que se refere, por exemplo, ao sistema penal e judicial em questão.

É certo que o envelhecimento de muitas sociedades humanas é um fenómeno que veio para ficar mas não me parece que este adiamento etário – e emocional – seja a medida certa para o combater.

25
Jan18

Turismo: alguns números

Ricardo Jorge Pereira

Ainda no post de ontem falei de Macau e também já aqui abordei, várias vezes, o fenómeno turístico.

Volto, todavia, a fazê-lo.

Visitaram, em 2017, o pequeno território chinês de trinta quilómetros quadrados de dimensão mais de 30 milhões de pessoas.

Muitas das quais naturais do continente chinês, claro, e atraídas pelo jogo.

De origem portuguesa foram, diga-se, pouco mais de 16 mil pessoas...

De facto, o ano que passou foi também um dos melhores para as infra-estruturas turísticas e para os cofres portugueses, públicos e privados: visitaram o país cerca de 20 milhões de pessoas (nacionais e estrangeiras, naturalmente).

As contas, pois, são fáceis de fazer: 30 milhões de visitantes para 30 quilómetros quadrados e 20 milhões de visitantes para 92 mil quilómetros quadrados (continente e ilhas).

Ora, o secretário-geral da Organização Mundial de Turismo, Zurab Pololikashvili, louvou, durante uma visita a Portugal no início desta semana, as autoridades do país por focarem a sua estratégia para o turismo nos residentes e frisou que os bons resultados no sector eram uma consequência de políticas muito criteriosas.

A sério?

24
Jan18

Democracia

Ricardo Jorge Pereira

O professor emérito e activista político norte-americano Noam Chomsky escreveu no prefácio da obra “Pensar a Democracia” o seguinte: «O tema da Democracia tem um amplo escopo. Se prestarmos atenção, encontraremos influências dos processos democráticos em quase todas as nossas escolhas e decisões.».

Ora, o último relatório divulgado pela também norte-americana Freedom House revelou que, em 2017, a democracia (e as suas características fundamentais – actos eleitorais livres e justos, os direitos das chamadas minorias [sexuais, culturais ou étnicas, por exemplo], a liberdade de imprensa e a primazia da Lei) estava em retrocesso em muitas zonas do mundo. Pelo 12.º ano consecutivo, acrescentou.

Curiosamente, a China e a Rússia (que foram recentemente designados como países inimigos pelas instâncias governamentais norte-americanas) foram ‘catalogados’ como áreas «não livres».

Não tenho, efectivamente, grandes dúvidas de que existe, nesses países, um controlo, mais ou menos apertado, no que se refere ao conteúdo informativo veiculado por alguns media.

Vi e ouvi, no entanto, uma intervenção realizada à poucos dias pelo presidente da Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau – José Carlos Matias – no Clube de Correspondentes Estrangeiros de Hong Kong.

Na verdade, o território também administrado pelas autoridades portuguesas até 20 de Dezembro de 1999 detém o ‘título’ de zona com a mais elevada concentração de órgãos de informação de todo o mundo: 18 jornais diários (publicados na língua chinesa, em português e em inglês) a que se juntam 19 jornais com uma tiragem semanal, 2 estações de televisão e várias estações de rádio que ‘servem’ uma população de cerca de 648 mil pessoas.

Que, reconheceu o dirigente, fornecem «notícias independentes» vindas de «fontes credíveis» (os jornais publicados em língua portuguesa e em inglês, claro).

Ainda assim, haver tal diversidade de órgãos informativos e opiniões numa pequena fracção de uma área «não livre» é, simplesmente, extraordinário…

23
Jan18

A pobreza no mundo: o copo meio cheio e o copo meio vazio

Ricardo Jorge Pereira

No artigo de opinião que assinou na edição online do jornal norte-americano The New York Times no início deste mês de Janeiro – “Why 2017 Was the Best Year in Human History” –, Nicholas Kristof sublinhou que «De acordo com dados plasmados no sítio Our World in Data pelo economista da universidade de Oxford Max Roser, são 217 mil as pessoas que, todos os dias, deixam de viver em situação de pobreza extrema (ou seja, com cerca de $2 diários). E todos os dias 325 mil pessoas conseguem aceder a electricidade e 300 mil a água potável».

Creio, efectivamente, que pode, como quase sempre na vida, ‘olhar-se’ para uma situação privilegiando-se uma de duas formas: a do “copo meio cheio” e a do “copo meio vazio”, se se quiser dizer assim.

Ora, as citadas palavras são, no meu entendimento, uma forma de ‘olhar-se’ para um fenómeno – o da pobreza (extrema) – adoptando a perspectiva do “copo meio cheio”.

Opto, por isso, por dizer algumas coisas acerca desse fenómeno a partir de uma ‘visão’ de “copo meio vazio”.

De facto, algumas estimativas têm vindo a apontar para que sejam cerca de 610 milhões de pessoas – seis em cada dez – aquelas que, apenas considerando as que residem em países africanos localizados a sul do deserto do Sara (e são quase meia centena), vivam sem acesso a electricidade.

E um relatório ontem divulgado pela organização Oxfam (organização de que, aliás, já aqui falei no blogue) alertou para o crescente aumento do ‘fosso’ de rendimentos entre ricos e pobres e o ritmo a que essa desigualdade se desenvolve: 42 pessoas no mundo dispõem de tanta riqueza como os 3.7 biliões de pessoas que compõem a metade mais pobre da população mundial e cada novo dia vê nascer, por assim dizer, um bilionário (dados que se podem ler, de resto, no artigo “Inequality gap widens as 42 people hold same wealth as 3.7bn poorest” que o jornal britânico The Guardian ontem publicou online, na véspera da reunião anual do Fórum Económico Mundial que se realiza em Davos, na Suíça)...

22
Jan18

As bibliotecas públicas

Ricardo Jorge Pereira

Numa publicação que, há dias, coloquei aqui no blogue abordei as bibliotecas públicas e a sua importância no estímulo ao diálogo até porque sabemos que, por exemplo, o parque escolar da Amadora, no distrito de Lisboa, tem registados alunos de mais de cem nacionalidades diferentes e vivem mais de quatrocentos mil imigrantes legais em Portugal...

Volto a fazê-lo embora, naturalmente, as ‘olhe’ por um outro prisma de análise, se se quiser dizer assim.

É, de facto, possível traçar uma espécie de linha genealógica das bibliotecas públicas que hoje todos conhecemos directamente ao espírito reformador do Marquês de Pombal.

Assim, a primeira biblioteca pública surgiu em 1796.

E, quase trinta anos depois, em 1822, havia em Portugal três bibliotecas públicas: a Real Biblioteca Pública da Corte (em Lisboa), a Biblioteca da Universidade de Coimbra e a Biblioteca de Évora.

Contendo cada uma delas milhares de volumes.

No final desse mesmo século XIX eram já doze as bibliotecas públicas contabilizadas no território português (continental e insular).

O regime republicano implantado alguns anos depois confirmou e incrementou o papel desempenhado pelas bibliotecas públicas enquanto instituições essenciais para o combate ao analfabetismo através da promoção da instrução e da democratização no acesso ao conhecimento dos cidadãos.

No entanto, a instabilidade social, económica e política registadas durante a vigência da I.ª república portuguesa inviabilizaram vontades e projectos para potenciar a afirmação daquele papel institucional das bibliotecas e, por isso, aquando do início da governação do Estado Novo, o número de bibliotecas públicas e os espólios documentais por elas detidos eram reduzidos.

Ora, existiam em Portugal, no final da década de 1950, cerca de noventa bibliotecas municipais sendo que grande parte delas funcionava em pequenas salas dos edifícios das respectivas Câmaras Municipais.

Todavia, se os fundos documentais continuavam a ser reduzidos também a afluência de público o era pois não excedia os cerca de 10% de toda a população portuguesa.

Foi para tentar inverter esta fraca frequência e, pois, contribuir para o aumento das taxas de leitura pública que, no âmbito da Fundação Calouste Gulbenkian, foram lançadas iniciativas – as «bibliotecas itinerantes» – que, através do empréstimo de documentos (livros, essencialmente), pretendiam, pois, colmatar a ausência ou pouca disponibilidade de instituições de cariz cultural (bibliotecas públicas, sobretudo) não somente em áreas rurais mas também predominantemente urbanas.

Mais tarde, a instauração da democracia em Portugal com o 25 de Abril de 1974 não trouxe, de forma imediata, uma alteração substancial da realidade das bibliotecas públicas: de facto, como explicaram Carlos Fortuna e Fernando Fontes no seu “Bibliotecas Públicas, Utilizadores e Comunidades: O Caso da Biblioteca Municipal António Botto”, de 2000, «Com o 25 de Abril de 1974 e a instauração de um regime político democrático em Portugal, o panorama traçado das bibliotecas demorou a reformular-se. Na verdade, da mesma forma que a cultura esteve longe de ser um domínio prioritário no início deste processo político e social de democratização do país, também e correlativamente, as bibliotecas permaneceram distantes das agendas políticas e de governação».

Foi apenas em 1987 que se institucionalizou a Rede Nacional de Bibliotecas Públicas assumindo o Estado, pois, que aquelas se constituíam como potenciadoras, ao nível local, da divulgação da informação e do desenvolvimento da literacia.

Ou seja, até 1987, as nossas raras bibliotecas designadas como públicas eram instituições centenárias, algumas com colecções de grande raridade e valor histórico, provenientes de instituições religiosas ou conventos extintos, mas que não correspondiam aos interesses e necessidades de leitura e informação do público em geral, tal como há muito eram conhecidas nos países desenvolvidos.

Pode, assim, ler-se no sítio da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas: «A Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, criada em 1987 e que assinalou no ano passado 30 anos de existência, integra atualmente 220 Municípios que cobrem globalmente todo o território, incluindo Portugal Continental, Açores e Madeira».

19
Jan18

Os portugueses de Malaca

Ricardo Jorge Pereira

Recordo-me de, há alguns anos, ter visto, na plataforma YouTube, um determinado episódio (não me lembro de qual) de um documentário que havia já passado num canal televisivo do Brasil.

Além Marera o seu ‘nome’.

Nesse episódio que vi, uma das pessoas – o escritor e jornalista português Miguel Sousa Tavares –, fez a seguinte declaração: «Nós devemos perguntar por que é que povos – alguns deles na Ásia, em Malaca e tudo – que já não vêem portugueses há 300 ou há 400 anos (…), guardaram uma imagem tão forte e ainda estão apegados a algumas coisas que têm que ver com o mundo português»

De facto, Malaca localiza-se na região do sudeste da Ásia e faz parte de um país, a Malásia.

Quando, em 1511, o comandante português Afonso de Albuquerque e os seus homens conquistaram «a opulenta Malaca» (como a apelidaria, mais tarde, Luís Vaz de Camões) estavam, muito provavelmente, bem longe de imaginar que, passados quinhentos anos, ainda ali pudessem viver pessoas que tinham orgulho no nome de Portugal e honrassem, sempre que lhes era possível, os seus antepassados portugueses e as suas tradições, os seus costumes religiosos e a sua língua porque não queriam que, simplesmente, desaparecessem na chamada espuma dos dias.

Ora, os portugueses que primeiro se fixaram em Malaca eram, naturalmente, em pequeno número e iam servir na fortaleza entretanto mandada construir por Afonso de Albuquerque e na armada portuguesa durante um determinado período de tempo findo o qual partiam para outra qualquer parte do então império português.

Todavia, ao longo do século XVI, pouco a pouco, alguns daqueles foram-se fixando em Malaca após casarem com senhoras locais (depois de convertidas ao cristianismo...).

Eis as origens dos luso-descendentes de Malaca.

Mas, logo em 1641, cerca de cento e trinta anos após terem entrado em Malaca como conquistadores, os portugueses foram expulsos pelos holandeses.

A ocupação holandesa foi severa para com os vestígios da presença portuguesa: as igrejas foram destruídas ou transformadas em dependências militares, a velha torre de menagem (a fortaleza já referida), actualmente apelidada de «A Famosa», foi transformada em armazém e o culto católico foi proibido.

Impuseram-se, desse modo, sérias restrições à identidade dessas pessoas.

É, no entanto, importante recordar que os holandeses decidiram também fazer de Batávia (a actual Jacarta, capital da Indonésia) o ‘centro’ da sua vasta rede comercial na região do sudeste asiático deixando, assim, para Malaca o papel de protecção à navegação no estreito com o mesmo nome.

Votados, por isso, a um certo desprezo social, os descendentes dos portugueses não desistiram, porém, da tarefa de preservar a sua cultura e, enfim, a sua identidade.

Compreenderam que a sua luta só poderia ser bem sucedida se fundissem a sua cultura com outras culturas autóctones (incorporando alguns elementos, por exemplo) e contribuíssem, desse modo, para um enriquecimento da sua própria identidade.

No entanto, em 1795, na Europa, as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram a Holanda e a Inglaterra, receosa de que os franceses se apropriassem de possessões holandesas na Ásia – entre as quais Malaca e Batávia –, assumiram, eles próprios, o controlo directo de várias dessas terras.

Entretanto, terminadas as chamadas guerras napoleónicas, os holandeses regressaram a Batávia em 1816 e a Malaca em 1818.

Ainda assim, poucos anos após o seu regresso, em 1824, a Holanda e a Inglaterra firmaram um tratado essencialmente destinado a evitar a expansão de outras potências europeias – a França, particularmente – na região do sudeste da Ásia.

Uma das consequências imediatas desse tratado foi a retirada definitiva dos holandeses de Malaca. Terminou assim, na vida de Malaca, mais um ciclo.

Deste modo, como sempre na vida, logo outro se iniciou.

Importa dizer, em relação aos luso-descendentes – os portugueses de Malaca – que a administração inglesa também os não favoreceu em relação a outros povos da península malaia.

Circulava, de resto, entre as gentes cristãs, por exemplo, a firme convicção de que só se se falasse a língua inglesa se teria alguma hipótese de “entrar” no mundo anglo-malaio da administração colonial.

Na verdade, a língua portuguesa não foi oficialmente ensinada desde o fim da ocupação portuguesa de Malaca. O papiá cristang (como é também conhecido este crioulo, uma mistura de português e de malaio) foi apreendido pelas crianças através dos seus pais que, por sua vez, o passaram aos filhos e assim sucessivamente: o político e autor malaio Bernard Santa Maria – ele próprio um luso-descendente – ilustrou bem, numa frase apenas, a intolerância com que os católicos portugueses de Malaca foram tratados, quer pelos holandeses, quer pelos ingleses: «Não fomos às escolas holandesas porque eram calvinistas, nem às inglesas porque eram metodistas, e por isso não tivemos educação até hoje».

Foi, no entanto, durante a administração inglesa que foi construído o bairro português em Malaca: foi, de facto, por volta de 1930 que os padres católicos da cidade convenceram as autoridades a edificar, nos arredores da cidade, junto ao mar, um espaço e respectivas infra-estruturas que pudessem congregar uma etnia um tanto ou quanto dispersa pela península malaia facilitando, assim, a preservação da cultura e, até, a integridade étnica dos luso-descendentes.

E foi só a partir da década de 1950 que, com o apoio dos padres católicos da missão portuguesa, foram criados alguns grupos folclóricos (como o “the portuguese culture group”) com canções e com danças próprias ao estilo do verificado em Portugal (ou seja, ‘copiadas’) e incentivadas outras tradições (essas sim, locais e muito antigas) como as “mata-cantiga” (cantigas ao desafio).

Como tem, também, vindo a acontecer em muitas outras partes do mundo, tais tradições têm merecido cada vez mais atenção por parte das autoridades locais devido ao papel desempenhado no turismo local.

Por exemplo, o jornalista português Joaquim Vieira, numa peça escrita, há já alguns anos, sobre o bairro e as suas gentes, escreveu: «sendo o turismo uma das prioridades e Malaca a principal atracção turística da Malásia, os portugueses [de Malaca, claro está] – uma espécie em vias de extinção – transformaram-se numa atracção de jardim zoológico. O governo construiu no bairro português uma “praça portuguesa” com “restaurantes portugueses” anunciando “comida portuguesa” e onde se realizam espectáculos de “folclore português”. O local é ponto de passagem obrigatória dos visitantes que passam por Malaca, embora a probabilidade de haver alguma coisa de português em tudo isto seja tão grande como a de encontrar um esquimó no Equador».

Em 1984, o papiá cristang foi declarado, pela própria UNESCO, como estando em risco de extinção. João Pedro de Campos Guimarães e José Maria Cabral Ferreira escreveram (por sinal, no seu livro Bairro Português de Malaca) o seguinte: «Uma língua contém e define um modo de ser e de ver o mundo. Enquanto dura, um certo tipo de personalidade existe: com o seu desaparecimento é um certo homem que morre. A língua tem relação intrínseca com todos os elementos que integram e dão rosto a uma cultura; ela é um dos pilares sobre que assenta a pertença de um grupo: se falo tal língua, encontro-me com os que a falam, distingo-me e distancio-me dos que não falam».

Assim, não terá sido grande a surpresa o facto de que, por volta de 2003, nenhuma criança residente no bairro conseguisse falar correntemente papiá cristang (recordo que o Bairro Português de Malaca tem, hoje, 11.2 hectares e cerca de 1200 pessoas a lá viver).

Ou seja, o que pretendo, finalmente, notar é que existe, ainda hoje, uma comunidade que se reclama ‘herdeira’ da cultura portuguesa – malaio-portuguesa – mas não uma comunidade malaio-holandesa ou uma malaio-inglesa ainda que a presença de holandeses e ingleses tenha durado cerca de cento e sessenta anos cada. Uma comunidade em que, por exemplo, citando o já referido episódio do documentário brasileiro “Além Mar”, «O culto dos santos católicos manteve-se vivo por todos esses séculos mesmo cercado pelo islamismo da Malásia» ou, como sublinhou um artigo assinado pelo escritor e viajante Gonçalo Cadilhe em fins de Março de 2011, «Em Malaca, cruzamento de povos dos mares, uma pequena comunidade católica resiste à uniformização religiosa e cultural imposta pela maioria muçulmana que governa a Malásia».

Creio, por isso, estar mais do que na altura, por assim dizer, de, em Malaca como em muitas outras latitudes (algumas das quais já aqui aludidas), as autoridades portuguesas, sem se deixarem perturbar e condicionar por qualquer sentimento saudosista, neo-imperialista ou neo-colonialista que queira e possa revelar-se, possam compreender o sentido genuíno de uma frase proferida pelo Professor Agostinho da Silva – «E hoje o que Portugal poderia fazer o favor de perceber é que um dos corpos que ele é está aqui entre o Minho e o Algarve! Outro corpo que ele é está, por exemplo, no Brasil. O outro corpo que ele é, está, vamos pôr, em Moçambique. E talvez outro corpo que ele é está em Malaca, ou em Macau ou em Timor!» e o de uma outra registada pelo jurista e político Guilherme d’Oliveira Martins (então o presidente do Centro Nacional de Cultura) num artigo publicado em Novembro de 2011 – «sentimos que a comunidade que deixámos no longínquo século XVII precisa mais do nosso conhecimento e do nosso apoio. É isso que todos nos pedem e não podemos deixar de corresponder» e agir.

18
Jan18

Diálogo, sempre - parte II

Ricardo Jorge Pereira

Sempre gostei de bibliotecas.

Pouco me interessa, por isso, saber qual é a biblioteca mais antiga do mundo ou aquela que foi já considerada a mais solitária, por exemplo.

Interessa-me é destacar a democraticidade do acesso a tais espaços e aos recursos e materiais neles presentes.

Democraticidade que, de resto, só existe, por vezes, no plano meramente teórico…

Estou a referir-me, claro, às bibliotecas públicas.

De facto, percepcionando as bibliotecas públicas como equipamentos culturais e sociais que se constituem não apenas como portas de acesso local ao conhecimento mas, também, – segundo o Manifesto da UNESCO sobre Bibliotecas Públicas, de 1994 – como ‘fornecedoras’ das «condições básicas para a aprendizagem ao longo da vida, para uma tomada de decisão independente e para o desenvolvimento cultural do indivíduo e dos grupos sociais», não creio ser difícil aceitar que «os serviços da biblioteca pública devem ser oferecidos com base na igualdade de acesso para todos, sem distinção de idade, raça, sexo, religião, nacionalidade, língua ou condição social». Nem que «Serviços e materiais específicos devem ser postos à disposição dos utilizadores que, por qualquer razão não possam usar os serviços e os materiais correntes, como por exemplo, minorias linguísticas, pessoas com deficiências, hospitalizadas ou reclusas».

Neste sentido, o manifesto da UNESCO sobre bibliotecas públicas estabeleceu algumas missões – chave: criar e fortalecer hábitos de leitura nas crianças (desde a chamada primeira infância), oferecer possibilidades de um criativo desenvolvimento pessoal, promover o conhecimento sobre a herança cultural, o apreço pelas artes e pelas realizações e inovações científicas, facilitar o acesso às diferentes formas de expressão cultural das manifestações artísticas, fomentar o diálogo intercultural e, em especial, a diversidade cultural e facilitar o desenvolvimento da capacidade de utilizar a informação e a informática.

Assim, as bibliotecas públicas como ‘sítios’ capazes de incentivar a integração social e, pois, o diálogo entre todos.

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