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30
Mai18

A agenda do futuro

Ricardo Jorge Pereira

Ao ler, há dias, o artigo que a agência Bloomberg publicou no seu sítio – “Forget New Robots. Keep Your Eye on the Old People.” – não consegui deixar de pensar, mais uma vez, no que se passa em Portugal no que ao envelhecimento das pessoas diz respeito.

Mas o que é que está a ser feito?

Ao nível político, por exemplo?

Acredito que pouco.

Muito pouco.

Para além, claro, da mudança de nome da espécie de depósitos onde têm vindo a ser e são colocados os velhos: já não se chamam lares mas sim casas de repouso.

No entanto, a sua ‘função’ não mudou: ‘ajudar’ os seus utentes a aguardar serenamente pela chegada da morte…

Recordei-me, quase imediatamente, daquilo que já aqui escrevi no blogue sobre a comunidade e a sociedade e de um pequeno diálogo que mantive com uma profissional que se ocupava (e creio que se ocupa ainda) da problemática relacionada com a chamada gerontologia combatendo, pois, essa indiferença cega que grassa na sociedade portuguesa e nas sociedades do ‘Ocidente’ (ou melhor, em quase todas as sociedades ‘ocidentais’).

 

Assim, a pergunta: «Estamos a preparar alguns eventos na área de gerontologia. Atendendo à sua área profissional, aproveito para questionar se tem conhecimento de algum povo com costumes especiais no respeito e valorização dos idosos?».

 

E um excerto da minha resposta: «Saúdo-a, também, por se preocupar com o “assunto” da gerontologia.

******: as alterações nas sociedades do mundo no que ao ‘papel’ dos mais velhos diz respeito têm sido profundas. A chamada globalização tem feito o seu caminho, por assim dizer.

De qualquer das formas, posso dizer-lhe que em muitas das sociedades tradicionais da Terra é possível encontrar, ainda, o respeito e a valorização dos idosos de que falava.

Exemplos de sociedades tradicionais (em Portugal e no resto da Europa [Ocidental] isto já não existe…) onde, por exemplo (desculpe repetir-me), os mais velhos vivem com os seus filhos e netos (uma família extensa ou alargada) na mesma “casa”: tribos esquimós no Canadá e na Rússia, tribos índias no Brasil, povos/tribos em África (os Masai no Quénia e povos na Guiné Bissau, em Angola ou em Moçambique, etc.) ou povos na Ásia (na China ‘rural’, no Vietname, na Mongólia ou na Índia, etc.).

Veja-se, também, em Angola e em Moçambique, sobretudo, o caso dos régulos das aldeias.

São, de facto, alguns exemplos de povos e/ou tribos ligados à terra e ao mar.

Ligados, claro, em termos das suas actividades de subsistência (agricultores, pescadores e, no caso dos Masai, pastores).

Exemplos que exibem, ainda, o respeito pelos mais velhos e a valorização da sua experiência de vida.

Não como o que se passa em Portugal.».

 

Um exemplo mais: decorreu em Coimbra no início do passado mês de Outubro uma conferência internacional sobre envelhecimento e tecnologia.

Ora, a divulgação mediática deste evento terá sido nula.

Mais uma oportunidade perdida…

 

 

 

 

Post scriptum: esta ausência mediática ‘encaixa’ perfeitamente, se se quiser dizer assim, em minha opinião, nas palavras utilizadas pela advogada Rita Garcia Pereira no texto “Big Show Sic” que a edição impressa do Jornal Económico publicou no fim do pretérito mês de Abril: «O chamado quarto poder, isto é, a Comunicação Social apresenta-se, muitas vezes, diria até, demasiadas vezes, como uma espécie de arauto das virtudes e da independência quando, em rigor e em larga medida, obedece a agendas que são tão ocultas quanto a dos políticos.».

29
Mai18

A desumanidade da humanidade

Ricardo Jorge Pereira

Os Professores Ron Milo e Yinon M. Bar-On (ambos docentes no Instituto Weizmann de Ciência, em Israel) e Rob Phillips (oriundo do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos da América) são os autores de um trabalho – “The biomass distribution on Earth – recentemente publicado, online, pelo jornal científico Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS).

Nele se afirmou, com base em dados científicos e, pois, rigorosos, que a espécie humana (que, recorde-se, conta actualmente mais de sete biliões de ‘efectivos’), representando sempre uma ínfima parte de todos os seres vivos do planeta Terra, foi a causadora, sobretudo de forma directa, da destruição de cerca de 83% de todos os mamíferos e de 50% das plantas.

Mas, de facto, não é caso para se estranhar esta atitude predadora.

Porque, como chegou a afirmar o filósofo indiano Jiddu Krishnamurti, «O Homem é ainda – tal como sempre foi – brutal, violento, agressivo, materialista, competidor e construiu, por isso, uma sociedade de acordo com estas mesmas características»...

28
Mai18

Um lugar para Portugal

Ricardo Jorge Pereira

Escassíssimos dias após ter sido apresentado o “Manifesto Europa e Liberdade” por um conjunto de personalidades preocupadas com o futuro de Portugal também eu – embora sem a ambição de alcançar o ‘palco’ mediático – escrevo sobre esta ‘temática’ pois como cidadão português penso ter toda a legitimidade – a legitimidade conferida pela cidadania… – e a obrigação, diga-se, de tentar contribuir para responder à questão “Para onde vai Portugal?”.

Na verdade, esta questão não tem implícita qualquer inquietação derivada de se encontrar (ou não) um qualquer ponto geográfico para o país se fixar.

Claro que não.

Tem subjacente, isso sim, uma dúvida em relação ao ‘posicionamento’ simbólico (e ideológico) de Portugal no mundo.

E também não é propriamente recente: de facto, já expressara António Ramalho Eanes, no discurso que fez aquando do acto de investidura como presidente da República Portuguesa, em Julho de 1976, a importância e a necessidade de se encontrar o «lugar de Portugal no mundo».

Ora, para se projectar o futuro – seja de uma pessoa, seja de um país – é imperioso olhar para o passado e, se possível, tentar compreendê-lo.

E, antes de tudo, aceitá-lo com todos os defeitos e virtudes que necessariamente teve.

Assim, se Portugal “deu novos mundos ao mundo” com os Descobrimentos e o mudou para sempre aproximando povos e culturas também nesse ‘contexto’ praticou a escravatura (não a inventando, recorde-se) ou a violência física e psicológica sobre milhões de pessoas.

Penso, de resto, que esta não aceitação e não compreensão estão na base de, por exemplo, um certo mal-estar que há já algum tempo que está instalado nalguns círculos académicos, (supostamente) intelectuais e políticos portugueses devido à utilização do termo lusofonia.

Porquê?

Porque, na sua perspectiva, ao conceito de lusofonia estão subjacentes não questões identitárias nem linguísticas mas, apenas e só, sentimentos próximos de um nacionalismo impertinente e de um novo tipo de colonização, o chamado neocolonialismo.

E, também, seguramente, de uma certa postura eurocêntrica.

Por isso se chega mesmo a propor o seu abandono em favor do termo lusotopia.

Ou seja, o facto de não se compreender (nem sequer de aceitar…) o percurso histórico de Portugal

que, durante séculos, ajudou a transformar este pequeno país europeu em dominador e explorador, positiva e negativamente, de tantos povos por esse mundo fora, parece-me ser uma falha gravíssima denotando até, o que já aqui escrevi (no texto a que dei o título “O património subsaquático português”) “«uma espécie de negação de um determinado período da História de Portugal. Ou seja, uma disfunção comportamental (“complexo de culpa”, por assim dizer) que origina o repúdio e a vergonha por um período da História em que Portugal se superiorizou – nos mares, bem entendido, pela primeira e única vez – a outras nações do globo.».

Seja como for, o que me parece ser verdadeiramente importante não é tanto esta preocupação com questões de carácter terminológico e vocabular ainda que, subjectivamente, possam e sejam, como disse, ‘estendidas’ a campos políticos e ideológicos ‘límpidos’, em meu entender, claro.

O que me parece ter uma ‘suprema’ importância é a ausência de uma estratégia.

E, naturalmente, de quem a estruture e lhe dê consistência teórica.

Falta, no fundo, quem pense o país.

A começar pelo ‘capítulo’ da língua portuguesa.

Parece-me que também neste campo Portugal tem falhado em toda a linha.

Como, de resto, um também meu ‘convidado’ (o docente na universidade de Coimbra, Carlos Reis) referiu já: há trinta anos que não existe uma «política de língua».

Manda igualmente a verdade que refira que nem mesmo o dito Acordo Ortográfico de 1990 veio alterar esta já tão prolongada ausência pois Diogo Freitas do Amaral, antigo dirigente do partido político CDS-PP, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal e antigo presidente da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, afirmou na edição dos Diálogos com o Mosteiro dos Jerónimos dedicada ao tema, se se quiser dizer assim, “Lusofonia e a CPLP como desafio” que os programas televisivos protagonizados por portugueses têm que ser, no Brasil, legendados para poderem ser percebidos pela audiência. Mesmo estando em vigor as regras ditadas por tal acordo…

Mas não é só a língua.

Recordo três exemplos: D. Duarte Pio, pretendente ao trono português – citado pelo jornal Diário de Notícias no segundo dia de Dezembro de 1986 –, revelou, na cerimónia comemorativa do Dia da Restauração da Independência que havia tido lugar no dia anterior numa das salas do lisboeta Castelo de São Jorge que, no decurso da sua recente visita ao Extremo Oriente, havia sentido existirem ainda, para com Portugal, sentimentos de prestígio e reconhecimento na região apesar da «actual quase ausência de expressão cultural e económica portuguesa nessas paragens».

Muitos anos mais tarde (em 2012), no seu livro “Oriente Distante, o investigador português radicado em Macau Joaquim Magalhães de Castro (o mesmo que foi o responsável pela ‘condução’ da entrevista à autora Deana Barroqueiro que aqui reproduzi na passada semana) observou que «Portugal, pioneiro quantas vezes, teimosamente presente – apesar da perda do protagonismo – nos recônditos mais perdidos e inesperados do globo. Presença essa bem viva, não só nos vocábulos da língua-mãe de inúmeros povos, mas também nas suas tradições, cultos religiosos ou nas recordações dos mais velhos. Apesar disso, e pese os 500 anos de permanência no Oriente, de viagens, rebeldias e desobediências por esse mar adentro somos tão conhecidos na Ásia moderna como o Luxemburgo, que nunca saiu do colo da Europa.».

E mais um: tendo resultado de uma iniciativa do Observatório da China e da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (a U. C. C. L. A.), decorreu em Lisboa – no cinema São Jorge, mais exactamente –, no final do mês de Junho (entre os dias 23 a 29, se me não falha a memória de espectador) de 2014, o Festival Internacional de Cinema Chinês e Lusófono. Foram, assim, exibidas diversas películas (representando as áreas da ficção e do documentário ou da então designada “contaminação de linguagens”, por exemplo) e organizadas conferências. No entanto, e apesar de ser um certame chinês e lusófono, não consegui encontrar, entre os autores e realizadores presentes, um único ‘representante’ de Angola, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de Moçambique, de São Tomé e Príncipe ou de Timor-Leste (e mesmo do Brasil logrei descobrir, apenas, dois co-autores num filme com um terceiro autor de nacionalidade portuguesa). Pelo contrário, entre a pouco mais de uma vintena de filmes exibidos, descobri, sobretudo, origens portuguesas (de Portugal e de Macau) e chinesas. (Talvez isso ajudasse a explicar por que razão algumas destas sessões cinematográficas não tivessem tido mais do que quinze espectadores e uma houve que teve, apenas, cinco quando a referida sala poderia albergar cerca de mil pessoas…).

Concluo, deste modo, esta minha opinião apropriando-me de palavras do falecido Professor e (excepcional) pensador Agostinho da Silva: «Enquanto Portugal estiver preso por uma série de falhas, de faltas, sejam culturais, sejam materiais, é evidente que não pode ser modelo de coisa nenhuma. É um país que pode ir a caminho de qualquer coisa importante. Que pode, de vez em quando, realizar como realizou – com as navegações e os Descobrimentos – uma proeza, alguma coisa que seja importante para o mundo mas é, realmente, um país que não pode dar-se como modelo do mundo. Quer dizer: o primeiro cuidado de Portugal devia ser tratar de si próprio. (…) Portugal, hoje, devia construir-se a si próprio».

Estas palavras foram pronunciadas em 1988 mas, para mim, continuam hoje, infelizmente, a fazer todo o sentido.

25
Mai18

Entrevista abençoada

Ricardo Jorge Pereira

Aproveito este espaço para, uma vez mais, reproduzir um texto de outrem. Desta vez, na verdade, uma entrevista. Uma entrevista (‘conduzida’ por Joaquim Magalhães de Castro) concedida pela escritora Deana Barroqueiro ao jornal católico de Macau O Clarim e que foi publicada no início de Março de 2016. O título escolhido foi uma citação da autora entrevistada: «Há muita gente que reage estupidamente quando se fala em Descobrimentos».

 

 

 

«A escritora de romances históricos Deana Barroqueiro tem novo livro na calha. O CLARIM foi ouvi-la falar dessa sua nova obra e do desinvestimento nas áreas da Educação e da Cultura por parte do Estado Português, que, no decorrer de 2015, não assinalou devidamente duas importantes efemérides: os 600 anos da tomada de Ceuta e os Quinhentos anos da morte de Afonso de Albuquerque. E é por aí mesmo que iniciamos a nossa conversa

 

 

O CLARIM [CL] – O que acha do Governo de um país que ignora efemérides destas?

 

DEANA BARROQUEIRO [D.B.] – Demonstra ignorância. Refiro-me ao Governo anterior, pois o actual ainda mal teve tempo de respirar. Foi dos mais medíocres em termos culturais que a minha longa vida presenciou. Substituir um Ministério da Cultura por uma Secretaria de Estado da Cultura é querer um povo inculto, ignorante, incapaz de se inteirar da sua mediocridade e do Governo que os governa. Um Governo que só pensa no próprio estatuto e não no interesse comum.

 

 

CL – Os povos nem sempre convivem bem com a sua História. Concorda com esta afirmação?

 

D.B. – Em absoluto. Portugal é um bom exemplo disso, embora essa atitude seja mais frequente nos países que foram colonizados. Têm esse péssimo hábito de imiscuir a história actual com a história passada e não conseguem digerir esse facto, esquecendo algo de fundamental, e que é: conhecer o passado auxilia a entender o presente, permitindo uma melhor projecção no futuro. Evitam-se asneiras anteriores, por exemplo. Uma nação é composta de passado, presente e futuro. Estou a falar de continuidade, e se cortamos uma parte ficamos incompletos. No caso português, urge fazer as pazes com determinados aspectos do nosso passado. E se houve violência, a verdade é que também houve imensa coisa positiva. É isso que é importante realçar.

 

 

CL – Será que a violência de que fala tinha razão de ser? Justificava-se?

 

D.B. – A violência no tempo de Afonso de Albuquerque, já que serve de exemplo, era uma “violência necessária”, ou seja era a fruta da época. Todos os povos a praticavam. Impunha-se o poder através do medo. Como é que acha que os muçulmanos, no seu processo de islamização do continente asiático, tratavam os povos com quem se deparavam? Para lá desse lado tenebroso, não esqueçamos, houve actos de grande generosidade e até actos verdadeiramente revolucionários para a época. Por exemplo, nas regiões sob a jurisdição de Albuquerque os indianos estavam impedidos de praticar o sati – o sacrifício ritual das viúvas nas piras dos maridos defuntos – e aos infractores eram aplicadas penas duríssimas. Além disso, não esqueçamos que Albuquerque foi o grande promotor dos casamentos mistos. Não só entre portugueses desclassificados, ou seja, os degredados e bandidos, mas também entre os soldados comuns. O almirante oferecia terras e postos administrativos a quem casasse com as mulheres indígenas cristianizadas. Mas o mais admirável era a sua incorruptibilidade. Era um indivíduo de uma honestidade e de uma lealdade a toda a prova. Por isso foi posteriormente amarfanhado, aviltado, e, na hora da morte, viu-se substituído por aqueles que tinha mandado acorrentados, como ladrões, para o Reino e que depois D. Manuel – certamente influenciado por maus conselheiros, amigos desses corruptos – libertou, reconduzindo-os nos cargos anteriores ou premiando-os com outros postos de chefia. Mas disso não falam os detractores dos feitos dos portugueses; por desconhecimento, ou porque não lhe[s] interessa, pois a «lenda negra» vende sempre mais. Se fossemos a comparar a violência daquela época com a da [de] agora, então é que não há justificação alguma. Além disso, se compararmos o que os portugueses de mal fizeram pelo mundo, por exemplo, com o que de mal fizeram espanhóis, holandeses ou ingleses, parecemos uns anjos. Essa dor, essa animosidade, essa má vontade, está um bocado fora do contexto, não faz sentido. Assumir os erros e as virtudes, faz parte do reencontro de um povo com a sua história e a história dos demais.

 

 

CL – Qual foi para si o factor mais admirável nessa descoberta iniciada há 600 anos?

 

D.B. – Foram muitos; é difícil escolher. O contorno dos continentes foi em grande parte descoberto e desenhado pelos portugueses, que ali deixaram uma vasta toponímia. Grande parte das ilhas e lugares onde os portugueses aportaram foram na realidade descobertas, no sentido em que não havia lá ninguém. Era um descobrir para a Europa, como é óbvio. Mas há ainda muita gente que reage estupidamente quando se fala em Descobrimentos, maldosamente deturpando o sentido. Já no século XVI a presença das pessoas nesses locais “descobertos” não era escamoteada, como as crónicas coevas o confirmam. Os cronistas fazem essa própria crítica.

 

 

CL – Com[o] é que surgiu essa sua paixão pelos romances históricos que valorizam os feitos dos portugueses de antanho?

 

D.B. Respondo com uma pergunta. Será que é possível conhecer um pouco de História de Portugal e da Literatura Portuguesa sem ficar completamente apaixonado e maravilhado? Acho que não. Temos uma História e uma Literatura, em todos os períodos, verdadeiramente rica e fabulosa. Fui durante muitos anos professora de Literatura Portuguesa no Ensino Secundário e tínhamos um programa riquíssimo, que depressa viria a ser destruído, com a perda de todo o conteúdo e a triunfante entrada do facilitismo repugnante que ainda impera. Ou seja, enquanto era um programa a sério eu era obrigada a estudar História para poder leccionar literatura de viagens. A partir da Idade Média verificamos que temos autênticos génios em todos os géneros literários e em todos os tipos de literatura, além dos factos históricos em si. Comecei a fazer escrita criativa quando ainda não se falava de escrita criativa. Ensinei os meus alunos a escrever contos, apenas com o material dos programas obedecendo à veracidade dos factos, o que os obrigava a explorar todas as técnicas narrativas. Quando se optou pelo facilitismo no Ensino, vim-me embora, e resolvi fazer aquilo que mais amava na vida, a escrita, a minha escrita. Optei pelo romance histórico, precisamente porque era considerado um género menor, quando é, na realidade, o género literário mais difícil de concretizar. Quando este é levado a sério.

 

 

CL – Como assim?

 

D.B.Para escrever um romance histórico intelectualmente honesto é preciso estudar muitíssimo. Não se pode enganar o leitor. Romances históricos feitos em seis meses ou num ano, peço imensa desculpa mas considero-os uma fraude.

 

 

CL – Mas há muita gente a fazer isso…

 

D.B. – Sim, mas é outra coisa. Romance histórico não é, de certeza. Como dizia o Almeida Garret[t], vão buscar «uns figurões», uns nomes à História, pintam-nos, acachapam-nos – «grudam-nos», como ele diz, e bem, «no papel da moda» – e, pronto, está a coisa feita. Infelizmente isso acontece com a cumplicidade das editoras e eu lamento imenso que tal aconteça, porque depois quem faz romances a sério, com anos e anos de trabalho – nenhum livro dos meus tem menos de três ou quatro anos de trabalho – é metido no mesmo saco dos “escritores de romances históricos a metro”. Considero isso muito injusto.

 

 

CL – Quer falar-nos do seu próximo romance?

 

D.B. – A trama desse romance tem lugar no século XVII, no período da Restauração e pós-Restauração. Um período difícil que coincide com a decadência do Império Português. Nele aplico, tal como nos romances anteriores, a minha componente literária, neste caso o barroco, próprio do século XVII. É um romance a quatro vozes, todas elas distintas, com um linguajar muito próprio, representativo da mentalidade da época. São eles: Brás Garcia de Mascarenhas, autor da grande epopeia do século XVII, “O Viriato Trágico”, e um dos guerreiros da Restauração. Temos depois a poetisa Soror Violante do Céu, que dá a perspectiva das mulheres e dos freiráticos, que era uma das componentes do século XVII que não se pode deixar de fora. Temos ainda Francisco Manuel de Melo, outro ponto de vista, completamente guerreiro, embora além [de] militar fosse também político e escritor. E termino com a voz do padre António Vieira, que dará a parte diplomática.

 

 

CL – Já tem título?

 

D.B. – Não. Essa questão fica habitualmente a cargo do editor. Digo que estou na parte final, mas a minha parte final é sempre muito comprida. Estou com quatrocentas e cinquenta páginas, mas isso ainda é dois terços do total. É impossível meter a nossa riquíssima História em poucas páginas.».

24
Mai18

Produtos 'biológicos'

Ricardo Jorge Pereira

Produtos biológicos.

Admito que, até há alguns dias, tinha uma dúvida em relação à ‘metodologia’ supostamente utilizada para o cultivo destes produtos agrícolas: eram produtos que, na sua fase de crescimento (desde o momento em que eram sementes, por assim dizer) não dependiam de qualquer ‘incentivo’ químico ou, ao invés, eram produtos que ‘levavam’ pesticidas, sim, mas numa quantidade mínima para se poderem desenvolver e chegar ao mercado?

A resposta chegou-me, como frequentemente acontece, através da imprensa escrita.

Um jornal – o Destak, refira-se – dizia o seguinte recentemente numa sua primeira página:

 

Portugueses preferem produtos biológicos

 

Dois em cada três cidadãos preferem consumir este tipo de produtos, mas só 20% sabe que a produção biológica também usa substâncias como pesticidas. Associação lança campanha para informar o público.

 

Ou seja, produtos agrícolas que chegam até nós, consumidores, sem terem sido ‘brindados’ com um ‘banho’ de pesticidas, ainda que em quantidade mínima, pura e simplesmente não existem (nem nunca existirão).

Tal não passa de um mito urbano, se se quiser dizer assim...

23
Mai18

Troca-se absurdos

Ricardo Jorge Pereira

«Se o tom de pele da criança é mais claro ou mais escuro que o dos progenitores, “então certamente houve troca”. Se um filho não é parecido aos seus pais ou se dois irmãos têm tons de pele claramente distintos é porque “há troca de bebés” nas maternidades, não por engano mas a mando dos serviços de informações portugueses.».

Quando, recentemente, li um texto (publicado, online, pela revista Visão) sobre os ‘postulados’ subjacentes ao ‘movimento’ “Não Troquem Os Nossos Bebés” não consegui impedir-me de esboçar um sorriso.

Não por não serem legítimos, diga-se.

Nada disso.

Até porque, em Portugal, vive-se sob o ‘beneplácito’ da democracia.

Mas porque acreditar em “teorias da conspiração” não se coaduna com a minha maneira de ser e de estar na vida.

«E por que razão as secretas teriam interesse em trocá-lo à nascença, ou em trocar outras crianças? “Não sei muito bem o interesse, mas que acontece, acontece.».

Pois.

22
Mai18

Macau na EXPO'98

Ricardo Jorge Pereira

Tive o privilégio de, em Maio (e nos meses subsequentes) de 1998, ter visitado a EXPO’98.

Muito jovem, lembro-me que um dos pavilhões que mais me impressionou positivamente (pela sua ‘beleza’ interior, enfim) foi o de Macau.

Lembro-me, para além disso, de aí me ter sido oferecido um lai si – um pequeno envelope vermelho (uma das cores que, para muitos chineses, simboliza a sorte) contendo uma moeda cujo valor facial era irrelevante, claro.

Tal oferta pretenderia criar, estou certo, uma espécie de laço sentimental simbolizando a alegria e a fraternidade entre quem oferecia tal ‘lembrança’ – alguém oriundo de Macau – e quem a recebia – um visitante originário de uma qualquer parte do mundo.

Ou seja, Macau aberto ao mundo.

Devo acrescentar que comigo resultou.

Até hoje.

Tenho, também, que dizer que o referido pavilhão se encontrava, até há poucos anos, no Parque da cidade de Loures e, despojado dos seus ornamentos originais, albergava vários departamentos da respectiva edilidade.

21
Mai18

A generalização do diálogo e do desenvolvimento

Ricardo Jorge Pereira

Assinala-se hoje o Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento.

É, pois, creio, uma excelente ocasião para recordar os ‘resultados’ do estudo – o Eurobarómetro – levado a cabo pela Comissão Europeia em Outubro de 2017 dedicado à percepção da integração de imigrantes no seio da União Europeia: “Special Eurobarometer 469 – Integration of immigrants in the European Union.

Nele se observou que, por exemplo, actualmente, «cerca de 37 milhões de pessoas nascidas fora das fronteiras da União Europeia aqui residem o que perfaz perto de 7% da sua população total» e se concluiu que «apenas uma minoria de cidadãos europeus afirma estar bem informada relativamente à imigração e integração dos respectivos imigrantes nos seus países».

Ora, o que discuto não é, evidentemente, tais observações e conclusões enquanto fornecedoras de dados indicativos e susceptíveis de serem, até, ampliados qualitativamente, por assim dizer.

O que discuto é, sim, a metodologia que foi utilizada para realizar tal estudo e, pois, ‘extrair’ dela as informações consideradas necessárias: através da realização de 28.080 e de 1.099 entrevistas directas pessoais na União Europeia e em Portugal, respectivamente.

Se se pensar que a população que reside em países que integravam (e integram, pois) a União Europeia era (é) superior a 500 milhões e se se considerar que a própria população que vivia (e vive) em Portugal era (é), apenas, de 10 milhões de pessoas, julgo ser oportuno questionar-se a ‘legitimidade’ não, claro, da metodologia utilizada mas da ‘ampliação’ e, enfim, da generalização das conclusões feitas.

Assim – e até porque não foi dito a quem exactamente foram feitas essas referidas entrevistas directas pessoais – creio que tais conclusões serão ‘válidas’, apenas e só, para os participantes deste eurobarómetro.

De facto, na verdade, mais de 70% dos inquiridos em Portugal tinham a percepção de que a integração de cidadãos imigrantes estava a ser “bem-sucedida” na dita sociedade de acolhimento e que essa integração e/ou inclusão “bem-sucedida” deveria resultar de uma responsabilidade partilhada entre essa mesma sociedade de acolhimento e os imigrantes.

Confesso que à medida que estou a escrever estas palavras estou a lembrar-me de uma ‘passagem’ do livro “Com os holandeses” de José Rentes de Carvalho: «O português, por seu lado, atira-se de joelhos diante do estrangeiro. O que vem de fora é bom a priori. Homem que a miséria secular entranhou, e ainda por cima sentimentalão, tendo herdado dos árabes um sentido da hospitalidade que toca o absurdo, se o estrangeiro lhe bate à porta considera aquilo uma honra, mortifica-se para lhe dar o que tem, endivida-se para lhe dar o que não tem.».

Outra vez as generalizações...

18
Mai18

Arruda em Lisboa e em Elvas

Ricardo Jorge Pereira

Um dos vários locais/pontos de interesse da cidade de Elvas é a Igreja de Nossa Senhora da Assunção (que foi, nem mais, nem menos, a antiga Sé da cidade).

Que, recorde-se, está classificada como Monumento Nacional.

Diz a ‘placa’ respectiva que identifica este local de culto o seguinte:

 

Construção essencialmente Manuelina traçada pelo Arquitecto Francisco de Arruda, cuja construção teve início em 1517, no mesmo local da antiga e ruinosa matriz de Stª. Maria dos Açougues, sendo aberta ao público em 1537. Em 1570, por bula do Papa Pio V, obteve a proeminência de Catedral. A Capela Mor é de 1749. De salientar a azulejaria dos Séc[s]. XVII e XVIII.

 

Ora, Francisco de Arruda foi o mesmo arquitecto que projectou a Torre de Belém, em Lisboa.

De facto, Lisboa adquiriu, nos séculos XV e XVI, o estatuto de importante plataforma giratória no aspecto comercial, na Europa e no mundo, fruto das viagens marítimas portuguesas e suas ‘consequências’.

Assim, para protecção e defesa da cidade, o monarca D. João II idealizou um plano estratégico que passava por dotar o rio Tejo de estruturas que pudessem permitir controlar o tráfego marítimo e, simultaneamente, detectar a entrada de navios inimigos provenientes do oceano.

Iniciada a sua construção em 1514, a Torre de Belém veio ‘responder’ a estes anseios de maior segurança.

No entanto, após a construção da Fortaleza de São Julião da Barra e do Forte do Bugio, a Torre de Belém começou a assistir à progressiva diminuição da sua função defensiva de Lisboa tendo chegado a servir, por exemplo, como prisão de Estado (e o consequente encarceramento de indivíduos considerados opositores ao poder político vigente) e como ponto de apoio ao estabelecimento e posterior melhoria da rede de comunicações.

Símbolo de Lisboa – e de Portugal –, a Torre de Belém foi, em 1983, classificada como património da Humanidade pela UNESCO (juntamente com o Mosteiro dos Jerónimos).

17
Mai18

Ainda a Colónia do Sacramento

Ricardo Jorge Pereira

Já aqui escrevi sobre a Colónia do Sacramento, no Uruguai.

Efectivamente, segundo mencionou a página na Internet do Instituto Internacional da Língua Portuguesa no início de Junho de 2015, «o Uruguai reiterou seu interesse em ingressar como observador na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), dadas as influências desse idioma na história e identidade do país.».

De facto, tendo como pano de fundo decisivo, por assim dizer, a colonização do Brasil – e, pois, a sua efectiva ocupação por actividades militares e económicas que a viessem a facilitar –, foi, em 1681, ‘efectuada’ a constituição da Colónia do Sacramento, no sul do actual Uruguai, por Manuel Lobo.

É mesmo possível, ainda, encontrar na cidade um local de homenagem ao seu fundador: Plaza Manuel Lobo.

No entanto, os colonos portugueses cedo dali foram expulsos e se percebeu que Espanha nunca iria aceitar o domínio da Coroa portuguesa numa terra que afirmava ser sua (segundo, claro, o tratado de Tordesilhas).

Estavam, assim, lançadas as bases para que viesse a ser assinado um outro tratado.

E, na verdade, foi-o.

Em 1750.

O tratado de Madrid foi, claro está, rubricado em Madrid «pelos monarcas D. João V (Portugal) e D. Fernando VI (Espanha) [sendo que] tal tratado geopolítico teve como principal objetivo o fim das disputas territoriais entre os Estados Ibéricos.».

Saliente-se ainda, a título de exemplo, o ‘nascimento’ da cidade de San Carlos: esta urbe foi fundada por imigrantes oriundos do arquipélago açoriano como, de resto, me explicou, há alguns anos, uma funcionária do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua no Uruguai.

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  26. D