Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

uso externo

uso externo

31
Jul18

Actualmente, o melhor embaixador de Portugal

Ricardo Jorge Pereira

Não foi há muito tempo que pude ‘percorrer’ uma espécie de lista enumerando as dez personalidades portuguesas que mais se tinham destacado, ao longo da história de Portugal, no “engrandecimento” do nome do país enquanto emigrantes.

Essa lista – como, de resto, qualquer lista – é subjectiva.

Isto é, são elaboradas por um indivíduo condicionado, claro, pelas suas ideias e, enfim, pelos seus próprios valores.

Que são necessariamente diferentes das ideias e dos valores de outro qualquer indivíduo.

Como eu.

Não tenho, todavia, capacidades académicas para elaborar uma lista citando muitas personalidades da história portuguesa.

Mas tenho, sim, capacidade para dizer qual me parece ser, neste momento – e desde há alguns anos seguramente – o melhor “embaixador” de Portugal.

Não é um presidente nem um primeiro-ministro, um diplomata ou um dirigente empresarial.

É, na verdade, um desportista.

Mais concretamente, um futebolista.

O seu nome?

Cristiano Ronaldo.

Porque, sendo emigrante, tem conseguido fazer com que o nome Portugal seja tão conhecido em França como no Uganda ou na Mongólia, por exemplo.

Talvez depois de Eusébio – outro desportista... – tenha, até aos dias de hoje, sido o português mais conhecido lá fora, se se quiser dizer assim.

Beneficiando, naturalmente, de todo um conjunto de ‘instrumentos’ mediáticos, desportivos e tecnológicos, a sua qualidade como desportista e como futebolista tornou-se, com o passar do tempo, indissociável do país em que nasceu.

Reconheço-lhe, pois, este mérito independentemente de todas as críticas que possa fazer – e faço – ao ‘mundo’ do futebol (em que Ronaldo se ‘movimenta’, de facto) internacional actual com os seus contratos, os salários, os benefícios associados, as cláusulas ou a violência.

Ora, quem dera a um qualquer país ter verdadeiros ‘representantes posítivos’ de alcance planetário...

30
Jul18

«SOS Azulejo»??

Ricardo Jorge Pereira

Lembro-me de já aqui ter escrito sobre um objecto que acho ter um enorme valor patrimonial (e identitário…) em Portugal.

E do quão ‘maltratado’ ele tem, por vezes, sido.

Ora, não me quero repetir mas acho ser bastante relevante descrever uma situação que espero que seja pontual e não comum a todas as instituições públicas encarregues de proteger e defender o património material português.

Estive, de facto, há mais de um mês, junto às instalações de uma antiga e prestigiosa livraria em Lisboa – como, aliás, frequentemente faço quando passo pela rua em que se situa – e reparei que estavam à venda alguns azulejos.

Estranhei, desde logo, o facto de uma livraria ter para venda azulejos (se bem que quer livros quer azulejos são ‘cultura’, certo?) mas também o facto de o azulejo ser já, em Portugal, uma figura protegida, por assim dizer, e estar em venda ‘livre’ e completamente ‘aberta’.

Mas também o facto de as “assinaturas” situadas nas extremidades dos exemplares expostos serem incrivelmente similares às de alguns azulejos identificados pela Polícia Judiciária, em ‘catálogo’ online, como tendo sido furtados.

Recordo o que, por exemplo, se pode ler na página sosazulejo.com: «O Património Azulejar português é de uma riqueza e valor incalculáveis, ocupando um lugar de relevo não só no Património e Artístico do nosso país, como no Património da Humanidade, destacando-se pela qualidade e pela quantidade dos temas, estilos, materiais, técnicas e usos. Urge, por isso, defendê-lo e preservá-lo para as gerações seguintes, a todo o custo e por todos os meios lícitos ao nosso alcance.

Como contributo para esta necessidade absoluta de salvaguarda, foi oficialmente criado a 28.02.2007, através da assinatura de um Protocolo, o Projeto SOS Azulejo.

O Projeto “SOS Azulejo” é de iniciativa e coordenação do Museu de Polícia Judiciária (MPJ), órgão da Escola de Polícia Judiciária (EPJ), e nasceu da necessidade imperiosa de combater a grave delapidação do património azulejar português que se verifica atualmente, de modo crescente e alarmante, por furto, vandalismo e incúria.».

Reconheço que pensei estar a fazer uma boa acção na defesa e na protecção do património material português que tanto estimo e admiro quando decidi contactar, via correio electrónico (“e-mail”) o ‘gabinete’ dessa polícia responsável pela ‘protecção urgente’ aos azulejos e escrevi, com um pouco mais de detalhe, isto mesmo concluindo que achava valer a pena investigar a sua proveniência.

O desfecho, no entanto, não foi aquele que esperava: não só não obtive qualquer resposta como, muito mais importante do que isso, os cinco (5) azulejos inicialmente expostos já só eram, há pouquíssimos dias, quatro (4) pois um deles (do século XVII e com o preço, diga-se, de € 150) tinha, entretanto, sido vendido (a um cliente ‘normal’, segundo me foi dito)…

Espero que este não tenha sido só um ‘azar’ do azulejo em si e de quem tem a obrigação de o defender mas lá que foi prestado um péssimo serviço ao património material português lá isso foi...

27
Jul18

A infância

Ricardo Jorge Pereira

Escreveu Manuel António Pina numa das páginas da edição do Jornal de Notícias publicada no fim de Janeiro de 1992 o seguinte:

 

«A infância é um lugar de exílio. Se não tivermos, em qualquer sítio do coração, uma infância, onde nos refugiaremos quando os ladrões vierem para nos roubar a inocência e os sonhos e quando os assassinos baterem à porta? Se não tivermos uma pequena infância que seja (um jardim longínquo, um vago quarto de dormir perdido), onde guardaremos os segredos mais secretos e onde brincaremos ainda? E quem nos responderá quando, diante do nosso rosto no espelho, nos virmos e não nos reconhecermos, ou quando, nos dias de infelicidade, chamarmos pelo nosso nome?».

26
Jul18

Esquerda, direita, Aleixo

Ricardo Jorge Pereira

Li na passada semana, no jornal Público, uma entrevista a Maria José Morgado, magistrada e procuradora distrital da comarca de Lisboa.

Cito, por isso, um excerto com o qual estou (quase) perfeita e absolutamente de acordo.

 

«No país, perdeu um bocado o sentido ser de esquerda ou ser de direita. Acho que se calhar tem mais sentido ser honesto, defender interesses de transparência e de integridade que às vezes não têm a ver com ser de esquerda ou ser de direita.».

 

Quase porque substituo «perdeu um bocado o sentido» por “já há muito que perdeu todo o sentido”, «se calhar» por “de certeza absoluta” e «às vezes» por “nunca”.

Admito, de resto, que neste exacto momento me estou a lembrar de uma quadra escrita pela mão do poeta popular nascido no fim do século XIX António Aleixo:

 

«Sei que pareço um ladrão

mas há muitos que eu conheço

que sem parecer o que são

são aquilo que eu pareço.».

25
Jul18

A língua portuguesa na CPLP

Ricardo Jorge Pereira

Ainda ontem aqui abordei a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (a CPLP).

À semelhança, diga-se, do que fiz já em inúmeras ocasiões.

Ora, agora não será diferente.

Recordo-me perfeitamente da polémica que a ‘entrada’ da Guiné Equatorial na CPLP suscitou em Portugal: para além de ser um país que mantinha, no seu ordenamento jurídico, a pena de morte, era um país em que a língua portuguesa não era praticamente falada no dia-a-dia da esmagadora maioria da sua população.

Se concordei absolutamente com o facto de que ao permitir-se a entrada no seio da CPLP [um espaço que, como referi já, «se rege por princípios baseados no primado da paz, na democracia, no Estado de direito, nos direitos humanos e na justiça social»] a um país que fazia uso da pena capital não se estaria a contribuir para que a instituição CPLP se credibilizasse e melhor se afirmasse no mundo – mesmo que outros países se lhe pudessem associar como “membros observadores”... –, já não concordei com o facto de se ‘apontar’ que, na Guiné Equatorial, muito pouca gente (ou mesmo ninguém) utilizava a língua portuguesa quotidianamente e que, por isso mesmo, a sua ‘entrada’ na CPLP era injusta.

E não concordei por isto: por não achar que, noutros Estados já então membros da CPLP, a língua portuguesa fosse de “utilização universal” junto das populações de países como a Guiné-Bissau, Moçambique ou Timor-Leste.

Será que estava errado?

 

 

 

 

Post scriptum: lembro que a Guiné Equatorial esteve, durante cerca de três séculos, ‘ligada’ administrativamente a Portugal.

24
Jul18

Anões e gigantes

Ricardo Jorge Pereira

Sempre que ouço ou leio alguém argumentar que Portugal é um país pobre lembro-me de, nos meus tempos de estudante, por assim dizer, um colega (por sinal, bem mais velho do que eu e muitos dos meus restantes companheiros) me ter contado um ‘episódio’ que se tinha passado consigo: certo dia – num contexto que esqueci já –, uma pessoa natural da Suíça ter-lhe-ia dito “mais ou menos isto”: «Se nós, os suíços, governássemos Portugal, este [Portugal] seria o país mais rico e desenvolvido da Europa».

Evidentemente que tal testemunho me foi transmitido de maneira informal e sem qualquer validade científica (não sabia, de resto, se esse diálogo – e respectivo ‘conteúdo’, claro – teria realmente acontecido).

Terá sido, portanto, uma espécie de desabafo.

Ora, atentando eu no lugar do país “Suíça” – e no de cidades suíças – em vários, mais antigos e mais recentes, estudos a propósito da qualidade de vida permitida aos seus cidadãos, e comparando-o com o lugar de Portugal no que refere a esta mesma qualidade de vida, tenho vindo a perguntar-me (mentalmente, pois) se, mesmo que subjectivamente, não poderia encarar como verdadeiro o suposto conteúdo dessa frase.

A minha resposta: sim.

Infelizmente.

Até porque a Suíça não tem acesso directo ao mar, se se quiser dizer assim, nem a totalidade do seu território alcança a fabulosa dimensão de cerca de 1.7 milhões de quilómetros quadrados de superfície, nem (citando, novamente, a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, «O que existe no fundo do mar não é só petróleo, nem minerais, ouro, cobre, cobalto, manganês. Parece que temos tudo isso e muito de tudo, principalmente minerais, mas em matéria de aproveitamento económico, o que nos interessa é a exploração de organismos vivos, genéticos, biológicos para a farmacêutica, para a biotecnologia azul. O nosso alvo são os medicamentos, a área da saúde e da cosmética. E para isso não é preciso abrir crateras. Também podemos potenciar as energias oceânicas.»), nem integra, simultaneamente, a Comunidade de Estados Ibero-Americanos, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa e a União Europeia, nem…

Existe na Suíça, de facto, um provérbio – “As palavras são anões; os exemplos são gigantes” – que penso que ‘serviu’ e ‘serve’ a muitos gestores de Portugal (agentes políticos, bem entendido) e a muitos gestores de outros países “por esse mundo fora” (como os suíços, por exemplo): uns, porque não tiveram – e não têm – conseguido ultrapassar a mera retórica e os outros porque, apesar de se não servirem de palavras ‘bonitas’, fizeram e fazem...

23
Jul18

Ainda a escravatura: a antiga e a moderna

Ricardo Jorge Pereira

Já aqui escrevi sobre o núcleo museológico que, ao que tudo indica, será construído em Lisboa sobre os Descobrimentos que os portugueses – ou melhor, parte deles – fizeram em determinado período da história de Portugal.

Ora, o nome que irá ser atribuído a tal museu tem suscitado discussões mais ou menos ‘acaloradas’ – e, também, mais ou menos democráticas… – consoante ‘onde’ os interlocutores se situem: de um lado têm estado os que consideram que Portugal ‘utilizou’ os Descobrimentos não apenas para chegar a muitas terras e a povos até então desconhecidos para muitos mas também para ‘descobrir’ formas de explorar, física e espiritualmente, muitos dos seres humanos ‘descobertos’ – a escravatura –, e do outro lado têm estado aqueles para quem os ‘esquemas’ da escravatura postos em prática por esses portugueses ‘descobridores’ foi não mais do que um mero detalhe comum a muitos outros”povos descobridores” dessa época como o espanhol, o inglês, o holandês ou o francês.

Posto isto, enquanto que reconheço que Portugal foi, no contexto dos chamados descobrimentos, responsável por ‘ampliar’ – e não por criar – o comércio escravo como o transporte de milhões de pessoas de África para a América ou a vinda de milhares de africanos para serem explorados pelos seus senhores em Portugal, defendo que esse museu poderia ser designado por “Museu dos Descobrimentos portugueses”.

Mas ‘isto’ não é mais do que história e um nome de um museu.

Tenho, assim, que relativizar…

O que, de facto, me preocupa muito mais é que em pleno século XXI se continuem a verificar situações que configuram escravatura.

E muitas delas têm lugar em países ditos civilizados: num documento elaborado em conjunto com a Organização Internacional do Trabalho, a Walk Free Foundation revelou, através do “Global Slavery Index”, de 2018, existirem mais de 40 milhões de escravos em todo o mundo e, mais recentemente (e mais detalhadamente), 403 mil nos Estados Unidos da América ou 136 mil no Reino Unido, por exemplo.

Ou seja, é claro que o passado é muito importante.

E o presente?

E o futuro?

20
Jul18

Utentes sem português

Ricardo Jorge Pereira

Num momento em que tanto se fala de problemas no seio do Serviço Nacional de Saúde – sendo que muitos não se limitam a falar pois sentem-nos na pele… –, republico, por assim dizer, um texto que escrevi há já alguns anos e a que dei o título “O acesso à saúde: quando os utentes dos hospitais não falam português”.

 

«Porque a doença não escolhe, muitas vezes, ‘alvos’ específicos, questionei as equipas gestoras – públicas e privadas – de alguns centros hospitalares portugueses sobre as estratégias adoptadas quando ‘confrontados’ com utentes que não conseguem exprimir-se em língua portuguesa.

Assim, ***** ******, do serviço de humanização do Centro Hospitalar de São João, no Porto, explica que «O processo de atendimento de doentes estrangeiros no Centro Hospitalar de São João, no que concerne aos aspectos relacionados com a comunicação/ tradução é o seguinte:

1 – Os profissionais de saúde procuram perceber quais os recursos linguísticos do doente e saber se é possível estabelecer uma comunicação efectiva com ele numa língua em que doente e profissional de saúde sejam capazes de comunicar.

2 – Se a língua ou línguas faladas pelo doente não forem compreendidas directamente pelos profissionais que lhe prestam assistência ou por outros do mesmo Serviço Clínico, procuramos saber se dentro do próprio Hospital existe alguém capaz de fazer a tradução. Para isso, há uma bolsa de potenciais tradutores, onde estão identificados profissionais do Hospital provenientes de outros países ou que tenham conhecimento de alguma língua estrangeira (além do inglês ou francês), a quem é pedido apoio na tradução. Com alguma frequência, temos casos de doentes que falam a língua russa, ucraniana ou romena, para as quais o Hospital tem profissionais identificados e a quem é solicitada colaboração se necessário.

3 – Face à impossibilidade de encontrar dentro do Hospital alguém capaz de estabelecer comunicação com um doente estrangeiro, procuramos saber, nomeadamente junto da embaixada ou do consulado respectivo, se existe alguém identificado que possa ajudar presencialmente no processo de tradução.

4- Esgotadas as possibilidades anteriores, onde a presença pessoal do tradutor é sempre privilegiada, o Hospital tem ainda a possibilidade de recorrer ao Serviço de Tradução Telefónica (STT), que é um serviço de tradução público e gratuito, disponibilizado pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI), que assegura a tradução de mais de 60 idiomas num formato de conferência telefónica.».

Por seu lado, ****** *******, do gabinete de comunicação, informação e relações públicas do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, refere que «o procedimento habitual, no caso do profissional não conseguir estabelecer comunicação com o doente, contacta este Gabinete o qual procederá ao contacto com as respectivas embaixadas para agilizar a comunicação. Há ainda o recurso ao serviço de tradução telefónica através da linha SOS imigrante.

Informo ainda que está em fase final de elaboração uma norma interna que descreve a forma como o profissional deve agir sempre que tem dificuldade em comunicar com doentes devido a barreiras linguísticas.».

Por seu lado, *** *****, directora no Hospital da Luz, em Lisboa, (e ela própria com algumas dificuldades na escrita em português) observa que «Quando temos turistas no Hospital da Luz que nao falam ingles ou portugues, usamos estes recoursos:

- nosso banco de linguas: tem todas as idiomas falados por os funcionarios do hospital. Existe varios idiomas.

- questionario de triagem em 13 idiomas.

- servico de traducao telefonico com 55 idiomas disponivel.».

***** *******, do serviço de relações públicas e comunicação do Hospital do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada, E. P. E., São Miguel, Açores, regista que «o Hospital criou uma Bolsa Interna de Tradutores, constituída por funcionários ou amigos, que dominam outras línguas, como por exemplo: Russo, Mandarim, Italiano, Francês, Crioulo, entre outras.

Para além desta bolsa, dispomos de outros instrumentos/alternativas como:

- serviço de tradução telefónica

- contactos nos hotéis onde o utente se encontra hospedado e manual multilinguístico dedicado à saúde»».

 

Ou seja, apesar das pouquíssimas respostas que obtive, uma ‘coisa’ era – e é – certa: a língua (a cultura, no fundo) pode tornar-se um obstáculo na vida de uma pessoa ou de um grupo de indivíduos.

Obstáculo fácil de contornar” ou, ao invés, “obstáculo (quase) intransponível” depende e dependerá, quase sempre, da vontade dos sujeitos em questão...

19
Jul18

"Marketing"

Ricardo Jorge Pereira

«Vi uns homens a inaugurarem estátuas

e vi fardas e paradas e conferências

e crianças a sorrir

para os homens sorridentes que inauguravam estátuas

e vi homens que falavam e pensavam por mim

a escolherem por mim o bom e o mau

de modo a que eu não possa ser tentado

a confundir o mau com o bom ou vice-versa

ou vice-versa».

 

 

 

Fernando Namora, “Marketing

18
Jul18

Festival ao Largo

Ricardo Jorge Pereira

Opto, numa altura em que já se aproxima do fim a edição de 2018 do Festival ao Largo, por aqui publicar um texto que escrevi há cerca de quatro anos a propósito, exactamente, deste festival (e não só).

 

«Foi na passada noite de 16 de Julho que a Orquestra Chinesa de Macau actuou em Lisboa no âmbito da 6ª edição do “Festival ao Largo”, junto ao Teatro Nacional de São Carlos.

Esta exibição contou, a partir de certo momento, com a participação da fadista Maria Ana Bobone e de alguns músicos portugueses.

Tratou-se, quer na ‘fase’ instrumental quer na de voz, por assim dizer, de um momento, seguramente, mágico para muitos daqueles que tiveram a felicidade de poder acompanhar esta participação.

Foi, nas palavras do apresentador do espectáculo, (mais) um instante de um encontro miscigenado e, acrescento, de simbiose cultural entre representantes de dois povos – o português e o chinês – que se conhecem (ou desconhecem…) há cinco séculos e em que não faltaram, até, diversas passagens, junto a este cenário de lazer (e de prazer), dos tradicionais eléctricos deslocando-se para o coração de Lisboa e que emprestaram, assim, um ponto mais de encanto àquela quente noite de Verão.

Importará, no entanto, recordar que um jornalista do jornal Xin Jing Bao, de Pequim, destacou, na sequência de uma visita a Portugal em meados de 2013, que este é, aos olhos dos chineses, um país familiar mas, também, desconhecido e que o embaixador da República Popular da China em Portugal, Huang Songfu, garantiu, num colóquio que teve lugar, há algumas semanas, na Assembleia da República, em Lisboa, que a cadeia pública de televisão da China (a CCTV) iria enviar ‘equipas’ a Portugal, ainda em 2014, para filmar documentários com o intuito de ali serem exibidos.

Desconhecimento que não é, de todo, apanágio exclusivo dos chineses já que para a grande maioria dos portugueses a China não passa de um país longínquo e exótico.

Acrescente-se que se assinalaram, no ano que passou, cinco séculos do início das relações entre Portugal e a China.

De entre as várias iniciativas que, de parte a parte, têm contribuído, nos últimos meses, por exemplo, para aproximar os povos dos dois países e, assim, abalar e erradicar estereótipos e imagens que se foram criando e instalando, poderei relembrar quatro, para além daquela a que se já aludiu.

A primeira foi uma “exibição artística da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai” que teve lugar em Lisboa em finais de Novembro passado. Tratou-se de um espectáculo de artes chinesas constituído por danças de diversas regiões e etnias (existem 56 etnias na China), música folclórica, artes marciais, “ópera de Pequim”, combinando a cultura e as artes tradicionais chinesas com estilos e com abordagens contemporâneas de estudantes universitários chineses.

Ainda na esteira artística, a segunda – que se realizou no mês de Maio – foi da responsabilidade da delegação cultural e artística do Instituto Politécnico de Macau e teve como ‘protagonistas’ estudantes do instituto. Tendo passado por Coimbra, por Leiria e por Lisboa, o programa do espectáculo foi preenchido com apresentações de trechos musicais originários do Oriente mas, também, do Ocidente, por declamações poéticas (de poemas de autores portugueses) e por movimentos de kung fu.

Da terceira iniciativa, igualmente no âmbito da academia e da cultura, não há (ainda, pelo menos) registo de movimentações artísticas como as anteriores: a Universidade de Zengzhou (capital da província chinesa de Henan) e o Instituto Politécnico do Porto rubricaram, também já em 2014, um protocolo de colaboração que prevê um intercâmbio do conhecimento científico que pretende ‘estender’ a língua e a cultura portuguesas ao império do meio – até porque, dentro de alguns anos, serão os chineses, depois daqueles que vivem nos países lusófonos, quem mais falará a língua de Camões – bem como a língua e a cultura chinesas a Portugal.

A quarta e última iniciativa abordada remete ainda para o ‘campo’ cultural e artístico, sim, mas com um cunho comercial: no início de Junho, o cartaz do festival internacional de guitarra de Santo Tirso contou, entre outros, com a actuação do Beijing Guitar Duo.

Certo de que será, talvez, estranho citar uma expressão do poeta russo Aleksandr Blok – “Ah, se conhecêsseis, meus filhos, o frio e as trevas dos dias que hão-de vir!” – dela me aproprio para, noutro contexto, mostrar que acredito que, ao contrário do significado da pretérita frase, as relações culturais entre os povos português e chinês se afigurarão, cada vez mais, imbuídas de prosperidade e de luminosidade: parece que, meio milénio depois de os portugueses terem chegado à China, estão a ser solidificadas as bases culturais para que Portugal e a China deixem de ser, apenas, ‘dois velhos desconhecidos’.

Mais vale tarde do que nunca.».

Pág. 1/3

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D