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31
Ago18

A manipulação (ou as verdades 'esquisitas')

Ricardo Jorge Pereira

Um dos assuntos que mais insistentemente tem marcado presença em conversas com amigos é o da manipulação.

A um nível macro e não, claro, a um nível micro.

«A manipulação de pessoas é um fenómeno recente. Veja-se o exemplo das fake news...», dizem-me.

«Tudo depende», respondo, «do que se entende por “recente”».

Invoco, por isso mesmo, logo de seguida, três acontecimentos que me parecem ser exemplarmente elucidativos daquilo que foi e é a manipulação exercida a uma larga escala, por assim dizer.

O primeiro tem como ‘palco’ a Alemanha governada por Adolf Hitler.

Em determinado momento da sua governação a taxa de aprovação/satisfação pelos alemães chegou a ser extremamente elevada.

É claro que a melhoria do desempenho económico e social da generalidade da sociedade alemã influenciou grandemente uma vastíssima percentagem do povo germânico a aprovar o ‘seu’ líder mas acho que tão (ou mesmo mais) importante do que a dita elevação económica e social da Alemanha foi o facto de Hitler – e seus algozes – terem ‘dito’ a cada um desses alemães que pertencia à chamada raça superior.

Efectivamente, Adolf Hitler e o nacional-socialismo mais não fizeram do que dizer (porque não tenho grandes dúvidas de que o ‘sentimento’ de suposta superioridade étnica e racial já existia) aquilo que os alemães queriam ouvir: que eram “grandes” e importantes.

O que depois se veio a passar já todos conhecemos.

O segundo exemplo: nas vésperas do início da guerra mundial originada pelos ‘actores’ atrás mencionados vários estudos de opinião eram unânimes em considerar que os Estados Unidos da América não queriam participar na guerra (já então não só uma contenda puramente europeia).

O comum cidadão norte-americano que seria quem, como sempre e em toda a parte, pagaria com a vida os desígnios político, militar e da indústria de armamento, bem entendido.

A estes ‘sectores’ interessava, obviamente, o contrário pelo que se tornou necessária uma alteração daquela vontade de não participação.

E eis que subitamente os Estados Unidos da América foram alvo de um ataque por parte de aviões de guerra japoneses (à base naval de Pearl Harbor, no Havai, em 7 de Dezembro de 1941).

Ora, a chamada opinião pública mudou e os Estados Unidos da América lá acabaram por ‘entrar’ na guerra.

O terceiro exemplo: um dos principais (se não mesmo o principal) argumentos para “libertar” o Iraque, no início deste século XXI, do regime liderado por Saddam Hussein era o de que o país estava “carregado” de armas de destruição maciça e de que a sua utilização interna e externa poderia ser uma realidade não muito distante em termos temporais.

Numerosos relatos pessoais e relatórios oficiais (e oficiosos) confirmavam-no quase à saciedade.

Ora, depois de o Iraque ter sido “libertado” (o seu líder Saddam foi, primeiro, feito prisioneiro e, depois, enforcado, por exemplo) rapidamente se chegou à conclusão que o país não tinha ADM (as referidas armas de destruição maciça) nem nunca havia tido.

Reconheço, todavia, que apesar de invocar três exemplos do que penso terem sido claras manipulações, poderia invocar muitos mais (do chamado 11 de Setembro à invasão e “libertação” da Líbia sem esquecer o referendo que levou ao “Brexit”).

E algo me diz – não as “fake news” – que o futuro trará ainda mais (e tristes) exemplos de verdades ‘esquisitas’...

30
Ago18

Pátria

Ricardo Jorge Pereira

Num tempo em que as atitudes nacionalistas – mais ou menos racionais e coerentes – parecem ‘comandar’ as políticas, as economias e, claro, comunidades em todo o mundo, opto por reproduzir o poema “Pátria” que foi escrito por Miguel Torga (pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha) no seu “Diário II” e que se pode, também, ler numa ‘placa’ existente no parque nacional Peneda Gerês – já consagrado pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera:

 

 

«PÁTRIA

 

 

Serra!

E qualquer coisa dentro de mim se acalma…

Qualquer coisa profunda e dolorida,

Traída,

Feita de terra

E alma.

 

 

Uma paz de falcão na sua altura

A medir as fronteiras:

- Sob a garra dos pés a fraga dura,

E o bico a picar estrelas verdadeiras…

 

 

Miguel Torga, Diário II»

29
Ago18

Torre de Penegate, Vila Verde, Braga

Ricardo Jorge Pereira

«A Torre de Penegate foi erguida no século XIV para serventia de Mem Rodrigues de Vasconcelos, alcaide-mor do Castelo de Guimarães, com licença régia especial de D. Dinis. É um belo exemplar de casa-torre medieval, com boa estrutura defensiva e localização privilegiada. Pensa-se, contudo, que a atual Torre foi edificada sobre uma primitiva, do século XI, residência de D. Egas Pais de Penegate, valido do Conde D. Henrique de Borgonha.».

28
Ago18

As mais seguras?

Ricardo Jorge Pereira

Li há alguns anos (em 2014) no então jornal Oje o seguinte:

 

«T-shirts portuguesas são as mais seguras

Cerca de dois terços de noventa modelos de t-shirts para uso dos adeptos no apoio às selecções que vão disputar o Mundial 2014 contêm substâncias tóxicas, designadamente cádmio e substâncias cancerígenas, revelam testes realizados pela TÜV Rheinland em conformidade com as normas europeias.

As t-shirts portuguesas, a par das produzidas na Bósnia Herzegovina, passaram nos testes em toda a linha: além de não apresentarem quaisquer substâncias tóxicas nocivas para a saúde, destacam-se ainda pela qualidade dos acabamentos e bom aspeto pós-lavagem.

As peças testadas foram adquiridas ao preço médio de 15 euros em mercados, lojas de souvenirs e na internet, não tendo o selo de garantia de produtos oficiais do Mundial.».

 

Admito o que pensei quando li esta ‘pequena’ notícia: “Será que todas as t-shirts produzidas em Portugal são seguras para a saúde de quem as usa?”, “E, se sim, será que toda a ‘espécie’ de roupa produzida em Portugal também é segura?” e também “Será que nem no que vestimos podemos confiar?”.

27
Ago18

A diversidade cultural

Ricardo Jorge Pereira

Tenho lido cada vez mais textos incidindo sobre a diversidade cultural em equipas num ambiente profissional e sobre o quão é salutar esta ‘convivência’ entre pessoas com hábitos e, enfim, “traços” culturais diferentes.

Às vezes bastante diferentes.

Acredito sinceramente que sim e que, de facto, a tantas vezes invocada globalização não é já apenas uma realidade económica…

Mas esta mesma diversidade cultural profissional, por assim dizer, pode, simultaneamente, ser geradora de mais conflitos devido, pura e simplesmente, à incompreensão pela cultura dessa mesma diversidade cultural.

Ou seja, incompreensão (ou ignorância) cultural.

Ora, num momento em que cada vez se discute mais o papel da instituição Escola no século XXI, penso que a Escola (pública, claro) deveria – cada vez mais – colocar como uma das suas ‘preocupações’ fundamentais preparar os alunos para a inevitabilidade desta diversidade cultural.

24
Ago18

Pobreza e violência

Ricardo Jorge Pereira

Li, há dias, o seguinte: «Pobreza atinge 6 em cada 10 crianças e adolescentes no Brasil. Segundo um novo estudo feito pela Unicef com base em dados de 2015, o país tem cerca de 32 milhões de menores de idade com renda [rendimento] insuficiente ou ausência de direitos à educação, moradia [habitação], água e informação, entre outros. Desse total, 18 milhões vivem com uma renda per capita inferior à necessária para adquirir uma cesta básica de bens. A situação é mais grave de acordo com a cor da pele: enquanto o índice de privação de direitos para crianças e jovens negros é de 58%, entre os brancos é de 38%.».

 

Estou, no entanto, absolutamente certo de que muitas pessoas por esse mundo fora (e também no próprio Brasil, claro) se continuam a espantar com os números da violência que desde há muito tempo se vêm registando no Brasil.

 

Ora aí está: uma das razões para a existência de violência – no Brasil como em qualquer outro país do mundo – é a pobreza...

23
Ago18

Tributo

Ricardo Jorge Pereira

Apresento agora uma espécie de reconhecimento e de agradecimento pelo excelente trabalho em prol da música (letras e melodias, claro) a quatro “mestres” oriundos de três diferentes países.

Este meu reconhecimento e agradecimento não passa, todavia, por nada mais do que a escrita de algumas frases e, sobretudo, por me lembrar deles ‘adicionando’, evidentemente, os títulos de algumas das suas obras musicais e seus respectivos registos visuais na plataforma YouTube.

Obrigado a todos.

 

 

Ennio Morricone

 

L’Estasi Dell’ Oro[ou, em língua portuguesa, “O Êxtase Do Ouro]:

 

https://www.youtube.com/watch?v=J3IlqY1CbI0

 

 

Fausto Bordalo Dias

 

O Romance De Diogo Soares:

https://www.youtube.com/watch?v=defVOgHwxvU

 

 

António Variações

 

Estou Além:

https://www.youtube.com/watch?v=mADiz_vn0RQ

 

John Williams

 

Jaws[tema principal do filme O Tubarão] :

https://www.youtube.com/watch?v=E-sX2Y0W8l0

22
Ago18

"Os portugueses vistos..."

Ricardo Jorge Pereira

Devo a um livro escolar que utilizei quando era estudante do ensino secundário estes ensinamentos:

 

«Os Portugueses vistos…

 

...pelos Africanos

Um dia sobre o mar surgiu um grande barco. Tinha asas brancas e brilhantes como facas ao sol. Homens brancos saíram da água dizendo palavras que ninguém compreendia. Os nossos antepassados tomaram medo e pensaram que eram «vumbi», almas do outro mundo. Conseguiram fazê-los regressar ao mar disparando nuvens de flechas. Mas os «vumbi» começaram a cuspir fogo com um barulho de trovão…

 

Tradução oral africana, in F. Braudel, Civilização Material…, III.

 

 

...pelos Chineses

Pode dizer-se que o objectivo primeiro da vinda dos Fu-lang-chi [os Portugueses] para a China foi o comércio (…).

As gentes Fu-lang-chi são altas e têm grandes narizes. Os olhos são como os do gato e a forma da boca como a da águia. O pêlo cresce-lhes até nas costas das mãos e as suas barbas são vermelhas. Amam o comércio e, apoiados no seu poder militar, têm o hábito de invadir e oprimir os países mais pequenos. Vão a qualquer sítio onde haja lucro (…) Usam roupas limpas e bonitas...Sempre que surge uma disputa, apontam para o céu e juram dizer a verdade.

 

História dos Ming (adaptado).

 

 

...e pelos Japoneses

Estes homens [os Portugueses] são comerciantes (…). Bebem em copo sem o oferecerem aos outros. Comem com os dedos (1) e não com pauzinhos como nós (…). São gente que passa a vida viajando de aqui para além, sem morada certa, e trocam os produtos que possuem pelos que não têm, mas no fundo não são má gente.

 

Crónica Teppo-Ki (adaptado).

 

(1) No século XVI, os Europeus ainda só raramente usavam o garfo.».

 

 

É evidente que as ‘visões’ aqui transcritas estavam – como não poderia, talvez, deixar de ser – imbuídas de um conjunto de estereótipos e generalizações criados e ampliados pelo facto de aqueles portugueses serem dominadores e conquistadores.

Esse tempo de dominação e de conquista já passou, claro.

Felizmente.

Interessar-me-ia, no entanto, perceber que estereótipos e generalizações existem actualmente sobre os portugueses por esse mundo fora: em países africanos, na China e no Japão, por exemplo.

21
Ago18

(muito) Mais do que sanear

Ricardo Jorge Pereira

Não é para mim possível não associar o conteúdo do texto da autoria de Manuel Alegre que ontem aqui publiquei a uma declaração de um outro autor português que também já aqui citei no texto “A ambição da exigência” – António Lobo Antunes – nem a um conjunto de frases escritas pelo Prof. Eduardo Paz Ferreira no seu livro “Por uma sociedade decente”.

Se, efectivamente, Lobo Antunes referiu que «Aquilo que escrevo não é muito fácil de entender, é muito ambicioso e as pessoas gostam é de Facebook e de mensagens e as outras coisas não lhes interessam. A gente vive na nata das coisas. Se um livro ou uma música exige mais de si, a gente gosta é de ouvir as parvoíces do Tony Carreira. Mas ouvir os quartetos do Beethoven , que são difíceis, está quieto ou mau. Porque a cultura da mediocridade tem imensas vantagens para os governos. Não há nada pior do que um povo exigente.», Paz Ferreira escreveu que «A primeira condição para termos uma sociedade decente é a de que cada um de nós tenha um comportamento decente. Não tenho, todavia, qualquer dúvida em reconhecer que esta é uma condição necessária, mas não suficiente, até porque, se não faltam estímulos aos comportamentos indecentes, eles rareiam quanto ao comportamento decente, que tende a passar despercebido.».

Ou seja, o “saneamento” de Os Maias nada mais é do que um contributo (penso que importantíssimo) para o aprofundamento dessa cultura da mediocridade e, enfim, de uma sociedade com comportamentos indecentes...

20
Ago18

Portugal a desistir de Portugal?

Ricardo Jorge Pereira

Um texto colocado, à dias, num blogue ‘alojado’ aqui no portal SAPO procurava reflectir sobre «o valor da leitura».

Aproprio-me, por isso, de uma frase proferida pela escritora francesa Marguerite Duras sobre a importância de se ler: «Creio que nada substitui a leitura de um texto, nada substitui a memória de um texto, nada, nenhum jogo».

E aproprio-me, também, de um texto de opinião assinado pelo antigo deputado socialista Manuel Alegre que foi impresso numa edição de fins de Julho passado do jornal Público com o título “O saneamento de Os Maias” com que estou inteiramente de acordo:

 

«Depois de ler o artigo de Carlos Reis sobre o “saneamento” de Os Maias, pergunto-me se Portugal não estará a desistir de si mesmo, da sua literatura, da sua língua, da sua Escola Pública?

Os mais pobres, aqueles cujos pais não têm biblioteca em casa, não vão ler Eça de Queiroz, nem Garrett, nem Camilo, nem, pelos vistos, Cesário Verde. Fica para os colégios privados, a quem parece estar a deixar-se a preparação das futuras elites. À Escola Pública restará a leitura rápida de textos fáceis e curtos, ao contrário de uma cultura de exigência sem a qual jamais poderá cumprir o seu papel de ser um factor de igualdade de oportunidade para todos. Mas, enfim, Os Maias, como as Viagens na Minha Terra e o Amor de Perdição colidem com o facilitismo, não há espaço nem tempo, não cabem num[a] SMS.

Desiste-se da Escola Pública.

Mas também do SNS, cada vez mais descaracterizado e reduzido a um serviço caritativo para pobres, enquanto florescem as mil flores dos hospitais privados para quem pode pagar. Como é que não se consegue travar a drenagem do SNS para o privado? Como é que se deixa degradar a TAP e os CTT a um ponto nunca visto? E como é que sectores estratégicos da economia continuam em mãos de empresas chinesas que são, como se sabe, instrumentos de um Estado que não é o nosso?

Vão com certeza chamar-me soberanista e um dia destes ainda vou ter de pedir desculpa por ser português, gostar do meu país, da sua língua (apesar do acordo ortográfico), dos seus Os Lusíadas e daqueles navegadores que segundo disse Amílcar Cabral, numa entrevista que lhe fiz para a Voz da Liberdade, “deram de facto novos mundos ao mundo e aproximaram povos e continentes”? Sim, eu sei que há limites para o voluntarismo e para uma “intervenção consciente num processo histórico inconsciente”. Mas também sei que foram a abdicação, o conformismo e o politicamente correcto que abriram caminho à vitória de Trump e de todos os populismos que estão a pôr em causa o que parecia definitivamente adquirido. Vejo a pavonearem-se por aí, em várias alas direitas, ex-esquerdistas que, no Verão Quente de 75, queriam substituir Camões pelos textos de dirigentes dos movimentos de libertação africanos.

Alguns de nós, que tínhamos estado presos e exilados por nos opormos à guerra e ao colonialismo, não nos calámos nem deixámos sanear Camões. Também hoje não sou capaz de me resignar perante esse atentado à cultura e à Escola Pública resultante da abdicação do Ministério da Educação que remete para as escolas a decisão de eventualmente passar Eça de Queiroz à clandestinidade.

Ao primeiro-ministro e ao Presidente da República cabe o cumprimento da Constituição no que respeita à defesa da língua e da Escola Pública. Gostava de saber o que pensam da retirada de Os Maias da “lista de obras e textos para a Educação Literária” no 11.º ano. Sei que há muitos números e contas a fazer até à aprovação do Orçamento de Estado. Mas gostem ou não, nada é tão prioritário como Eça de Queiroz e Os Maias.».

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