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13
Jun18

A 'civilização' europeia

Ricardo Jorge Pereira

Li, há dias, que todos os edifícios públicos no estado da Baviera, na Alemanha, teriam que passar a ostentar junto à respectiva porta de entrada (e de saída, claro) um crucifixo.

Ou seja, um símbolo cristão.

Ora, não demorei muito a lembrar-me da legenda atribuída ao beato San Andrés de Arroyo (do século XIII) – não confundir com o músico nascido na cidade espanhola de Oiartzun no século XIX José Francisco Arroyo – que tinha lido, há já alguns anos, na exposição O Gabinete das Maravilhas – Atlas e Códices dos Melhores Arquivos e Bibliotecas do Mundo patente nas instalações do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa: «é o mais europeu de todos os beatos».

O que é que se pretenderia dizer exactamente com estas palavras escritas já no século XXI?

Nunca consegui, no entanto, dar uma resposta à minha própria pergunta: o que significaria, desde logo, ser-se «mais europeu» (ou “menos europeu”, evidentemente)?

Mas uma ‘coisa’ consegui.

Perceber a existência de uma associação, por assim dizer, entre ser-se europeu e ser-se cristão.

O que significaria, claro, excluir-se de ser europeu aquele que fosse ‘seguidor’ das religiões muçulmana ou judaica, por exemplo.

Diga-se que tal nunca foi a opção ‘escolhida’ para a proposta de texto constitucional para a Europa delineada por Valéry Giscard d’Estaing já que não pressupunha uma espécie de supremacia do Cristianismo nos chamados pilares fundamentais da ‘civilização’ (ou história) europeia ‘esquecendo’, assim, os contributos da ‘civilização’ grega, das tribos nómadas que acabaram por integrar o Império Romano, dos mongóis (que dominaram, politicamente, a Rússia do século XIII ao XV) e de tantos outros.

Creio que, na verdade, a ‘base’ mental para a construção da aparentemente inocente frase «é o mais europeu de todos os beatos» está, se se quiser dizer assim, naquilo que o Professor Eduardo Lourenço já referiu ser a missão de uma parte da Europa (de que Portugal também faz parte): a sua missão era (e é…) ‘civilizar’ a Humanidade.

Mas, como escreveu Samuel P. Huntington no seu livro “O choque das civilizações” (“The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order”, no original), «O Ocidente ‘ganhou’ o mundo não pela superioridade dos seus ideais, valores ou religião mas sim pela sua utilização sistemática da violência . Os ocidentais esquecem, muito frequentemente, este facto mas os não-ocidentais nunca

o fazem»...

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