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31
Jan18

A comunidade, a sociedade e nós (1.ª parte)

Ricardo Jorge Pereira

O que é, socialmente falando, uma comunidade?

E uma sociedade?

Remontam, efectivamente, ao sociólogo alemão Ferdinand Tönnies as primeiras discussões, em finais do século XIX, a propósito dos conceitos de comunidade e de sociedade.

Na realidade, e até então, a discussão sobre os problemas da industrialização e da urbanização reduzia-se, frequentemente, ao mero antagonismo polarizador de “campo” – “cidade” e de “agricultura” – “indústria” sendo, apenas, na obra de Tönnies que foi ‘ligado’ a estas categorias o par sociológico antagónico “comunidade” – “sociedade”.

De facto, na sua obra “Gemeinschaft und Gesellschaft” (“comunidade e associação”, na tradução literal do original alemão), datada de 1887 (que inspirou, de resto, diferentes modelos de análise sociológica e antropológica), Tönnies avançou com a identificação e análise de dois conceitos sobre a vivência de grupos sociais: a comunidade, em que os ‘laços’ e as relações entre os indivíduos se baseavam em sentimentos e atitudes frequentemente designados de primários (no sentido de uma maior proximidade afectiva e sentimental), de face a face ou de interdependência, e a sociedade que, por oposição, se caracterizava, segundo ele, por congregar um conjunto de indivíduos que, associados e interagindo, regra geral, de forma porventura não tão regular como no verificado nos postulados do conceito precedente, não tinham entre si outras relações cujos únicos laços de comunhão não se cingissem, por exemplo, a uma perspectiva laboral ou institucional (e, portanto, mais formal) fruto, pois, de uma divisão do trabalho mais complexa.

No entanto, Tönnies distinguiu ainda a comunidade de parentesco (fixada pelos laços de sangue e por uma vivência num meio social comum onde a cooperação se desenvolvia regularmente) da comunidade de vizinhança (frequentemente representada pelas relações de dependência e de cooperação que se estabeleciam no meio rural ou no âmbito do trabalho mas em que os indivíduos poderiam possuir um certo sentimento de integração social e de solidariedade) e da comunidade de cariz urbano.

Ora, verificou-se, desde esse momento, a dificuldade analítica e teórica de estabelecer uma relação necessária e obrigatória entre a cidade/sociedade e o campo/comunidade.

Sociedade e comunidade não eram, portanto, aplicáveis ou específicas, respectivamente, dos meios urbanos nem dos meios rurais.

Em ambos os contextos (aldeia e cidade) se poderiam verificar relações sociais tidas como características da sociedade e da comunidade embora, naturalmente, se pudessem verificar mais ou menos num dos meios fruto da diferenciação das estruturas que cada um deles pudesse, porventura, evidenciar.

Ainda assim, autores vários continuavam a referir que, por oposição à comunidade existente em meio rural, a sociedade poderia designar uma forma de vida social impessoal, correspondente à vida no aglomerado situado em ambiente urbano e industrial.

Poderia, de facto, na comunidade, o grupo ser entendido como a unidade máxima de referência para os indivíduos já que lhes poderia dar uma forte sensação de pertença e de coesão (ao nível dos valores partilhados, sobretudo) face a ‘investidas’ e agressões do exterior.

Todavia, essa mesma unanimidade ao nível da partilha e da afirmação dos valores comuns poderia, por exemplo, não permitir ao grupo uma fácil resolução de conflitos no seu interior. Neste sentido, poderia falar-se da existência de uma comunidade no caso do conjunto dos habitantes de uma aldeia ou até no caso de fiéis de uma qualquer confissão religiosa.

(continua)

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