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07
Mai18

A higiene de alguns estudos e da própria língua portuguesa

Ricardo Jorge Pereira

Assinalou-se anteontem o Dia Mundial da Higiene das Mãos.

Não resisto, por isso, a destacar algo que li há já alguns anos e que me ‘impressionou’ embora não me custe reconhecer que pouco (ou nada) tem a ver com a limpeza das mãos.

O jornal digital português Observador publicou, no final do mês de Junho de 2015, um artigo – “Higiene: porque temos de tomar banho?que referiu, por exemplo, o seguinte: «É no continente sul americano que as pessoas mais vezes usam a banheira. Os brasileiros lideram a lista dos povos que toma mais banhos, com uma média de doze por semana. Os menos limpos parecem ser os chineses, que ligam o chuveiro apenas uma vez a cada dois dias.».

Tendo como fonte uma pesquisa efectuada pela agência de análise de tendências Euromonitor para o diário espanhol El País, tal artigo registou, igualmente, que «Ao lado dos brasileiros, estão a Colômbia e Austrália, com uma média de até dez banhos por semana. A par da China estão a Alemanha, Turquia, Reino Unido e Japão» acrescentando, porém, que «Um banho por dia parece ser a média mais usual. Indonésia, México, França, EUA e Espanha são alguns dos exemplos.».

De facto, quem quer que o tenha lido na ‘altura’ da sua publicação – ou quem, entretanto, o tenha lido – não terá podido, certamente, deixar de notar a existência de algumas limitações científicas do “estudo” em questão.

E nem sequer me refiro ao facto de a América do Sul não ser um continente mas sim parte de um continente, o americano…

Gostaria, isso sim, desde logo, de referir a problemática da média.

Ninguém ignorará, estou certo, que se um indivíduo tomar, por exemplo, quatro duches por dia, se se quiser, e outro não tomar qualquer banho a média diz que cada um deles toma dois duches por dia.

Não prima propriamente pelo rigor e pela exactidão, pois não?

Mas, para além da ‘faceta’ matemática deste meu apontamento foi dado aso a um tópico capaz de tornar verdadeiramente perigosos estes “estudos”: o da generalização.

Ou seja, favorecem a construção de ideias simplificadas e sem qualquer conteúdo científico válido como, por exemplo, “os Brasileiros são asseados” ou, em ‘sentido’ contrário, “os Chineses são sujos”.

São perigosos porque, acredito firmemente, as sementes do ódio e do preconceito são, assim, lançadas.

Seria, na minha opinião, muito mais interessante e culturalmente estimulante se, ainda como exemplo, fosse apresentado um estudo aprofundado sobre os rituais de passagem da idade infantil para a idade adulta em várias regiões e países do mundo.

Assim, se, em Portugal, muitas vezes, é a permissão de condução de veículos automóveis que enquadra esse ritual aos 18 anos, numa aldeia asiática ou africana é, muitas vezes, feito um cerimonial social e religioso (que poderá ‘incluir’ actos matrimoniais e trocas de dotes) e, na Dinamarca, é, para alguns, organizada a matança de baleias e golfinhos…



Post scriptum: Um familiar próximo viu, na casa de banho de um centro comercial, o cirurgião que, algum tempo antes, o tinha operado. Pois bem, esse dito profissional de saúde deixou a casa de banho, depois de ter feito as necessidades fisiológicas que o tinham lá levado, sem efectivar a respectiva higiene manual. O seu procedimento pouco saudável terá sido uma mera distracção momentânea ou, pelo contrário, tratou-se da manifestação de um hábito enraizado, por assim dizer, na sua vida pessoal e profissional?


***


Amílcar Cabral, líder, na década de 1960 e início da de 1970, do partido político Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, o PAIGC, disse, um dia, que «o português [a língua] é uma das melhores coisas que os ‘tugas’ nos deixaram».

Ora, também se assinalou anteontem (apenas, claro…, no seio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP), o Dia da Língua Portuguesa.

Ter-se-á tratado, efectivamente, de uma celebração feita num círculo tão restrito que eu, por exemplo, falante da Língua Portuguesa, residente em Portugal, só por mero acaso descobri que, nesse dia, se festejava a Língua Portuguesa.

Creio vir a propósito desta espécie de secretismo lembrar uma intervenção do professor catedrático da universidade de Coimbra Carlos Reis feita num programa emitido no ‘pequeno ecrã’ (Sociedade Civil, RTP2) a propósito da comemoração do dia internacional da língua materna (em Fevereiro de 2014): realçando o facto de, em Portugal, há trinta anos não haver uma «política de língua» (que explicou ser «um conjunto de princípios articulados dirigidos para práticas concretas, combinadas entre os protagonistas que falam a língua portuguesa e acompanhando e monitorizando constantemente aquilo que se quer fazer»).

E concluiu que «nós devíamos ter uma diplomacia que deixasse um bocadinho de lado certos preconceitos que ainda tem».

Ora, estando em vigor o chamado Acordo Ortográfico – que cientificamente vale zero, por assim dizer – concordo que não existe (e nunca existiu?) a tal política de língua.

E isso é que é, na minha opinião, verdadeiramente preconceituoso, vergonhoso e lamentável.

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