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06
Jun18

A preguiça de pensar

Ricardo Jorge Pereira

Mesmo conhecendo, pela Comunicação Social, a verborreia utilizada por alguns ‘líderes’ desportivos – e políticos – em Portugal (com o claro objectivo, antiquíssimo, de criar inimigos para fortalecer a sua posição e, assim, perpetuar-se no poder), não consegui identificar o autor de uma frase grafitada que li, há não muito tempo, num jardim em Barcelos: «Morte aos Mouros».

Obviamente que isso pouco ou nada interessa.

O que interessará, sim, é perceber a lógica – se alguma, claro – que poderá estar na base de tais palavras num país como Portugal.

Peço, por isso, auxílio às instrutivas e sábias explicações do Professor José Hermano Saraiva num programa televisivo por si apresentado (salvo erro, da série “A Alma e a Gente”):

 

«Como todos sabem, os árabes [eram sobretudo muçulmanos do Norte de África. Árabes vindos da zona do Próximo Oriente eram poucos] iniciam a sua invasão no ano 711 [da chamada era cristã]. Bom, vão rapidamente até ao Norte da Península [Ibérica] porque em 722 (portanto onze anos depois) já é a batalha de Covadonga – Covadonga é a primeira batalha entre cristãos e mouros para a Reconquista. Isso quer dizer que eles em dez anos chegaram de cá de baixo até lá cima. E depois os cristãos tentam reconquistar a Península. Mas não demoraram dez anos. Demoraram setecentos e setenta porque só acabaram a Reconquista com a conquista do Reino de Granada que foi em 1492. (…) Como é que os mouros demoram dez anos a ‘apanhar’ a terra toda e os cristãos demoram setecentos e setenta a recuperá-la? (…) Há uma fábula – a fábula do avarento e dos ladrões – o avarento levava um burro com as albardas pesadíssimas com todo o seu ouro, e nessa altura vinham lá os ladrões e o avarento disse ao burro: «foge, foge, que vêm lá os ladrões». E o burro perguntou: «mas vou fugir… o que é que eles me fazem?». «Opá, põem-te umas albardas…». «Assim como estas?». «Sim, como essas!». «Então tanto me faz. Albarda por albarda tanto me faz ser burro de um ladrão como burro de um avarento...».

Ora, é isso que acontece com a invasão árabe: quando os árabes chegam as populações não são livres. Não se pense isso. Estão sob o domínio pesadíssimo dos senhores visigóticos que são sustentados pelas populações (têm pesados tributos) – são os visigodos a origem da nobreza … –. Ora bem, os árabes são muito menos exigentes: cobram um tributo mais leve.

(…) Então e a religião? Eles passam assim do Cristianismo para o Islamismo? Não, não passam coisa nenhuma porque os invasores tinham inteligência de ser tolerantes: quem quisesse continuar cristão continuava cristão, a igreja continuava aberta, os sacerdotes continuavam a dizer missa. Era preciso, é claro, era pagar um impostozito...o que fazia com que as autoridades árabes até preferissem que a população continuasse cristã que era maneira de guardarem o imposto (de outra maneira não ganhavam nada). Bom, isso é que explica que as populações aceitaram como uma libertação a vinda dos árabes. E, depois, quando os senhores visigodos voltaram aceitaram isso – a Reconquista – como um regresso à opressão. E há inúmeras revoltas dos povos que os visigodos diziam que libertavam mas que, realmente, se revoltavam contra os seus senhores. (…) Contra os seus próprios senhores.

Bom, é isso que explica que, realmente, há regiões da Península onde a dominação árabe durou muito tempo – no Sul durou mais de sete séculos; no Norte durou poucas dezenas de anos ...».

 

Resta-me, depois de ter escutado esta brilhante explicação, dizer que desisti de ‘aplicar’ à frase que li no jardim (e, por extensão, a quem a escreveu, claro) uma outra frase (esta dita pelo poeta e escritor germânico Johann W. Goethe) – «Não há nada pior do que a estupidez agressiva» – em favor de uma outra proferida pelo próprio Professor José Hermano Saraiva: «preguiça do pensar».

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