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14
Mai18

Contra o ódio e a intolerância

Ricardo Jorge Pereira

A cidade de Surabaya, a segunda maior cidade da Indonésia, foi ontem ‘sacudida’ por um conjunto de explosões que feriram e mataram fiéis em alguns templos cristãos.

As igrejas terão sido atacadas por um grupo – Jemaah Ansharut Daulah –, inspirado pelo Estado Islâmico, segundo acreditam as autoridades do país cuja população segue, predominantemente, os ensinamentos do islamismo.

Tenham sido, de facto, os autores oriundos desse grupo ou de qualquer outro por identificar (ainda) tais actos nada mais revelaram do que ódio e intolerância.

Aproveito, por isso, para reproduzir um texto que escrevi há já alguns anos sobre a ilha das Flores (na Indonésia, não a do arquipélago dos Açores…) que, espero, sirva para combater (dentro das suas possibilidades, claro) esse ódio e essa intolerância para com o outro.

 

«Decorreram, há já alguns meses, as festividades da Páscoa.

 

Assim se voltaram a assinalar, em todo o mundo abraçado pelo Catolicismo, a morte e a ressurreição do filho de Deus.

 

Na ilha das Flores, na Indonésia, também.

 

A ilha das Flores tornou-se conhecida dos portugueses pouco depois da conquista de Malaca, em 1511: imbuídos pela procura das “ilhas das especiarias”, os marinheiros lusos continuaram a navegar no Índico e lograram chegar, entre outras, às ilhas das Flores e de Solor.

 

Foi, aliás, a partir de Solor que os missionários dominicanos iniciaram a acção evangelizadora na ilha das Flores.

 

Tal não impediu, porém, que Portugal tivesse cedido à Holanda a soberania da ilha depois da assinatura de um tratado em Abril de 1859. José Joaquim Lopes de Lima, então o governador de Solor e de Timor, foi o principal responsável pelos acontecimentos que rodearam a ratificação deste tratado que, tendo desagradado às autoridades reais em Lisboa, levou ao seu embarque, sob prisão, para aí responder. Acabou, no entanto, por morrer durante a viagem.

 

Foram-se os portugueses mas a herança deixada nas Flores continua, ainda hoje, a ser relembrada e, sobretudo, vivida: rodeada pelo Islão – que, na Indonésia, representa a identidade religiosa da maioria da população –, a ilha das Flores é o “coração católico” do País (no maior país muçulmano do mundo, existem duas ilhas em que o Islamismo não tem a primazia. Na ilha das Flores é o Catolicismo que cativa mais de 85% da população local e na ilha de Bali é o Hinduísmo que predomina).

 

Mas a devoção pelo Catolicismo não tem impedido que os cristãos vivam a sua fé de forma exclusiva e autónoma.

 

Bem pelo contrário.

 

Fiéis de todas as religiões presentes na ilha – muçulmana, protestante, hindu e budista – envolvem-se nos preparativos das festividades e não só. São, por exemplo, muçulmanos os jovens que, de forma voluntária, asseguram a normalidade da procissão (que atrai, até, pessoas vindas de ilhas vizinhas e turistas) que se realiza na capital da ilha, Larantuca.

 

A solidariedade entre muçulmanos e cristãos é, assim, renovada a cada ano que passa. Este verdadeiro diálogo ecuménico só é, de facto, possível porque todos se envolvem: a comunidade (cristã ou não), o Governo e as igrejas locais.

 

Se, outrora, os missionários dominicanos que iniciaram a conversão ao Catolicismo dos povos da ilha das Flores (e, também, dos de Timor, por exemplo) não contaram com qualquer apoio político sério do governador português de Malaca, também hoje, a crença deste povo parece depender apenas de si já que não tem existido nenhum apoio político [e religioso?] vindo de fora das fronteiras da Indonésia.».

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