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04
Jun18

Elogiar censurando

Ricardo Jorge Pereira

Assim como não nego o carácter propagandístico da exposição dedicada à nova Rota da Seda organizada pela embaixada da República Popular da China em Portugal (com a colaboração do Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa) que esteve, após o dia 25 de Abril deste mesmo ano – e durante alguns dias –, patente no átrio da Faculdade de Letras da referida universidade, também não nego o cunho informativo da mesma.

Começo por citar, pois, o presidente checo, Milos Zeman: «O projecto Uma Faixa, Uma Rota [a referida nova Rota da Seda ou, na língua inglesa, The Belt and Road Initiative] é o maior plano de infra-estruturas em toda a história humana.».

Li, também, que «Autoridades de mais de cem países e organizações internacionais têm vindo, ao longo de cinco anos, a participar activamente na edificação do projecto “Uma Faixa, Uma Rota”. Muitas resoluções importantes emanadas da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas [a ONU] e do próprio Conselho de Segurança da organização têm vindo, também, a ser ‘incorporadas’ no projecto.».

De facto, o próprio secretário-geral da ONU, António Guterres, referiu já: «O projecto Uma Faixa, Uma Rota tem imenso potencial. Abrangendo a Ásia, a Europa e África – e ‘estendendo-se’ a todo o mundo –, é, por isso, muito ambicioso em termos geográficos. Para países desejosos de se tornarem mais ‘integrados’ na economia global, este projecto poderá significar um acesso real a mercados e a novas oportunidades.».

Ora, aproveito, igualmente, para citar o que escrevi no texto “A nova Rota da Seda” que deixei aqui no blogue há alguns meses: «Estou, neste sentido, a lembrar-me de um texto escrito pelo [então] embaixador de Portugal na República Popular da China, Jorge Torres Pereira, «PORTUGAL e a CHINA: Importância crescente do relacionamento bilateral» (que a edição n.º 95 de Fevereiro de 2017 da revista digital Portugal Global publicou).

Ora, nele escreveu, também, que «O Governo português atribui assim a maior importância ao Fórum de Macau, traduzida aliás no alto nível político da nossa representação nas Conferências Ministeriais, e temos dado pleno apoio à dinâmica de expansão e inovação expressa no Plano de Actividades aprovado, com particular destaque para a integração da dimensão “Uma Faixa, Uma Rota” (...), a qual Portugal tem vindo a acompanhar com particular interesse, designadamente em virtude da componente atlântica da “rota marítima da seda do séc. XXI».».

De facto, pude ler, entretanto (em Setembro de 2017), na revista “Transportes em revista” que «O Governo português fechou um acordo político com a China de forma a agilizar os processos aduaneiros entre o Porto de Sines e os portos chineses.».

O próprio secretário de Estado dos assuntos fiscais, António Mendonça Mendes, não escondeu, então, o objectivo de tal processo: «“integrar o Porto de Sines na Rota da Seda”.».

E, assim, não estranhei que a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, alguns meses mais tarde, se tivesse deslocado à China (na companhia de vários empresários, recorde-se): em comunicado, o referido ministério explicou que tal visita possibilitou «concretizar o objetivo de projetar Portugal como um parceiro estratégico da China no desenvolvimento de uma economia do mar competitiva e sustentável, no âmbito da Nova Rota da Seda Marítima».

No entanto, segundo o que pude também ler, há dias, online, num texto sobre este mesmo projecto “Uma Faixa, Uma Rota” (publicado pelo jornal de Hong Kong South China Morning Post – artigo “EU presents (nearly) united front against China’s ‘unfair’ Belt and Road Initiative”), «27 dos 28 embaixadores de Estados-membros da União Europeia em Pequim – a excepção foi o representante húngaro – assinaram, supostamente, um documento acusando o projecto global de infra-estruturas [a referida “Uma Faixa, Uma Rota” ou «The Belt and Road Initiative»] de colocar em perigo o livre comércio e de dar vantagem às empresas chinesas».

Dizendo que a veracidade desta assinatura quase unânime foi assegurada pela edição online do jornal germânico Handelsblatt Global – através do artigo “EU ambassadors band together against silk road” – não consigo deixar de perguntar como é possível às autoridades portuguesas conciliar a vontade (política) inequívoca de participar num projecto com a recriminação e a condenação (também políticas) desse mesmo projecto.

E já o fiz: perguntei, por exemplo, ao (actual) embaixador de Portugal na China, José Augusto Duarte.

Não obtive resposta.

Assim, poderá essa desconfiança estar relacionada com o facto de, segundo algumas previsões, ir a economia chinesa ‘ultrapassar’ as dos dezanove países que fazem parte do Euro no fim deste ano?

E/ou com o facto de que a Europa acomoda, actualmente, cerca de 60% de todo o investimento – entre fusões e aquisições – que o Império do Meio tem no exterior (comparando com cerca de 25% desse investimento que ‘está’ nos Estados Unidos da América e com 15% na Ásia, em África e na América Latina)?

 

 

 

 

Post scriptum: devo, no entanto, acrescentar que questionei também o gabinete, por assim dizer, da secretária de Estado dos negócios estrangeiros e cooperação, Teresa Ribeiro, que, muito gentilmente, me respondeu do seguinte modo: «A posição europeia sobre a iniciativa chinesa “One Belt, One Road” está claramente patente nas conclusões do Conselho de Negócios Estrangeiros sobre a Estratégia da UE para a China, adotadas em 18 de julho de 2016, segundo as quais: "O Conselho apoia a cooperação estabelecida com a China em torno da iniciativa "Uma Cintura, uma Rota", que assenta no cumprimento do objetivo declarado pela China de a transformar numa plataforma aberta que respeite as regras de mercado, bem como os requisitos e as normas da UE e internacionais, e que complemente as políticas e projetos da UE de modo a gerar benefícios para todas as partes envolvidas e todos os países situados ao longo das rotas previstas".».

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