Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

uso externo

uso externo

02
Ago18

Gosto de português

Ricardo Jorge Pereira

Não é, de facto, sobre o manual escolar intitulado “Gosto de português” que quero escrever mas sim, na verdade, sobre uma outra dimensão da língua portuguesa.

Vi e ouvi, efectivamente, há algumas semanas uma reportagem em que um artista britânico nascido na Índia referiu, em dado momento, uma cidade – «Bombay».

Quem preparou a dita reportagem traduziu, então, Bombay por Bombaim.

Nada contra até porque é mesmo essa a tradução correcta: Bombaim.

Ora, uma notícia divulgada no sítio na Internet do Jornal de Notícias no final do passado mês de Junho referia o seguinte: «Avião despenhou-se em zona movimentada de Mumbai».

Repare-se: um cidadão britânico (tendo, é certo, uma origem indiana) referiu-se a Bombaim por «Bombay» enquanto que cidadãos portugueses (em princípio, claro, o/os jornalistas do citado jornal) se referiram a Bombaim por «Mumbai»…

Pareceu-me estranho até porque a cidade de Bombaim foi ‘incluída’ no dote que a portuguesa D. Catarina de Bragança levou para se casar, em 1662, com o rei inglês.

Assim, não sendo eu romancista, aqui deixo uma pequena estória que inventei e que mostra, espero, a facilidade com que deixamos (alguns cidadãos portugueses em que, apesar de me esforçar, ainda me incluo) que a Língua Portuguesa seja ‘contaminada’ por palavras oriundas de outros idiomas quando até existem, em muitos casos, palavras do vocabulário da Língua Portuguesa com o mesmo significado.

 

«A Alexandra, miúda com vinte e poucos anos, era uma aprendiz de chef. Trabalhava numa das ruas mais fashion de Lisboa (num rooftop, mais precisamente) e gastava – como, de resto, o faziam muitos jovens da sua geração – horas online com o seu smartphone e os respectivos headphones com um design nada standard. Mas, certo dia, num shopping center, enquanto degustava um brunch e um cocktail que lhe haviam dito ser um must, ocorreu-lhe (após ter anteriormente visto um flyer) que não seria nada má ideia frequentar um workshop onde poderia, estava certa, adquirir mais know-how para o seu métier e, assim, claro, melhorar a sua performance. Se bem o pensou, melhor o fez. Procurou e encontrou. Ora, um formador – apercebendo-se, certamente, das suas soft skills – perguntou-lhe se tinha já tentado ‘internacionalizar-se’ e, se não, porquê. Afirmou, então, que não. Que nunca tal lhe tinha passado pela cabeça porque a sua expertise profissional era tão reduzida que, acreditava, seria, apenas, capaz de confeccionar pouco mais do que pizzas, snacks, waffles. Ou talvez alguma streetfood… O formador, todavia, insistiu para que o fizesse e lhe fosse dando feedback. Ok, assim faria. Começou a propor os seus serviços a ‘cadeias’ hoteleiras espalhadas pelo mundo. Fartou-se, pois, de enviar e-mails. Enviava, sim, mas poucas eram as respostas. Não seria caso para alguém se admirar que estivesse a começar a perder a esperança. No entanto, uma resposta chegou-lhe. Era de uma directora de recursos humanos de uma das cadeias para quem havia, justamente, enviado a sua proposta. Esta anunciou-lhe estar muito interessada em que uma pessoa com o perfil dela, Alexandra, fosse ocupar uma vaga em Jakarta. No entanto, estando ela, a referida directora de recursos humanos, baseada em New York e a Alexandra em Lisboa, confirmou a sua disponibilidade para a realização de uma entrevista através de Skipe. Entusiasmadíssima, Alexandra, disse que sim, claro. Marcada a entrevista, tudo correu bem e Alexandra ganhou um novo emprego. O que fez, então? Pesquisou, desde logo, na Internet sobre Jakarta e aproveitou, depois, para consultar um travel guide sobre a capital indonésia. Sentia-se, na verdade, mais alive do que nunca… Acabou, de facto, por perceber também que a cidade asiática tinha uma movida própria (desde logo, pelos preceitos religiosos) e condições climatéricas diferentes das da sua Lisboa de sempre. Claro que, assim, não precisou de qualquer gadget para compreender que teria que, muito simplesmente, mudar de lifestyle. Mudar o seu look (começando pelo hairstyle e terminando na boutique de um outlet a comprar roupa mais trendy…). Teria que, no fundo, deixar de pertencer ao mainstream ocidental. Ora, chegou a Jakarta semanas mais tarde e notou que tinha, no hotel em que começou a trabalhar, colegas que, como ela, eram expatriados (ou melhor, imigrantes) e que acabaram por a ajudar a adaptar-se ao seu local de trabalho e à cidade em si. “Quanto tempo pensa ficar por aqui?”, perguntaram-lhe meses mais tarde. A sua resposta: “Talvez...”».

 

 

 

 

Post scriptum: li, entretanto, o texto “Behemoth, bully, thief: how the English language is taking over the planet” que o jornal britânico The Guardian publicou recentemente na sua página na Internet. Numa das frases pude ler o seguinte: «Por cada dia que a língua inglesa “se alarga”, o mundo também se torna um pouco mais homogéneo e um pouco mais “acessível”».

Apesar de todas as palavras bonitas lidas, continuo a ter sérias dúvidas de que o mundo, ao mesmo tempo que se torna, a longo prazo, num ‘local’ cada vez mais ‘igual’, se torne também mais agradável e mais tolerante...

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D