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09
Mai18

Os Descobrimentos e a escravatura

Ricardo Jorge Pereira

«Neste local construíram-se as naus que descobriram novas terras e novos mares e levaram a todo o mundo o nome de Portugal».

Recorda, deste modo, uma placa toponímica localizada na avenida Ribeira das Naus, em Lisboa, a expansão marítima portuguesa.

Estas palavras parecem, contudo, esconder que muitas dessas naus não se limitaram a levar a todo o mundo o nome do país de onde eram originárias: transportaram, simultaneamente, a ambição de supremacia comercial nos mares, o desejo de conversão das almas, a vontade de atingir a superioridade militar para além do alcançar, claro está, do enriquecimento científico e cultural.

Traduziram, assim, as ambições, os desejos e as vontades de todo um conjunto de elites políticas, financeiras, eclesiásticas, comerciais, sociais, científicas e culturais portuguesas.

E transportaram, também, uma espécie de necessidade óbvia de implementar os ‘instrumentos’ considerados imperiosos para os garantir.

A escravização de milhões de seres humanos foi, ‘apenas’, um desses instrumentos.

Se a escravatura sempre existiu na história do Homem, ela conheceu, em Portugal, novos contornos a partir da conquista, em 1415, da praça marroquina de Ceuta (hoje, parte do território espanhol) pois que a saída de braços dos campos e o consequente despovoamento rural foram contrabalançados com a vinda, todos os anos, de cerca de um milhar de escravos capturados em África.

Isto nos séculos XV e XVI.

Assim, «prestavam grande serviço no reino, povoando terras e arroteando matagais»…

Os portugueses – que beneficiaram da existência, no continente negro, de redes de exploração humana que possibilitavam o tráfico, de Sul para Norte (e, por isso, interno) –, passaram a organizar a ‘exportação’ de tais indivíduos para a Europa (e, pois, para Portugal) para o que contavam, naturalmente, com a anuência, passiva ou activa, de autoridades sociais e religiosas nessas sociedades africanas.

Por exemplo, o número de escravos chegou a constituir, na cidade de Lisboa, em meados do século XVI, cerca de 10% da população total: Nicolau Clenardo, na sua “Carta a Látomo, afirmou mesmo estar «em crer que em Lisboa os escravos e as escravas são mais que os portugueses livres de condição.».

Para os coordenadores do “Dictionnaire de la Sociologie” (a tradução portuguesa data de 1990 e foi publicada pela editora Dom Quixote com o título “Dicionário de Sociologia), porém, «raros são os casos de grupos de escravos adstritos aos trabalhos dos campos. Só quase os encontramos na Antiguidade greco-romana, na Baixa Mesopotâmia na época abássida, nas plantações do Novo Mundo.».

Quer se lhes chame serviçais, criados ou escravos (conforme, ideologicamente, melhor se adeque ao contexto…), certo é que a estas pessoas não se lhes atribuía o estatuto de seres livres ou sequer de humanos e, portanto, dotados de sentimentos.

Mesmo antes da década de 1530 e o início da colonização europeia do Brasil, a ilha de São Tomé havia já sido transformada em entreposto de escravos para a Europa e para a América (e, mais concretamente, para as Antilhas).

Passaram, por isso, a ser três os continentes envolvidos em tal infame comércio: Europa, África e América.

De resto, o papel até então exclusivo dos portugueses no comércio em larga escala, por assim dizer, de seres humanos começou também, mais tarde, a ser disputado, sobretudo, por holandeses e por ingleses mas, igualmente, por franceses.

A verdade é que foram cerca de doze milhões aqueles que, arrancados do coração de África, foram levados para as Américas entre o início do século XVI e meados do século XIX.

Foram, assim, milhões de famílias que se desfizeram e milhões de sonhos brutalmente amputados: como se não bastassem as condições ‘logísticas’ da viagem serem, sempre, assustadoramente más (tanto que acabavam por ‘auxiliar’ o mar a tornar-se a sepultura de muitos escravos), o escravo, uma vez no destino, tinha de suportar um sem-número de crueldades, físicas e psicológicas, consoante a maior ou menor bondade do seu senhor (ou dono, se se preferir).

 

***

 

Penso ser importante, depois desta brevíssima introdução à ‘relação’ entre Portugal e a escravatura, dizer que já aqui escrevi sobre a escravatura e sobre as responsabilidades de Portugal na exploração do tráfico de seres humanos (e, mais tarde, no colonialismo…): «Creio (…) que já há muito que deveriam ter sido, em Portugal, edificados núcleos museológicos que pudessem, embora tardiamente, claro, honrar a memória dos muitos milhões de seres humanos que Portugal escravizou e colonizou».

De facto, tal construção e a sua dotação documental trariam (para além de prestarem um valioso contributo para a investigação científica, portuguesa e internacional) várias vantagens.

Destaco duas: 1) o fortalecimento do espírito crítico de toda a sociedade portuguesa lembrando-a de aspectos negativos da expedição marítima portuguesa e, permitindo-lhe, desse modo, retirar ensinamentos para o seu futuro enquanto povo e, precisamente, 2) homenagear, ainda que de uma forma infinitamente modesta, a memória de todos quantos sofreram a humilhação de serem escravos e, enfim, o mal que sofreram às mãos dos seus semelhantes.

Recordo ainda que, por exemplo, a cidade alemã de Luebeck inaugurou, há alguns anos, o Europaeisches Hansemuseum (um museu dedicado à Liga Hanseática que dinamizou, entre os séculos XV e XVIII, o comércio na região).

Ora, tive a oportunidade de ler, há alguns dias, num jornal nacional, um texto de opinião dizendo, entre outras coisas, evidentemente, que a responsabilidade do país nesse comércio esclavagista deveria ser ‘explorada’ num museu, sim, mas num dedicado, por assim dizer, aos Descobrimentos.

Ou seja, a escravatura ‘ocuparia’ um mero capítulo desse episódio necessariamente mais vasto (em termos temporais) dos Descobrimentos portugueses.

Devo dizer que discordei da proposta.

Porque se é uma verdade inequívoca que a escravatura foi, apenas, uma parte de tal movimento ‘descobridor’ e explorador não deixa também de ser uma importantíssima verdade que um só núcleo museológico congregando essas duas facetas da história de Portugal – ou, se se quiser, as duas faces de uma mesma moeda... – poderia acarretar risco de como que desvalorizar ou subalternizar, ainda que involuntariamente, o papel de Portugal – e de portugueses – na participação em tão ignóbil comércio.

Proponho, pois, a construção em Lisboa (capital de Portugal e desse império) de dois museus: um ‘dedicado’ aos Descobrimentos e outro consagrado à escravatura.

Dois espaços independentes mas necessariamente ‘dialogantes’, claro está.

 

 

 

Post scriptum: foram encontrados, no início de Junho de 2015, junto à Cidade do Cabo, na África do Sul, destroços de um navio naufragado há séculos que se pensava ser o português São José Paquete de África. Este navio dedicava-se ao tráfico de seres humanos e o seu afundamento terá provocado a morte a centenas de escravos.

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