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23
Abr18

Os escravos dos tempos modernos

Ricardo Jorge Pereira

Qualquer uma das (poucas) pessoas que faz o favor de ler o que aqui costumo ‘deixar’ saberá que este é um espaço livre.

Não me inibo, assim, de reproduzir textos (ou frases) que se enquadram naquela que é a visão que tenho do mundo.

De facto, li este artigo de opinião de Marco Silva (consultor estratégico e de investimentos) – “Escravos dos tempos modernos” – na edição online do Jornal Económico de há alguns dias.


«“A política não tem relação com a moral”, disse Nicolau Maquiavel, considerado por muitos como o pai das ciências políticas modernas, agraciado com uma palavra a si dedicada, maquiavélico, para definir a caracterização que fez dos políticos sem escrúpulos, nomeadamente na sua obra “O Príncipe”. O termo maquiavelismo identifica o sistema político baseado na má-fé, no oportunismo e na manipulação, com o intuito de obter e conservar o poder, pois é através deste que os seus seguidores obtêm o desejado fruto final: a fortuna.

É extraordinário como passados 500 anos a definição de Machiavelli está hoje mais actual que nunca, tal como referi no meu último artigo de opinião, o cidadão, eleitor, contribuinte, não passa de um lorpa, de um idiota útil na busca dos politiqueiros pela fortuna. Quis o destino que, nos últimos dias, viessem à tona mais uns quantos casos que validam isso mesmo.

Os 400 mil euros que Luís Montenegro (PSD) facturou a autarquias governadas por compadres do seu partido, os 322 mil euros que Ricardo Bexiga (PS) facturou a autarquias governadas pelo PS, ambos por ajuste directo. A compensação do Parlamento, entre 2.000 e 2.500 euros mensais, que recebem os deputados eleitos pelas ilhas, mesmo que não viajem, sem necessidade de apresentar comprovativo de voo e em acréscimo ao Subsídio Social de Mobilidade.

Para agravar o logro, todos se escudam no cumprimento da lei. Carlos César, um verdadeiro imperador do erário público, que conseguiu colocar mais quatro membros do seu núcleo familiar em tachos na administração pública, chegou mesmo a reivindicar que a compensação que recebe, mesmo que não viaje, é eticamente irrepreensível.

E também houve lugar para o chico-espertismo do deputado do BE, Paulino Ascenção, que renunciou ao mandato alegando ter pactuado com essa “prática incorrecta”. Só que Paulino tinha anunciado em Fevereiro que iria renunciar ao mandato caso fosse eleito coordenador do BE, o que veio a acontecer no início de Março. Pior que um intruja é um intruja chico-esperto. Não chega fazer de nós lorpas, ainda nos quer passar um atestado de idiotas.

A questão é muito simples. Quem faz as leis das incompatibilidades e de ética são os próprios prevaricadores, quem analisa as situações é da família dos prevaricadores (políticos), pelo que não admira que os esquemas sejam legais à luz da lei martelada. Citando Franklin Roosevelt: “na política nada acontece por acaso; se aconteceu podem ter a certeza de que foi assim planeado”.

E se, por milagre, algo sai fora das leis cozinhadas para a classe política fazer a sua vidinha, quem analisa e faz justiça? O Ministério Público e os Tribunais. E o que falta a ambos? Autonomia e recursos para o fazer. Outro incómodo para os partidos dá pelo nome de Entidade das Contas e Financiamentos Políticos, que já veio dizer que não tem meios para cumprir as funções da nova lei do financiamento partidário.

Como extrair este cancro incrustado na sociedade portuguesa, o maquiavelismo? Logo à partida, importa tomar consciência da realidade, tal como Charles de Gaulle afirmou: “para se tornar no mestre, o político passa por servidor”. Ou seja, eles não estão para servir a causa pública, mas para se servir de si, de mim, de todos nós, os lorpas. Desde o 25 de Abril que o corporativismo político dos partidos ergueu muros quase intransponíveis para uma mudança. Portugal tem das piores e mais exigentes leis para a criação e manutenção de partidos, numa clara manobra para impedir a entrada de sangue novo e a mudança do statu quo.

Se pensa que ao votar está a eleger alguém que escolheu, desengane-se, está a eleger quem foi escolhido pelo sistema para ser eleito, o que faz toda a diferença do mundo. Não é uma escolha sua, é a validação de uma escolha feita por outros.

Por último, uma sugestão que está ao alcance de qualquer um e onde, por ora, ainda temos poder real, o de consumidor. Só o quarto poder (os media) conseguirá abanar este maquiavelismo, mas o sector, fruto de muita incompetência de gestão e compadrio com os partidos, está refém destes. Não todos, mas uma boa parte.

Liguem, escrevam, telefonem para as redacções a exigir investigação sobre a vida política. Leiam e partilhem essa informação. Ignorem os programas sem qualquer mais-valia de cidadania, como os big brothers, os desportivos diários ou os espaços de opinião dos politiqueiros. Exijam e vejam mais programas como o Sexta às Nove na RTP, as investigações da Ana Leal na TVI ou a Grande Reportagem na SIC, porque, no final do dia, são as únicas fontes de contra-poder com alguma eficácia.

Se não o fizerem, lembrem-se desta frase de Platão, um dos inspiradores de Maquiavel: “o castigo por não participares na politica é acabares a ser governado por quem te é inferior”. Inferiores mas não estúpidos, porque enquanto eles enriquecem, o contribuinte tem de suportar a maior carga fiscal dos últimos 23 anos, quais escravos dos tempos modernos.».

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