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13
Jul18

Qual é a "personalidade" de um país?

Ricardo Jorge Pereira

Ouvi esta manhã o primeiro-ministro, no debate sobre “o estado da nação”, dizer (numa sua intervenção) que os números não enganavam.

Achei, e acho, ser um pensamento acertadíssimo.

O que engana – ou melhor, pode enganar – é a utilização (manipulação) dos números pelos seres humanos…

Tal é, julgo eu, facilmente constatado quando vemos as fichas técnicas (ou metodológicas) de alguns ‘estudos’ de opinião.

Ora, o que eu humildemente critico é o facto de se fazerem generalizações a partir de algumas – às vezes poucas – características essencialmente individuais.

Ou seja, “vê-se o todo a partir de uma parte”.

Parte que às vezes, insisto, não é propriamente grande…

Refiro-me, pois, em particular, a ‘estudos’ sobre os tipos de personalidade de um país: um dos mais ‘completos’ foi publicado em 2005 por Robert McCrae (que se apoiou, por assim dizer, no trabalho de setenta e nove colaboradores de todo o mundo e em dados obtidos a partir de respostas de mais de doze mil estudantes universitários em cinquenta e uma “culturas”).

O seu título?

Personality profiles of cultures: aggregate personality traits”.

Assim, a “pontuação” mais elevada para a Extroversão foi a registada pelos estudantes brasileiros, pelos suíços (de língua francesa) e pelos malteses enquanto a “pontuação” mais baixa para aquele ‘critério’ foi obtida pelos estudantes nigerianos, pelos marroquinos e pelos indonésios.

Já a “pontuação” obtida para a Abertura à experiência foi mais elevada junto dos estudantes suíços (de língua alemã), pelos dinamarqueses e pelos alemães.

A “pontuação” mais reduzida foi, por seu lado, obtida pelos estudantes chineses (de Hong Kong), pelos norte-irlandeses e pelos do Kuwait.

Recorde-se que este ‘estudo’ incidiu igualmente na Neurose, na Consciência e na Agradabilidade.

Na verdade, as supostas conclusões ensaiadas por estes chamados estudos psicológicos têm pouco (ou nada…) de científico.

Lembro, de facto, um texto que me parece ser precisamente um ‘testemunho’ exacto da credibilidade científica desses ‘estudos’.

Escreveu o jornal Público em Janeiro passado o seguinte: «Elena Ferrante, pseudónimo de uma das mais influentes escritoras da actualidade, que mantém a sua identidade desconhecida, vai escrever todas as semanas uma coluna para a edição do fim-de-semana do jornal britânico The Guardian».

Ora, é precisamente sobre um texto assinado por Elena Ferrante – “‘Yes, I’m Italian – but I’m not loud, I don’t gesticulate and I’m not good with pizza’” – publicado, online, no fim de Fevereiro deste ano no sítio do jornal The Guardian que quero agora ‘debruçar-me’.

De facto, referiu Elena que «Amo o meu país mas não tenho qualquer espírito patriota nem orgulho nacional. E mais: praticamente não como pizza e como muito pouco spaghetti, não falo alto e não gesticulo, detesto todas as organizações mafiosas e não digo “Mamma mia!”. Os ‘traços’ nacionais são meras simplificações que deveriam ser contestadas. Ser italiana, para mim, começa e acaba no facto de que me exprimo (na escrita e na fala) na língua italiana.».

Concordo em absoluto com aquilo que Elena Ferrante escreveu embora tenha muitas dúvidas acerca do facto de que alguém se considere ‘filho’ de um determinado país apenas por se expressar na língua oficial desse mesmo país.

A personalidade de cada pessoa nada tem a ver com o país onde nasce e os estereótipos nacionais tão em voga nalguns ‘estudos’ não passam disso mesmo, estereótipos.

Ora, a história demonstrou já imensas vezes o quão estereótipos e generalizações podem ser usados para esconder a realidade.

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