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28
Mai18

Um lugar para Portugal

Ricardo Jorge Pereira

Escassíssimos dias após ter sido apresentado o “Manifesto Europa e Liberdade” por um conjunto de personalidades preocupadas com o futuro de Portugal também eu – embora sem a ambição de alcançar o ‘palco’ mediático – escrevo sobre esta ‘temática’ pois como cidadão português penso ter toda a legitimidade – a legitimidade conferida pela cidadania… – e a obrigação, diga-se, de tentar contribuir para responder à questão “Para onde vai Portugal?”.

Na verdade, esta questão não tem implícita qualquer inquietação derivada de se encontrar (ou não) um qualquer ponto geográfico para o país se fixar.

Claro que não.

Tem subjacente, isso sim, uma dúvida em relação ao ‘posicionamento’ simbólico (e ideológico) de Portugal no mundo.

E também não é propriamente recente: de facto, já expressara António Ramalho Eanes, no discurso que fez aquando do acto de investidura como presidente da República Portuguesa, em Julho de 1976, a importância e a necessidade de se encontrar o «lugar de Portugal no mundo».

Ora, para se projectar o futuro – seja de uma pessoa, seja de um país – é imperioso olhar para o passado e, se possível, tentar compreendê-lo.

E, antes de tudo, aceitá-lo com todos os defeitos e virtudes que necessariamente teve.

Assim, se Portugal “deu novos mundos ao mundo” com os Descobrimentos e o mudou para sempre aproximando povos e culturas também nesse ‘contexto’ praticou a escravatura (não a inventando, recorde-se) ou a violência física e psicológica sobre milhões de pessoas.

Penso, de resto, que esta não aceitação e não compreensão estão na base de, por exemplo, um certo mal-estar que há já algum tempo que está instalado nalguns círculos académicos, (supostamente) intelectuais e políticos portugueses devido à utilização do termo lusofonia.

Porquê?

Porque, na sua perspectiva, ao conceito de lusofonia estão subjacentes não questões identitárias nem linguísticas mas, apenas e só, sentimentos próximos de um nacionalismo impertinente e de um novo tipo de colonização, o chamado neocolonialismo.

E, também, seguramente, de uma certa postura eurocêntrica.

Por isso se chega mesmo a propor o seu abandono em favor do termo lusotopia.

Ou seja, o facto de não se compreender (nem sequer de aceitar…) o percurso histórico de Portugal

que, durante séculos, ajudou a transformar este pequeno país europeu em dominador e explorador, positiva e negativamente, de tantos povos por esse mundo fora, parece-me ser uma falha gravíssima denotando até, o que já aqui escrevi (no texto a que dei o título “O património subsaquático português”) “«uma espécie de negação de um determinado período da História de Portugal. Ou seja, uma disfunção comportamental (“complexo de culpa”, por assim dizer) que origina o repúdio e a vergonha por um período da História em que Portugal se superiorizou – nos mares, bem entendido, pela primeira e única vez – a outras nações do globo.».

Seja como for, o que me parece ser verdadeiramente importante não é tanto esta preocupação com questões de carácter terminológico e vocabular ainda que, subjectivamente, possam e sejam, como disse, ‘estendidas’ a campos políticos e ideológicos ‘límpidos’, em meu entender, claro.

O que me parece ter uma ‘suprema’ importância é a ausência de uma estratégia.

E, naturalmente, de quem a estruture e lhe dê consistência teórica.

Falta, no fundo, quem pense o país.

A começar pelo ‘capítulo’ da língua portuguesa.

Parece-me que também neste campo Portugal tem falhado em toda a linha.

Como, de resto, um também meu ‘convidado’ (o docente na universidade de Coimbra, Carlos Reis) referiu já: há trinta anos que não existe uma «política de língua».

Manda igualmente a verdade que refira que nem mesmo o dito Acordo Ortográfico de 1990 veio alterar esta já tão prolongada ausência pois Diogo Freitas do Amaral, antigo dirigente do partido político CDS-PP, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal e antigo presidente da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, afirmou na edição dos Diálogos com o Mosteiro dos Jerónimos dedicada ao tema, se se quiser dizer assim, “Lusofonia e a CPLP como desafio” que os programas televisivos protagonizados por portugueses têm que ser, no Brasil, legendados para poderem ser percebidos pela audiência. Mesmo estando em vigor as regras ditadas por tal acordo…

Mas não é só a língua.

Recordo três exemplos: D. Duarte Pio, pretendente ao trono português – citado pelo jornal Diário de Notícias no segundo dia de Dezembro de 1986 –, revelou, na cerimónia comemorativa do Dia da Restauração da Independência que havia tido lugar no dia anterior numa das salas do lisboeta Castelo de São Jorge que, no decurso da sua recente visita ao Extremo Oriente, havia sentido existirem ainda, para com Portugal, sentimentos de prestígio e reconhecimento na região apesar da «actual quase ausência de expressão cultural e económica portuguesa nessas paragens».

Muitos anos mais tarde (em 2012), no seu livro “Oriente Distante, o investigador português radicado em Macau Joaquim Magalhães de Castro (o mesmo que foi o responsável pela ‘condução’ da entrevista à autora Deana Barroqueiro que aqui reproduzi na passada semana) observou que «Portugal, pioneiro quantas vezes, teimosamente presente – apesar da perda do protagonismo – nos recônditos mais perdidos e inesperados do globo. Presença essa bem viva, não só nos vocábulos da língua-mãe de inúmeros povos, mas também nas suas tradições, cultos religiosos ou nas recordações dos mais velhos. Apesar disso, e pese os 500 anos de permanência no Oriente, de viagens, rebeldias e desobediências por esse mar adentro somos tão conhecidos na Ásia moderna como o Luxemburgo, que nunca saiu do colo da Europa.».

E mais um: tendo resultado de uma iniciativa do Observatório da China e da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (a U. C. C. L. A.), decorreu em Lisboa – no cinema São Jorge, mais exactamente –, no final do mês de Junho (entre os dias 23 a 29, se me não falha a memória de espectador) de 2014, o Festival Internacional de Cinema Chinês e Lusófono. Foram, assim, exibidas diversas películas (representando as áreas da ficção e do documentário ou da então designada “contaminação de linguagens”, por exemplo) e organizadas conferências. No entanto, e apesar de ser um certame chinês e lusófono, não consegui encontrar, entre os autores e realizadores presentes, um único ‘representante’ de Angola, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de Moçambique, de São Tomé e Príncipe ou de Timor-Leste (e mesmo do Brasil logrei descobrir, apenas, dois co-autores num filme com um terceiro autor de nacionalidade portuguesa). Pelo contrário, entre a pouco mais de uma vintena de filmes exibidos, descobri, sobretudo, origens portuguesas (de Portugal e de Macau) e chinesas. (Talvez isso ajudasse a explicar por que razão algumas destas sessões cinematográficas não tivessem tido mais do que quinze espectadores e uma houve que teve, apenas, cinco quando a referida sala poderia albergar cerca de mil pessoas…).

Concluo, deste modo, esta minha opinião apropriando-me de palavras do falecido Professor e (excepcional) pensador Agostinho da Silva: «Enquanto Portugal estiver preso por uma série de falhas, de faltas, sejam culturais, sejam materiais, é evidente que não pode ser modelo de coisa nenhuma. É um país que pode ir a caminho de qualquer coisa importante. Que pode, de vez em quando, realizar como realizou – com as navegações e os Descobrimentos – uma proeza, alguma coisa que seja importante para o mundo mas é, realmente, um país que não pode dar-se como modelo do mundo. Quer dizer: o primeiro cuidado de Portugal devia ser tratar de si próprio. (…) Portugal, hoje, devia construir-se a si próprio».

Estas palavras foram pronunciadas em 1988 mas, para mim, continuam hoje, infelizmente, a fazer todo o sentido.

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