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20
Jul18

Utentes sem português

Ricardo Jorge Pereira

Num momento em que tanto se fala de problemas no seio do Serviço Nacional de Saúde – sendo que muitos não se limitam a falar pois sentem-nos na pele… –, republico, por assim dizer, um texto que escrevi há já alguns anos e a que dei o título “O acesso à saúde: quando os utentes dos hospitais não falam português”.

 

«Porque a doença não escolhe, muitas vezes, ‘alvos’ específicos, questionei as equipas gestoras – públicas e privadas – de alguns centros hospitalares portugueses sobre as estratégias adoptadas quando ‘confrontados’ com utentes que não conseguem exprimir-se em língua portuguesa.

Assim, ***** ******, do serviço de humanização do Centro Hospitalar de São João, no Porto, explica que «O processo de atendimento de doentes estrangeiros no Centro Hospitalar de São João, no que concerne aos aspectos relacionados com a comunicação/ tradução é o seguinte:

1 – Os profissionais de saúde procuram perceber quais os recursos linguísticos do doente e saber se é possível estabelecer uma comunicação efectiva com ele numa língua em que doente e profissional de saúde sejam capazes de comunicar.

2 – Se a língua ou línguas faladas pelo doente não forem compreendidas directamente pelos profissionais que lhe prestam assistência ou por outros do mesmo Serviço Clínico, procuramos saber se dentro do próprio Hospital existe alguém capaz de fazer a tradução. Para isso, há uma bolsa de potenciais tradutores, onde estão identificados profissionais do Hospital provenientes de outros países ou que tenham conhecimento de alguma língua estrangeira (além do inglês ou francês), a quem é pedido apoio na tradução. Com alguma frequência, temos casos de doentes que falam a língua russa, ucraniana ou romena, para as quais o Hospital tem profissionais identificados e a quem é solicitada colaboração se necessário.

3 – Face à impossibilidade de encontrar dentro do Hospital alguém capaz de estabelecer comunicação com um doente estrangeiro, procuramos saber, nomeadamente junto da embaixada ou do consulado respectivo, se existe alguém identificado que possa ajudar presencialmente no processo de tradução.

4- Esgotadas as possibilidades anteriores, onde a presença pessoal do tradutor é sempre privilegiada, o Hospital tem ainda a possibilidade de recorrer ao Serviço de Tradução Telefónica (STT), que é um serviço de tradução público e gratuito, disponibilizado pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI), que assegura a tradução de mais de 60 idiomas num formato de conferência telefónica.».

Por seu lado, ****** *******, do gabinete de comunicação, informação e relações públicas do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, refere que «o procedimento habitual, no caso do profissional não conseguir estabelecer comunicação com o doente, contacta este Gabinete o qual procederá ao contacto com as respectivas embaixadas para agilizar a comunicação. Há ainda o recurso ao serviço de tradução telefónica através da linha SOS imigrante.

Informo ainda que está em fase final de elaboração uma norma interna que descreve a forma como o profissional deve agir sempre que tem dificuldade em comunicar com doentes devido a barreiras linguísticas.».

Por seu lado, *** *****, directora no Hospital da Luz, em Lisboa, (e ela própria com algumas dificuldades na escrita em português) observa que «Quando temos turistas no Hospital da Luz que nao falam ingles ou portugues, usamos estes recoursos:

- nosso banco de linguas: tem todas as idiomas falados por os funcionarios do hospital. Existe varios idiomas.

- questionario de triagem em 13 idiomas.

- servico de traducao telefonico com 55 idiomas disponivel.».

***** *******, do serviço de relações públicas e comunicação do Hospital do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada, E. P. E., São Miguel, Açores, regista que «o Hospital criou uma Bolsa Interna de Tradutores, constituída por funcionários ou amigos, que dominam outras línguas, como por exemplo: Russo, Mandarim, Italiano, Francês, Crioulo, entre outras.

Para além desta bolsa, dispomos de outros instrumentos/alternativas como:

- serviço de tradução telefónica

- contactos nos hotéis onde o utente se encontra hospedado e manual multilinguístico dedicado à saúde»».

 

Ou seja, apesar das pouquíssimas respostas que obtive, uma ‘coisa’ era – e é – certa: a língua (a cultura, no fundo) pode tornar-se um obstáculo na vida de uma pessoa ou de um grupo de indivíduos.

Obstáculo fácil de contornar” ou, ao invés, “obstáculo (quase) intransponível” depende e dependerá, quase sempre, da vontade dos sujeitos em questão...

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